“Love”, para todos os gostos e desgostos

Até aonde pode ir a potência de Eros no cinema? Uma possível resposta está em cartaz no Paradigma Cine Arte, em Santo Antônio de Lisboa, que exibe o filme “Love”, de Gaspar Noé, uma produção franco-belga de 134 minutos. Em Cannes, este ano, foi indicado ao prêmio Queer Palm, que reconhece filmes com temáticas de diversidade sexual. E as opiniões se dividiram: de “poema sexual” a “conteúdo vazio e machista”, houve comentários para todos os gostos (e desgostos!).

Fui ver e concordo com o texto de José Geraldo Couto (http://outraspalavras.net/…/love-ponto-de-atrito-entre-amor…), conceituado crítico de cinema, tradutor de autores como Henry James, Saul Bellow, Norman Mailer, Truman Capote, Michael Cunningham, Martin Scorsese, Adolfo Bioy Casares e Enrique Vila-Matas, entre outros. Foi a única crítica digamos “positiva” que li em meio a dezenas espinafrando o filme. Para quem não se escandalizar com as cenas de sexo (algumas lindas!), acho que o filme cumpre a tarefa de propor um debate sobre o complicado tema da dificuldade em unir liberdade sexual e amor. Em Cannes, onde os espectadores fizeram enormes filas para assistir, a polêmica também se estabeleceu, não pelo tema do filme, mas pelas cenas de sexo em 3D.

Tem gente que abandona o cinema já na primeira cena de uma dupla masturbação do casal protagonista. Ao longo de duas horas, são muitas as cenas de sexo explícito – inclusive ejaculações. Mas, pra quem prestar atenção nas falas e nos diálogos, verá que o diretor Gaspar Noé vai além das cenas de sexo. A ojeriza que alguns espectadores têm com o filme talvez seja indício de alguma coisa mal resolvida sobre a própria sexualidade. Afinal, se é compreensível que o filme possa ser qualificado de mediano ou ruim – como outros que a gente vê por aí – pelo menos não deveria escandalizar tanto assim. É só um drama amoroso que contém cenas de sexo que não são apenas sugeridas, mas amplamente mostradas.

Milênios já se passaram e o ser humano continua sem saber lidar com a questão da sexualidade. O ato mais belo da potência de Eros, em pleno século 21, não raro, continua a ser visto apenas como pornografia – embora a fronteira com o chamado “erotismo”, este mais aceito, seja muito tênue, se é que existe esta separação. Tema difícil quando sabe-se que, no passado, a masturbação foi descrita como “perversão” e o homoerotismo como “doença”, por exemplo.

Enfim, o filme é do tipo ame ou odeie. Pra quem não sente “nojo” ou se perturba com cenas de sexo “ao natural”, com toda a sua potência, vale, no mínimo, conferir a ousadia rara num filme exibido em Cannes e em cinemas do circuito comercial tradicional, que inclui os shopping centers (no Beiramar ficou poucos dias em cartaz, sempre no último horário).

No Paradigma, o filme está em cartaz até o dia 4 de novembro, às 21h45.

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