I’m brazilian with very pride and very love! Por Vinicius B. Vicenzi.

Por Vinicius B. Vicenzi

Desculpem o meu inglês “macarrônico”, mas apesar de ter vivido em terras anglo-saxãs por um curto período, meu forte nunca foi a tradução. Também não julgo necessário, já que esse não é um texto para os meus amigos ingleses, norte-americanos, australianos, sul-africanos, etc. É um texto destinado a brasileiros. Brasileiros que no último dia 15 foram às ruas portando cartazes em língua estrangeira.

Não é de estranhar que numa manifestação “em prol” do Brasil, em que as únicas cores permitidas eram o verde e o amarelo da seleção canarinha, tenham surgido tantos cartazes em inglês? De onde vem tanto nacionalismo que não pode se expressar na língua de Camões, de Eça, de Vinicius ou de Drummond? Fico me perguntando o que achariam Marine Le Pen, do Front National francês, ou os gregos do Aurora Dourada se, ao invés de manifestarem seus “nacionalismos”, seus “patriotismos”, nas suas línguas nativas, optassem por portar cartazes em outras línguas? Certamente franceses e gregos olhariam intrigados.

O Brasil é realmente um país muito estranho. Um país em que aqueles que dizem defender o país da invasão “comunista” (sic), “bolivariana” (sic), dão provas da mais ignóbil subserviência ao maior império atual, me pergunto onde estão, de fato, os autênticos brasileiros, que amam o seu país, a começar por sua língua. Não que eu goste muito dessas definições “nacionais”, identitárias, mas que “verdadeiros” brasileiros são esses que gostam tanto de se oporem aos “falsos”?

Diriam os manifestantes, creio, que traziam cartazes em inglês para “alertar o mundo” sobre os desmandos do governo local, como fazem cidadãos de outras pátrias quando oprimidos por ditaduras ou regimes de forte repressão. Mas será mesmo esse o caso brasileiro? Que “ditadura bolivariana” é essa que permite que a Presidenta da República seja xingada dos mais chulos termos e não aconteça nada? Que regime “opressivo”, “comunista”, é esse em que ricos e pobres nunca ganharam tanto dinheiro ao mesmo tempo e pelo mesmo período? Que me desculpem os manifestantes, mas essa conta não fecha.

Cartazes em inglês, muitos com erros grotescos, piores que o do meu título, estavam ali nas ruas por outros motivos. É verdade que foram vistos alguns em italiano, francês e até mesmo em alemão, mas a profusão de frases em inglês demonstra algo para além da intenção de seus autores: somos um país de deslumbrados vira-latas. Tem jeito mais chique do que chamar uma liquidação de “sale” ou tantos por cento “off”? Coitados dos “saldos” portugueses! Nessa terra de gente “chic” e “diferenciada”, a língua inglesa assume um status que não possui em outras latitudes. Estacionamento, por exemplo? Os “bons” viraram “Parking”. Bom, sem contar o número de “Shopping Centers” espalhados por todo o território. Falar inglês aqui é, assim, sinônimo de status. O pai não coloca seu filho num dos milhares de cursos que há no país para que possa ler Shakespeare, Virginia Woolf ou Joyce. Tampouco pra que tenha mais desenvoltura para percorrer e conhecer o mundo, abrindo a mente para outras fontes de informação que o façam repensar o pensamento único midiático desse país. Escola de inglês aqui é sinônimo de “classe”. Não “classe” em sentido “britânico”. Classe social mesmo. Ricos ou aspirantes à ascensão social.

Assim, é muito provável que aquele que pegou uma cartolina e escreveu sua mensagem em inglês só estava querendo dizer uma coisa no último dia 15: “Vejam como eu sou uma pessoa ‘diferenciada”! Num país que começa finalmente a misturar os espaços sociais, em que aeroportos e universidades não são mais só espaços de um “tipo” de gente, as manifestações do dia 15, em inglês, pediam isso: “Quero meu país (leia-se, meus privilégios de classe) de volta!” “Quero meu país (leia-se, subserviente às outras potências) de volta!” Quero, em suma, meu país como “colônia” norte-americana de volta. Se possível, em que o dólar esteja mais baixo e o visto mais fácil (se houvesse uma cidadania similar a que há entre Porto Rico e EUA, melhor ainda).

Sei que não foram todos os manifestantes de domingo (e não há ironia aqui) que saíram às ruas com esse propósito. Nem todos portavam esse tipo de cartaz. Mas é sintomático para aqueles que portavam, e também àqueles que ao lado deles marcharam, que houvesse tantos pedidos em língua inglesa. Ou os homens e mulheres “de bem” não estranham o fato de se lutar contra um governo nacional usando uma língua que não é a “nossa”? Não estranharam que muitos desses cartazes pedissem “military intervention”? Precisa traduzir para se horrorizar com isso?

Não sei, receio que boa parte daqueles que verdadeiramente amam o Brasil, louvam o seu povo e a sua terra, tenham ficado em casa. Por detrás de tantas camisas verde-amarelas, de tantas bandeiras nacionais e de tantos hinos cantados à capela, sinto que se esconde uma outra face, nenhum pouco verde e amarela, uma face oculta muito cruel, “entreguista”, subserviente e anti-nacional: a face da colônia que não consegue viver sem uma metrópole a lhe dizer o que fazer, como agir, o que ser.

Sim, nossa bandeira não tem vermelho, e não há ninguém propondo troca de cores, mas não é isso que importa, e sim o sentimento de oferecer cidadania ao maior número de brasileiros, não apenas a um grupo social restrito. Que me desculpem os manifestantes, mas verde-amarelo em pele de cordeiro não me interessa. Prefiro que nossa bandeira tivesse vermelho, preto, rosa, muitas outras cores. Quem sabe se, parecida com a do movimento gay, ela pudesse expressar que nesse país, tão grande, tão diferente, cabem todos. E não apenas alguns. A Colônia já acabou, é preciso, talvez, anunciar com todas as letras. Quem sabe se afirmarmos em inglês, com toda a pompa, essas pessoas tão presas ao passado entendam: Colonial times are over!

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