O fim apoteótico da aristocracia joanina. Por Ion de Andrade

Antevejo duas evoluções possíveis considerando a ucranização do Brasil pouco provável: a) o movimento declina e se enfraquece ou b) desenvolve vertente terrorista, de vida curta pela nossa cultura pacífica que não é fato menor e que produziria imediato consenso e repulsa de grande monta. Não enxergo no movimento força ou consistência para a cronificação necessária ao projeto de sangria, embora é certo que tentarão fazer outras manifestações que podem até ser numerosas.

Cabe ao governo agora assumir a governança com firmeza e humildade e prosseguir conduzindo a nação ao destino democrático, justo, próspero e soberano a que todos nós brasileiros aspiramos. O único risco que corremos é o governo não governar, pois para isso foi eleito pela maioria.

Definitivamente o Brasil não é um país para iniciantes. (Leia a análise de Ion de Andrade).

http://jornalggn.com.br/fora-pauta/o-fim-apoteotico-da-aristocracia-joanina-por-ion-de-andrade

ENVIADO POR ION DE ANDRADE SEX, 20/03/2015 – 16:33 (www.jornalggn.com.br)

Autor: Ion de Andrade.

Tenho tentado entender nesses últimos dias o sentido profundo do misterioso 15 de março. O 13 de março eu já entendi, são os “300 de Esparta” que despertam a nação. Foram muitos, porém maiores no significado que no número.

Mas o 15 de março mereceu para mim reflexão mais longa e doída, uma indigestão longa aliás.

Sei que há pessoas que foram às ruas contra a corrupção, por acharem que é fenômeno novo no Brasil ou que está maior do que nunca. Mas essas pessoas selecionam a sua indignação e minimizam a corrupção da direita, é triste ver jovens com indignação seletiva… Então , do 15 de março constato em primeiro lugar o fato de que não traz projeto de sociedade, divide-se a turba em torno de dois métodos de derrubada do poder: uns defendem o impeachment e outros a dita “intervenção militar constitucional” e a isso se resume a rasa elaboração intelectual de tão pujante movimento.

E não vão bem no que toca a essas propostas golpistas. O impeachment é proposta de baixíssima viabilidade, exigiria maioria que a oposição não tem e que o PMDB não parece disposto a conceder… a presidenta, honesta que é, teima em não ser atingida pela corrupção. Uma situação que obriga os líderes da oposição a triste romaria mendicante por toda parte em busca de enlamear a presidenta.

A Intervenção Militar Constitucional que parece coisa de lunáticos, é o que mais se aproxima do sonho fascista, ou seja, a ideia de um totalitarismo com ideologia orgânica ou a “democracia fascista” onde uma maioria governa pela força esmagando uma minoria despojada de direitos. Para isso, porém, seria necessário um grau de consenso tremendamente raro, um alinhamento vetorial de vontades que sequer existe no interior do próprio movimento. Pior que tudo, o fascismo poderia significar redução dos direitos de segmentos da classe média que estão se dando muito bem e que seriam obrigados a cumprir a agenda do Estado arbitral de Gramsci. Que tal reduzir os salários da magistratura e do Ministério Público, ou obrigar os médicos a trabalharem em distantes aldeias indígenas após os cursos? Ou acabar com a aposentadoria de juízes como punição suprema? É pouco provável que um regime realmente fascista no Brasil perdesse essa oportunidade…

De fato, como bem viu Gramsci, o fascismo é um Estado arbitral que tenta alicerçar-se sobre ideologia totalitária, ou seja, uma nova totalidade para além da dualidade classista, assegurando, aliás, ao proletariado algumas conquistas novas… Com Hitler os alemães tiveram o seu primeiro carro… Mas então, que concessões ainda quer fazer ao povo brasileiro essa elite patrimonialista que saiu às ruas? E que condição teria de ser base de sustentação de um Estado arbitral prenhe de ódios como é? Não.

A aspiração da turba é a da Restauração de uma Supremacia que se foi, essa sim, para sempre. O Estado com que sonha não é o Estado fascista, é o Estado genocida precedido por uma limpeza moralista e farisaica de natureza física. Dizem realmente em toda parte que é preciso “fazer uma limpa”, ou seja, o genocídio. Ora, apesar de macabra, essa ideia não tem precedentes históricos que não sejam em tempos de guerra, quando uma nação subjuga a outra em disputa territorial do território estrangeiro como fez Hitler na Rússia ou do território pátrio como fez com os judeus, mas o espaço vital da nação está sempre no fulcro da ação genocida…

Então, trata-se do movimento de uma direita passadista, com tonalidades fascistas e sonho genocida, porém incapaz de ser base de um Estado arbitral, por aspirar à condição de ver restaurado o velho Brasil do apartheid. Uma das faixas aliás dizia isto: “Devolvam-me o meu Brasil”. Esse Brasil, entretanto se foi; ele pertence à história e nada há que possa ser feito quanto a isto. Um fascismo no Brasil de hoje não teria como não afirmar a inclusão social que converteu segundo dizem, os aeroportos em rodoviárias, não teria como não continuar a urbanizar as favelas e mocambos, não teria como excluir a juventude da escola…não teria como escapar da inércia da emancipação dos mais pobres que já está em curso com democracia, permitindo aliás, com eira e beira, a sobrevivência nababesca das castas de outrora, então para quê? Para perder o quinhão para tenentes fascistas? Ora, façam-me rir.

Em 64 havia uma disputa entre dois modelos de sociedade e a ditadura encarnou um modelo de desenvolvimento excludente, hoje absolutamente impossível. Contemporaneamente o movimento não parece ter motivações ou projetos de sociedade, de nação, de nada. A exclusão dos incluídos é tarefa impossível, até porque se converteu num mercado que gera dinheiro para boa parte da burguesia brasileira, o que leva a classe média à convulsão catatônica. Mas é interesse da burguesia também a expansão do mercado interno e a conversão dos shoppings em reduto de pardos. O jogo acabou senhores.

Concluo essa primeira parte pela ideia de que o movimento não tem proposta de sociedade e não tem modelo de Estado para a governança.

A segunda ideia que emerge  é a de que o movimento não tem lideranças que o articulem com o mundo real da política e do poder. Contemporâneo que é de um vazio de grandes nomes no campo conservador o movimento não tem ninguém que fale por ele. Isso não se cria, isso é sintoma da falta de propostas.

Observemos: na Venezuela a direita tem líderes orgânicos que representam o movimento. Na França a extrema direita tem uma líder emblemática de velha tradição fascista, Marine Le Pen, na Grécia a esquerda tem líderes, na Espanha idem. O movimento de 15 de março não tem líderes, e não me falem dos quatro jovens… O líder não é um detalhe. O líder é a semente fundadora de dado movimento e confunde-se com ele. Esse movimento é, portanto, “acéfalo” de nascença, é massa de manobra e não funda nova realidade. Na Ucrânia também o movimento foi acéfalo, razão talvez, porque o país vem dando provas de vulnerabilidade interna, caos e política externa errática e entreguista, cairá à primeira eleição decente.

Não quero minimizar os riscos de um movimento acéfalo servir a interesses que ele próprio desconhece, mas constato que é acéfalo e reconheço nisto uma fragilidade sintomática do vazio de propostas para a sociedade. De fato ninguém pode representar um projeto de sociedade que inexiste.

Surpreendentemente um milhão foram ás ruas e não há ninguém que seja capaz de falar por eles e de elaborar minimamente como se conectam ao mundo das representações sociais. Ecos de um passado que se foi, não têm conexão com o hoje. Estranhíssimo fenômeno… Mal saíram às ruas e parecem uma foto amarela na parede. A imagem que me vem quanto à origem desse movimento é a da corte portuguesa que chegou com Dom João VI, gente que se achava melhor que os nativos, que se deu o direito de tomar a casa das pessoas e que, verdadeiramente, ocupou a cidade do Rio de Janeiro a partir de 1808… Os vejo herdeiros dessa velha tradição aristocrática e colonial.

Constato dessa segunda parte que o movimento não tendo projeto de sociedade tampouco produziu líder e que isso decorre do fato de que é um movimento que sonha com a restauração de um Brasil de apartheid que se foi para sempre, Brasil esse que nem o fascismo recuperaria…

Outra coisa bem interessante é o seguinte: Há fundadas suspeitas de que há um dedo gringo no que está acontecendo no Brasil, sentimos isso em nossas tripas. Esse é naturalmente um risco incomum. Mas o Brasil é grande demais e o Estado aqui ampliado demais. De forma que esse agrupamento neocolonial financiado por forças externas conseguiu dar ao movimento um poder de fogo forte e inabitual, são recursos para viabilizar todo esse acúmulo de tensões que atravessou esses meses pós eleições de forma tão geral em todo o país. Admitamos, a força neocolonial nos administrou dose verdadeiramente cavalar. Raríssimos países suportariam.

O que acontece é que essa iniciativa estrangeira e golpista se converteu no Brasil em mais um lobby de interesses golpistas, mas são tantos os lobistas endinheirados e reaças no Brasil que logo, logo começarão a queixar-se do preço da gasolina… Esses lobistas, gringos e brasileiros não atuam sozinhos como se estivessem na casa da sogra, não.

Encontram no campo de batalha pátrio, que é a Sociedade Civil brasileira, as organizações populares e democráticas que ergueram na luta contra a ditadura boa rede de trincheiras e casamatas… Embora não possam propriamente ser chamados de lobby, esses agrupamentos de peso e respeitabilidade nacional se movem também para influir na formação da vontade coletiva apoiando a democracia. Então a força estrangeira e neocolonial de que ouvimos, é certo, os risos demoníacos, atua em terreno habitado por muitos atores autenticamente nacionais, que não se curvam e que formam opinião.

Poderíamos lembrar alguns de muito peso como a CNBB, a OAB, o MST, a CUT, mas também a ABI, mais recentemente o Clube de Engenharia do Rio, o velho Movimento Estudantil, mas também os sindicatos de professores de várias cidades, ou os petroleiros, dentre inúmeros outras entidades representativas de forças vivas da nação… Então isso aqui não é a Ucrânia, nem o Egito…

Concluo dessa terceira parte que a força gringa que agiu em todo o território pátrio azeitando a máquina de guerra da direita nacional, embora tenha melhorado a correlação de forças para eles, não foi suficiente para criar um fato novo que não conhecêssemos nas lutas democráticas que enfrentamos em situação incomparavelmente pior.

Talvez tais forças estrangeiras queiram começar a matar pessoas, mas isto está fora da nossa tradição, seriam percebidos, identificados…

Minha conclusão geral é de que, apesar do esforço hercúleo, o movimento de 15 de março mostrou-se a) incapaz de governar o Brasil e de propor política de alianças suficientemente larga para assegurar, em qualquer medida, a construção desse novo pacto social que está em curso e que tem na inclusão social a sua força mais incoercível. b) incapaz de compor um campo fascista, pois o fascismo, não poderia deter a emergência do proletariado, ao contrário teria que dela tirar força e a turba aristocrática nada tem e nada pode conceder e c) incapaz, por tratar-se de impossibilidade física, antes de histórica,  de Restaurar a realidade excludente anterior, pois se desconhece a viagem no tempo…  Concluo que o movimento não apresenta, por tudo isto, proposta de sociedade a serviço da qual a derrubada do poder estaria alinhada, não podendo, por isto, ter líder que o represente ou sustentabilidade política.

Antevejo duas evoluções possíveis considerando a ucranização do Brasil pouco provável: a) o movimento declina e se enfraquece ou b) desenvolve vertente terrorista, de vida curta pela nossa cultura pacífica que não é fato menor e que produziria imediato consenso e repulsa de grande monta. Não enxergo no movimento força ou consistência para a cronificação necessária ao projeto de sangria, embora é certo que tentarão fazer outras manifestações que podem até ser numerosas.

Cabe ao governo agora assumir a governança com firmeza e humildade e prosseguir conduzindo a nação ao destino democrático, justo, próspero e soberano a que todos nós brasileiros aspiramos. O único risco que corremos é o governo não governar, pois para isso foi eleito pela maioria.

Definitivamente o Brasil não é um país para iniciantes.

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