O cenário está quase pronto para o golpe de Estado

O governo e o PT não se mostram à altura do momento político que o país vive, sob ameaça de retrocesso, porque desfizeram a aliança histórica com o povo e com as principais organizações sociais. E não tiveram a coragem de dar nome aos bois para aqueles que estão orquestrando um golpe de Estado. Ao preferir o jogo dos conchavos políticos, deu no que deu. Hoje, é refém do PMDB, que pode escolher o melhor momento para bandear-se para o bando de golpistas, liderados por Eduardo Cunha e Aécio Neves. Uma nova e arriscada aventura política parece prestes a ser desencadeada no país.

Aprenda para que serve um comentarista da Globo

Da série, para que serve um comentarista da Globo.

Uma das pautas do Bom Dia Brasil de hoje (6/7/15), na Rede Globo, era sobre o roubo de placas de trânsito por alunos do curso de Administração de Limeira (SP). É acionado em Brasília o comentarista e ex-porta-voz do ditador e general presidente João Figueiredo, o jornalista Alexandre Garcia.

Num país e numa emissora em que a única pauta é preparar a opinião pública para aceitar um golpe de estado travestido de rigor técnico e jurídico, eis que Alexandre Garcia, promovido a “comentarista de placas de trânsito”, inspira-se na placa PARE para dizer que ela é importante também para os brasileiros decidirem “para que lado queremos continuar: na rua em que estamos sem freio, ladeira abaixo, ou outra via que pode exigir mais força no motor, porque é subida, mas é esperança de dias melhores”.

Qualquer pauta serve para a Globo dizer que o país está em crise e, claro, a solução desenhada para solucioná-la é um golpe de Estado. Uma coisa é certa: não haverá verdadeira democracia no país sem a desconcentração da propriedade dos meios de comunicação que, aliás, é o que está escrito na Constituição, mas no Brasil, parece que só valem os artigos e parágrafos que interessam aos herdeiros das Capitanias Hereditárias.

A mídia comanda o retrocesso

Por Celso Vicenzi – 4/7/2015

Uma fotomontagem em que a presidenta Dilma Roussef aparece de pernas abertas, na boca de um tanque de automóvel, jogou mais combustível na fogueira de ódio e insensatez que se espalha por todo o país. A imagem é chocante e não ofende apenas a mais alta autoridade do país, mas todos os cidadãos e, principalmente, as mulheres, no Brasil e no mundo. A metáfora visual é a de uma penetração sexual, de um estupro.

Essa afronta não é um caso isolado. Pelo contrário, a passividade das principais autoridades do país tem autorizado uma série de crimes, contra a democracia e contra a dignidade humana. Por trás de gestos mais raivosos, tresloucados e imbecilizados, foi tecida uma competente estratégia de propagar o ódio e promover a agitação social necessária à aplicação de um golpe de estado para o qual só parece faltar o acerto de data. Mais que um golpe contra o resultado das urnas, seria um golpe contra boa parte dos avanços civilizatórios duramente conquistados desde o fim da ditadura de 64. Some-se a isso uma intolerância religiosa que era até então desconhecida no país e que hoje grita seus slogans medievais muito além dos púlpitos, nos parlamentos e nas emissoras de rádio e tevê.

Depois da quarta derrota eleitoral à presidência, os setores mais conservadores da sociedade brasileira perceberam que, pela via democrática, suas chances de ascender ao Palácio do Planalto tornaram-se remotas. Se não foi possível convencer pelo voto, importantes setores da mídia, do parlamento e do judiciário desenharam nova estratégia. Os principais veículos de comunicação passaram a desenvolver, diariamente, uma estratégia que consiste em omitir o que há de positivo no país e exagerar na análise pessimista. Mais que isso: o que poderia ser uma excelente oportunidade para desnudar como funciona o esquema de financiamento de campanhas políticas e o uso da máquina pública e de empresas estatais para troca de favores – em todas as esferas, federais, estaduais e municipais – resultou em uma justiça caolha, uma mídia manipuladora e um Congresso Nacional retrógrado, centrados no objetivo de criminalizar um único partido, um único governo e, especialmente, Lula e Dilma.

O festival de imagens agressivas vem sendo produzido há muito tempo. Um dos casos mais recentes ocorreu na coluna do jornalista Ricardo Noblat, no jornal O Globo (29/6/2015), que pôs a cabeça degolada da presidenta Dilma em uma bandeja. O título acompanha o “primor” da ilustração: “Em jogo, a cabeça de Dilma”.

O jornal Correio Braziliense publicou no dia 8/9/2014, na capa, uma foto de Beto Barata em que uma metralhadora é apontada contra a face da presidenta durante desfile militar de 7 de Setembro. O mesmo truque de angulação – usado à exaustão e, portanto, já sem nenhuma originalidade – deu a Wilton Júnior (O Estado de S. Paulo) o Prêmio Esso de Fotografia de 2012. Ilusoriamente uma espada trespassa o corpo da presidenta, durante uma cerimônia na Academia Militar das Agulhas Negras, em Resende (RJ).

Se alguns dos principais veículos de comunicação, por repetidas vezes, simulam que a presidenta deve ser executada – e aí não há nenhuma possibilidade de inocência nessa metáfora de “morte à presidenta” –, porque deveríamos estranhar que essa convocação à “malhação de Judas” não encontraria campo fértil em meio a milhares de internautas ávidos por exibir toda a sanha reacionária e a falta de escrúpulo no debate político? Por que nos surpreenderíamos com tantos cartazes pedindo a volta da ditadura em passeatas que a mídia louva como a fina flor da democracia? Por que nos espantaríamos com as bancadas evangélicas, da bala e do latifúndio a vociferar contra os direitos humanos?

Houve quem tenha se recusado a reproduzir, nas redes sociais, a imagem sórdida de uma mulher, de pernas abertas na boca do tanque de combustível de um automóvel.  Compreendo e louvo a tentativa de evitar a banalização da cena. Inclino-me, no entanto, na direção contrária, por uma razão: não podemos deixar de ver, compreender e estar alerta contra o que ameaça destruir a dignidade humana. Ver para não se iludir sobre o crescimento da barbárie. Ver para denunciar o ódio que cega tantas pessoas que se consideram humanas, amorosas.

Estranhamente, começaram a surgir, também na internet, os indignados contra quem se indignou. Houve muitas críticas aos que optaram por mostrar as imagens anexas aos textos de protesto a esse ato de misoginia. Boa parte dos críticos não atacou os autores da fotomontagem que escandalizou o país. Preferiu desviar o foco do debate, para tentar atingir apenas aqueles que se disseram profundamente impactados pelo ato vil.

A imagem é grosseira e não cabe banalizá-la com reproduções gratuitas e comentários machistas. Mas é preciso mostrá-la a quem ainda não viu, para que percebam a extensão do que acontece hoje no Brasil, e acordem a tempo de evitar o pior. Há uma profusão de atentados à democracia e à dignidade humana. E, por serem desferidas contra o atual governo, contra Lula, Dilma e o PT, não faltam incentivadores desse ódio que brota de nossas raízes racistas, conservadoras e elitistas.

Há coisas que precisam ser vistas. Não há como esconder as atrocidades que o ser humano já foi capaz de perpetrar, ao longo de milênios. Algumas imagens têm o poder de alertar contra a fera humana, sempre numa tênue fronteira entre civilização e barbárie.

A imagem que repugnou o país é somente o ápice de uma ação que tem os donos da mídia como principais articuladores. É um movimento que também grita contra os direitos humanos, que não se conforma com a inclusão social, não se importa em entregar as riquezas e o futuro do país aos interesses do capital internacional, não se importa com uma justiça de duas caras, dois pesos e duas medidas, que não aceita as mudanças que ocorreram nos últimos anos beneficiando sobretudo os mais pobres. Essa imagem é só uma amostra do nível de degradação a que estaremos expostos se as forças reacionárias dominarem novamente o Brasil.

O ego do jornalismo global

É muito complexo de vira-lata. Repórter que se empolga só por ter conseguido fazer uma pergunta na coletiva de Dilma e Obama (mal feita, por sinal, pois até o Obama teve que corrigir), é uma amostra do nível dos profissionais que compõem os principais veículos de comunicação. É muito ego e deslumbramento e pouca atitude profissional.

Confira, abaixo, via Luis Nassif.

http://jornalggn.com.br/noticia/nada-a-comemorar