Respeite as mulheres, sua vaca (por Tati Bernardi/Folha de S. Paulo)

http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2015/11/1711635-respeite-as-mulheres-sua-vaca.shtml?cmpid=newsfolha

TATI BERNARDI

Sim, terei a imensa cara de pau e a gritante falta de noção de falar de mim justo neste caderno tão erudito. Eu posso ver você, 40 e muitos anos, barba, óculos, torcendo o nariz. Que me importa ler sobre essa fulana, justo em um dos últimos refúgios para bons articulistas discorrerem sobre recortes econômicos retirados do epicentro de debates artísticos inseridos em contextos políticos?

Este é um texto sobre perder pessoas. Você, num exemplo “ao vivo”, já nem deve mais estar aqui.

Há algumas semanas, coloquei uma foto no Instagram: uma mulher segurando uma faixa com a frase “Meu útero é laico”. Em cinco minutos, perdi mais de 5.000 seguidores.

Eles se despediram com mensagens bonitas tais quais “assassina de bebês” e “você pode falar porque está viva, os bebês que você quer matar antes mesmo de eles nascerem nunca poderão falar!”. Eu li e pensei “faz parte”, mas meia hora depois senti minha gastrite urrar silenciosa. Ser xingada com palavras tão pesadas, por tantas pessoas, definitivamente, não deveria fazer parte de nada. A internet não pode continuar sendo palco para animais atirarem suas fezes ditatoriais disfarçadas de democracia, opinião e poder.

Como não acredito em solução para isso (mandar prender a wonderfulvia_86?) fiz a única coisa que me cabia e desliguei o celular.

Na terça, querendo ainda participar de alguma forma dos movimentos contra a PL 5.069, escrevi um texto que publiquei no Facebook, onde tenho mais de 1 milhão e meio de seguidores, mais de 500 amigos, mais de 30 pessoas que de fato conheço.

No texto eu dizia algo como: é preciso descriminalizar o aborto, mas também assumir que é um tema difícil, doloroso, triste e que não cabe discuti-lo com a simplicidade de “dar ou não um ‘like'”, como fazemos com a primeira temporada de um seriado. Não se “curte aborto” como se gosta de um filme. É preciso defender, respeitar e dar apoio mas falar também sobre angústias, dúvidas, preconceito, medo e solidão.

Perdi, novamente, pelo menos um terço dos meus leitores. “Tudo bem”, pensei. “Abrir mão do aplauso do mainstream deve significar maturidade profissional. Ainda tenho o apoio dos meus amigos jornalistas e escritores, dos seres pensantes.” Mas calma que piora.

Uma das minhas melhores amigas, militante feminista, se revoltou. Escreveu abertamente em minha página, com o aval de uns 50 “é isso aí!” de amigas em comum, com letras maiúsculas e exclamações rijas, que eu não deveria roubar o foco da campanha “Fora, Cunha” para falar de angústias.

Ela contou, extasiada, que já tinha feito mais de oito abortos. Que tinha carteirinha de desconto. Que tinha milhas. Que tinha cartão fidelidade. Se achando mais mulher e mais livre e mais moderna e mais feminista e mais “gênia do trocadilho” do que qualquer outra.

FALO

Esse é o feminismo agressivo que me incomoda. O feminismo fálico que quer enfiar um pau duro dentro da boca de qualquer mulher que ouse levantar um “mas” ou um “eu acho que”. O feminismo “respeite as mulheres, sua vaca”. O feminismo “se você não entender que estamos falando de mulheres violentadas eu vou te dar um murro” me incomoda a ponto de eu não conseguir ficar calada, mesmo entendendo (e até mesmo concordando com) a opinião de quem defende ser uma excelente hora para, em nome de questões mais urgentes, dar apenas um aval robótico em “hashtags” bem-intencionadas e não querer aprofundar ou problematizar nada.

Mas eu sou mulher, e mulher complica, problematiza, aprofunda, faz DR. E algo está errado com esse feminismo que não quer ouvir as mulheres que não pensam exatamente como ele.

Eu escolho ser feminista de outras maneiras. Eu escolho ser feminista olhando para os furos do meu discurso feminista. Por que o motoboy não pode gritar “gostosa”, mas o vizinho bem-sucedido pode exclamar “gatinha”? Por que a fotinho semipelada em nome de uma militância feminista “100% causa social contra o mulhericídio”, se, ao mesmo tempo, certamente residem lá uns 50% de vaidade ao publicar a imagem? Por que fico mais excitada com mulheres de peitos de fora do que com homens sem camisa, se brigo pra dizer que os seios femininos são iguais aos masculinos (eles merecerem o mesmo respeito e liberdade é diferente de serem a mesma coisa)? Por que só acusamos o machismo fora de nós se passamos uma vida na eterna expectativa de “um cara que aja como homem” seja lá o que isso queira dizer (mesmo as mais descoladas, mesmo as mais feministas, mesmo as que garantem não querer).

Mas vivemos um momento, sobretudo nas patrulhas internéticas, em que só existe um tipo de feminismo correto. O feminismo das verdades absolutas reforçadas por frases realmente incontestáveis como “são milhares de estupros por ano”. Como é que você vai dizer “peraí, nem toda paquera é agressiva” para uma pessoa que argumenta com a derradeira resposta “são milhares de mulheres assassinadas por ano”? Quem consegue falar sobre erotismo se todo e qualquer debate virar IBGE de desgraças? Não só já perdi a discussão antes de começá-la como eu mesma não fiquei do meu lado.

Pobre de quem não estiver sob esse guarda-chuva da precisão terminante que mora em números de palestras. Não existe perguntar “por que” ou colocar um “mas” num discurso qualquer de esquerda sem ser lançado sem dó na vala das pessoas de direita que precisam morrer queimadas em nome de salvar toda uma humanidade. E essa é uma questão política do momento, como um todo.

Blogueira, publicitária, roteirista de comédia, fala de si mesma, eu preferia a outra que escrevia antes dela, trabalha na Globo, quem é essa garota, pra quem ela está dando pra ter essa coluna, volte a falar de pau que era melhor, rodada, sem noção, vaca, anta, coitada, vai morrer sozinha, histérica, mal-comida, assassina de bebês, vendida para a mídia golpista. Todos os dias sou presenteada com algumas dessas pérolas.

Precisamos nos unir para combater essa misoginia sufocante e pegajosa e há séculos arraigada no sangue dos homens e todos os movimentos feministas que têm surgido são necessários e urgentes e precisam muitas vezes soar extremistas para fazer frente à tamanha potência? Sim.

Dito isso, posso informar que 40% das pessoas que me xingam são mulheres? Posso dizer isso sem desmerecer as mulheres e o feminismo e sem receber 34 mensagens “inbox” de amigas militantes dizendo que enlouqueci e que estou desconvidada de suas festinhas?

Quando cedi, há duas semanas, a minha coluna ao Reinaldo Moraes, não foi por não respeitar o movimento feminista que invadiu os jornais e chamou a atenção para o fato real de que homens ainda ganham melhor e têm mais espaço. Foi para dizer que, justamente, se queremos e merecemos igualdade, eu posso brincar de fazer o inverso. Foi para dizer que podemos, inclusive (ocupar o lugar de) oferecer, ao invés de pedir, o que seria um ato ainda mais empoderador. Foi para lembrar que existe o bom homem e a boa paquera.

ASSÉDIO

Vamos falar de assédio? No dia em que saiu a coluna do Reinaldo no lugar da minha, eu estava no hospital com meu pai, aguardando que ele acordasse da sedação de uma endoscopia feita às pressas. Eu não podia desligar meu celular, porque estava esperando o médico dele me ligar.

Foi quando uma dezena de “amigos” começou a me procurar, mandar mensagens, e-mails, escrever comentários no meu Facebook. Todos me acusavam de machista, louca, desinformada, “fez pra aparecer”, “seu discurso é igual ao orgulho hétero”.

Uma mulher falar sobre ser mulher é igual a um machinho ordinário desmerecer os percalços de um gay? Em que planeta dizer “eu concordo com boa parte do que é dito nessas campanhas feministas, mas…” é sinônimo de “eu odeio mulheres e vou combater todas essas merdas que estão sendo ditas”? Por que tentar aprofundar o debate é visto como ser do contra? É visto como tentativa de diminuir o debate?

Tive uma mãe feminista dentro desse universo que considero um tantinho exagerado. Digo “tive” porque a vida a ensinou a ser mais doce (e isso não tem nada a ver com ser mulherzinha). Cresci ouvindo frases como “homem só quer te usar”, “nunca divida ou espere nada de um homem”, “tenha seu apartamento, sua vida, seu filho, e não conte com um homem para nada disso”, “homem é emocionalmente uma raça inferior”, “nunca fique sozinha com nenhum homem, a gente nunca sabe o que eles podem fazer”.

O resultado disso: estou há anos na terapia, tentando confiar em alguém, tentando transar sem pensar que de alguma maneira esse ato me subjuga, tentando não andar pela minha casa como uma sargenta voraz pronta a capar o pênis imundo de quem ousar largar os chinelos na minha passagem. Passei metade da vida expulsando todos os homens que chegaram perto de mim e a outra metade da vida chorando e corroborando os ditos de minha mãe –”e não é que eles foram mesmo embora quando eu os expulsei?”.

O feminismo é para nos igualar (ainda que essa palavra doa, se continuarmos brigando para ser superiores), para nos proteger de milênios de frases e gestos que nos inferiorizam, para tornar gritante as histórias tristes de abusos, mas, ainda assim, não pode se tornar nojo e ódio pelos homens. Ponderar extremos é o mico-leão-dourado da opinião. Por que dizer “o mundo não está dividido entre pessoas acima do bem e do mal e estupradores” me coloca ao lado dos estupradores? Em que momento viramos personagens maniqueístas de novela ruim?

Meu ex-analista me contou que um paciente seu de 17 anos vomita toda vez que bate punheta pra namorada. As feministas da sua classe disseram a ele que “punheta é nojento, é tratar a mulher como objeto, como carne barata”. Um colega escritor premiado e respeitado se desesperou ao saber que, após um texto seu falando sobre admirar uma mulher bonita, sua filha sofreu bullying das coleguinhas, “seu pai é misógino”. Outro amigo, que trabalha em um prédio na Faria Lima, ficou segurando a porta do elevador, esperando uma colega de trabalho. Ela fechou o tempo com ele: “Ah, sim, porque eu não sei chamar o elevador sozinha e preciso MESMO de um homem pra me ajudar, não é?!”. Daqui a pouco “Garota de Ipanema” vai ser proibida de tocar no rádio.

É mesmo um porre andar na rua e ouvir aquela “chupada salivar” ou ser interrompida numa reunião por um olhar que nada profundamente em nosso decote mas dizer “é crime” precisa de asteriscos.

Ninguém mais pode desejar ninguém sem o consentimento em cartório de ambas as partes, sem o documento lavrado em álcool gel, com o perdão do péssimo trocadilho (aprendi com aquela amiga)? O que faremos com o erotismo saudável e positivo (e cada um tem um gosto) que, muitas vezes, sem nenhuma expectativa e violência, nos rouba de uma tarde insípida? Precisamos, desconfio que tanto quanto do sucesso, dos bons homens e de seus afagos e desejos. A boa paquera e o bom macho têm a ver com uma coisa maravilhosa chamada erotismo, chamada atração, chamada sexo, chamada trepadinha no lavabo da festa, chamada amor. Chamada como nascemos e como daremos continuidade à raça humana.

TATI BERNARDI, 36, escritora e roteirista de cinema e televisão, é colunista da Folha.

Quando a simbologia natalina fere o ego (por Carlos Marciano – PosJor/objETHOS/Ufsc)

https://objethos.wordpress.com/2015/11/30/comentario-da-semana-quando-a-simbologia-natalina-fere-o-ego

Carlos Marciano
Mestrando no POSJOR/UFSC e pesquisador do objETHOS

O natal já dá as caras nas redes sociais, só que dessa vez não é de presentes agradáveis e palavras acalentadoras que vem recheado o saco do Papai Noel, principalmente aos machistas que sentem o ego ferido por não terem sido bons meninos.

Na última semana, para algumas pessoas, as revelações do #meuamigosecreto parecem ter sido um par de sapato apertado, mas essenciais para brindar de reflexões uma sociedade em que reina a desigualdade.

Aproveitando o engajamento do Dia Internacional de Luta contra a Violência sobre a Mulher, instituído em 1999 pela Organização das Nações Unidas (ONU) e celebrado no dia 25 de novembro, o uso da hashtag #meuamigosecreto visa estimular que mulheres denunciem comportamento incoerentes, machistas ou preconceituosos de pessoas que com elas convivem. Como era de se esperar, o movimento disseminado principalmente por mulheres ligadas ao feminismo cutucou o calo inflamado daqueles que falam o que querem, mas não gostam de ouvir o que não querem.

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Post Twitter

Quase sempre atingidos indiretamente pelas palavras, homens e mulheres que compartilham a carapuça tem-se manifestados de duas maneiras significativas. Elas costumam criticar o fato de não serem dados nomes aos bois, caracterizando o movimento como insignificante por não atacar diretamente o acusado. Eles colocam-se como vítimas e não vilões. Reconhecidos nas palavras e imersos em arrogância e preconceito, culpam as mulheres pelos desfechos (principalmente quando os relatos envolvem violência física ou psicológica) e aconselham as adeptas a escolherem melhor suas amizades.

A incoerência é outro presente aqui trocado. O posicionamento das mulheres que participam do#meuamigosecreto volta e meia é colocado em xeque por aqueles que se sentem atacados. Vitimizados, salientam que o movimento já passou dos limites, afinal para eles o feminismo já alcançou os objetivos e machismo não existe; estão apenas manifestando opinião contrária.

Ironicamente a manifestação #minhaamigasecreta tem o intuito de contrapor a campanha primária no pressuposto de que vivemos em uma sociedade com liberdade de expressão. Porém os adeptos a ela cometem o mesmo “deslize ético” de mandar indiretas, além de reforçar o “não há machismo” sugerindo frases, atitudes e situações criadas para as mulheres pelos princípios machistas.

sec2

Post Twitter

Nesses desdobramentos sobre o #meuamigosecreto o sentimento de revolta e egocentrismo parece falar mais alto que o discernimento, quando alguma palavra ou fato quebra os dogmas particulares até então desconhecidos. O #meuamigosecreto é um dos movimentos que dá voz aos oprimidos pelo racismo, misoginia, LGBTfobia e heteronormatividade, porém tal ponderação não parece ser levada em consideração pelos críticos, obviamente por tais argumentos baterem de frente com seus preconceitos velados.

Em um corpo social onde impera o individualismo, ególatras consideram justo participar do sistema de cotas, estacionar em vagas de deficientes ou sentar nas cadeiras amarelas dos ônibus; independente se caminham normalmente; não sejam idosos ou gestantes; e nunca tenham sofrido preconceito pela cor de sua pele.

Um ambiente igualitário em direitos e deveres, emancipado de credo, raça, sexualidade ou gênero é cada vez mais utópico quando atitudes que pretendem quebrar essas barreiras são vistas como incômodo e não estimuladoras de reflexão. As mulheres não são as vilãs aqui, em uma sociedade opressora e vingativa elas apenas utilizam o #meuamigosecreto para terem voz com um mínimo de segurança. Direito que mesmo no anonimato gera desconforto e processos.

sec3

Post Facebook

São atitudes como estas, com a força das palavras e ações, que aos poucos tem fortalecido o feminismo e garantindo um mínimo de direito às mulheres. Como na Árabia Saudita onde nesse último domingo (29) candidatas iniciaram as campanhas eleitorais para postos nos conselhos municipais, na primeira eleição[1] em que mulheres poderão votar e serem votadas.

Seja homem ou mulher, ao invés de criticar e menosprezar o #meuamigosecreto, vale mais a pena colocar a mão na consciência e aceitar nossas limitações, corrigir nossas falhas caso vistamos a carapuça de algum post. Existem sim postagens que podem parecer chocantes, mas será que teríamos reparado nelas se fossem relativizadas? Por isso é promissor refletirmos sobre os aspectos positivos que tais apontamentos podem trazer ao nosso crescimento particular e social. Pelo bem da sociedade as mulheres hão de continuar assim, exercendo o poder da palavra e desconcertando os machões com seus pensamentos conservadores e repressores.

Existe anonimato, mas não há ficção. São situações presentes no cotidiano que, na nossa ignorância, tornam-se comportamentos ou práticas machistas ofuscadas. Se essa omissão foi involuntária e uma postagem a despertou, é a chance de pensar sobre o erro e tentar ser uma pessoa melhor. Se foi voluntária e a raiva te consome por você se ver refletido em um post indireto, faz-se crucial rever suas atitudes e pensamentos.

É preciso lutar por uma realidade na qual as meninas possam usar roupas curtas e maquiagem sem risco de serem estupradas, pois os meninos, educados moralmente, compreendem que sexo sem consentimento é repugnante e criminoso. Caso você seja bronco demais para aceitar isso, retire-se a sua existência de vazio e fel, pelo seu próprio bem e de toda sociedade.

Para reflexão:

Dados estatísticos sinalizam que a cada dois minutos, cinco mulheres sofrem agressões no Brasil e o país é o sétimo dentre 84 nações mundiais com mais casos de mulheres mortas.

Estado Democrático de Direito? (por Rubens Casara, no Justificando/via O Cafezinho)

http://www.ocafezinho.com/2015/11/29/estado-democratico-de-direito

por Rubens Casara, no Justificando.

Dez fatos

1 – Os direitos fundamentais, percebidos como obstáculos à eficiência repressiva do Estado, são negados de norte a sul do país.

2- Para punir quem viola a lei, o Estado brasileiro também viola a lei (grampos ilegais, gravações clandestinas, “delitos de ensaio” travestidos de legítimos, prisões ilegais e desproporcionais, etc.).

3 – As ilegalidades praticadas pelo Estado no combate ao crime são naturalizadas pela população (que, em razão da tradição autoritária em que está inserida, identifica “justiça” com “punição”, “liberdade” com “impunidade” e goza sadicamente com o sofrimento de pessoas) e ignoradas ou desconsideradas pelo Poder Judiciário, em especial nas grandes operações que ganham (pelos mais variados motivos, nem todos legítimos) a simpatia dos meios de comunicação de massa.

4 – Na fundamentação das decisões judiciais, as teorias penais e processuais penais, bem como o compromisso com os valores “verdade” e “liberdade”, foram substituídas por discursos de cunho político recheados de senso comum e/ou moralismos rasteiros.

5 – Desconsidera-se a secularização, com os atores jurídicos a reintroduzir no sistema de justiça criminal a confusão entre direito e moral, crime e pecado, Estado e Igreja.

6 – Atores Jurídicos passam a adotar posturas messiânicas, com discursos salvacionistas, e a demonizar, não só a política (que deveria ser um espaço criativo e comum), como também todos aqueles que não comungam de seus pontos de vista.

7 – Prisões são decretadas em contrariedade à legislação brasileira, inclusive em violação aos limites semânticos contidos no texto da própria Constituição da República (a recente prisão de um parlamentar brasileiro é apenas mais um dentre tantos casos).

8 – Como no período pré-kantiano, o imputado (indiciado ou acusado) voltou a ser tratado como objeto, instrumentalizado para alcançar fins atribuídos ao Estado, o que acontece, por exemplo, nas hipóteses de prisões cautelares ou restrições de direitos com o objetivo de obter confissões ou delações.

9 – Pessoas que se afirmam “defensores dos direitos humanos” estão a aplaudir a violação de direitos e garantias fundamentais daqueles que identificam como inimigos de classe ou de projeto político, bem como, o que é ainda pior, na medida em que não há a desculpa da cegueira ideológica, para ficar bem aos olhos da opinião pública fascistizada (que glorifica a ignorância, tem medo da liberdade e aposta em medidas de força).

10 – Um juiz brasileiro passou a ser criticado por cumprir a Constituição da República e a Lei de Execução Penal, porque assim – pelo simples, e pouco comum, fato de tratar os presos com dignidade – teria se tornado “o queridinho” de criminosos. Essas críticas, feitas pelos mesmos meios de comunicação de massa que reforçam concepções autoritárias e naturalizam crimes praticados por agentes estatais, não mencionam, por ignorância ou má-fé, que as chamadas “grandes organizações criminosas” (pense-se no Comando Vermelho e no PCC) nasceram em contextos de violação aos direitos dos criminosos presos.

Em nome do que representa o Estado Democrático de Direito (um projeto político de contenção do poder, de limite às diversas formas de opressão, em que a liberdade concreta de cada um não precisa ser trocada por promessas abstratas de segurança), peço muita reflexão ou…  UM MINUTO DE SILÊNCIO.

Rubens Casara é Doutor em Direito, Mestre em Ciências Penais, Juiz de Direito do TJ/RJ e Coordenador de Processo Penal da EMERJ.

Paris e as lágrimas de crocodilo (por Roberto Amaral, em CartaCapital)

 

As vítimas da ignomínia terrorista devem ser igualmente pranteadas.
por Roberto Amaral — publicado 23/11/2015 04h25

 

Comecemos pelo incontroverso: o terrorismo não tem justificativa nem ética, nem moral, nem religiosa, nem política, nem tática, nem estratégica. É um ato de lesa-humanidade, primitivo e brutal que nega a civilização e a própria evolução humana. A medida de sua ignomínia independe de suas vítimas, se europeus ou norte-americanos ou judeus, se asiáticos ou árabes ou africanos ou persas ou turcos, ou palestinos, ou cristãos ou muçulmanos ou hindus. Se brasileiros. Onde quer que ocorra um só ato terrorista, a vítima é a humanidade como coletivo.

Por isso suas vítimas precisam ser igualmente pranteadas. Se o justo clamor provocado pela  barbárie que se abateu sobre os parisienses – decretada uma vez mais pelo chamado Estado Islâmico –, se levantasse ante todos os atos de terrorismo, a começar pela violência inominável e covarde do terrorismo de Estado das grandes potências ocidentais, talvez o mundo conhecesse menos horror e nós hoje não nos sentíssemos tão desamparados.

A indignação mediática que nos querem impor, porém, é seletiva, e contra esse viés precisamos reagir, pois só assim emprestaremos força moral à nossa reação.

Querem justamente que choremos quando as explosões são em Paris (ou Nova Iorque, ou Madri) e atingem pessoas com as quais nos identificamos cultural e fisicamente, mas dessa mesma violência pouco nos falam quando explode em Cabul, ou quando suas vítimas são negros, ou árabes, ou asiáticos ou palestinos ou persas. Nesses casos a violência é banalizada porque não nos ameaça (ora, somos ocidentais e brancos!), assim como não nos atinge a violência urbana quando restrita às periferias de nossas metrópoles, fazendo vítimas predominante entre negros e pardos e pobres, sejam marginais, sejam civis indefesos, sejam policiais.

Na quinta-feira 12, na véspera dos atentados parisienses, cerca de 60 pessoas perderam a vida e os feridos contam-se em mais de duas centenas, vítimas de atentados levados a cabo pelos mesmos facínoras do EI. Mas desta feita a explosão do irracionalismo se deu no Líbano, e suas vítimas eram árabes, na maioria membros do Hezbollah, adversário de Israel, aliado xiita do Irã mas inimigo de morte do EI.

Na Turquia, dias antes, o EI matara 100 pessoas na Estação Central de Ancara.

Suas vítimas não contaram com o pranto mediático, muito menos sequer uma vela foi acesa com a morte dos mais de 200 passageiros do avião russo derrubado nos céus do Egito, pelo EI, sempre ele.

Já entrou para o esquecimento a sorte dos 700 mil palestinos, expulsos de suas terras e de suas casas pelos continuados assentamentos do Estado de Israel. Não nos choca mais saber que se contam em cerca de 100 os palestinos mortos pelas incursões do poderoso exército de Israel, só no ultimo mês.

Sequer nos perguntamos quantas vidas foram ceifadas na Guerra contra o Afeganistão, quantas foram ceifadas na invasão do Iraque, quantas presentemente estão sendo ceifadas na Líbia e na Síria onde EUA, França e Inglaterra, que pretendem a derrubada de Assad, exercitam sua guerrinha-fria contra a Rússia, que dá sustentação diplomática e política ao ditador.

Para nós, em nosso distanciamento, foi impossível conhecer a dramaticidade da ‘guerra’ do Iraque promovida pelos EUA. Pela televisão, ‘ao vivo a cores’, em cadeia mundial, sem a visibilidade de cadáveres, sem sangue, a invasão foi, emocionalmente, apresentada como um reality show ou um vídeo game futurista. Registramos apenas a estética dos mísseis com suas luzes iluminado a escuridão do céu numa noite sem lua.

Síria, Turquia, Líbia, Iraque, todos fronteiras artificiais impostas pela Inglaterra e pela França a parir do Acordo Sykes-Piot (1916) que – violentando culturas e histórias milenares – serviu tão-só para redesenhar o Oriente Médio, para assim melhor explorá-lo.

Como surgiu esse ódio sectário que corre do Oriente Médio, e que se estende pela Ásia e pela Europa e vem ensanguentar as cidades mais queridas do Ocidente?

Quem financia tanto terror?

Quem entrega armas e equipamentos de guerra nas mãos desses facínoras?

A resposta inescapável é única: são os que hoje derramam lágrimas de crocodilo.

O chamado Estado Islâmico, uma decorrência da Al Qaeda – por sua vez uma criação dos EUA – é financiado pelos petrodólares dos países do Golfo Pérsico, à frente de todos a Arábia Saudita, a maior potência do Oriente Médio, e principal aliada do Ocidente (seja lá o que isso hoje signifique).

São também esses dólares que financiam a indústria bélica do EUA, da Inglaterra e da França, os maiores fabricantes de armas e equipamentos de guerra do mundo, os maiores fornecedores e os maiores traficantes de armas. E, não obstante, ou por isso mesmo, são eles, os fornecedores de armas aos terroristas que nos ameaçam e matam seus povos, membros com assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. Segurança?

Osama Bin Laden – é sabido – foi recrutado, treinado e financiado pelos EUA para dar combate às tropas soviéticas que defendiam o governo do Afeganistão. Em crise, a Al Qaeda (aquela do atentado contra as torres gêmeas) foi salva pela invasão do Iraque pelo segundo Bush. Dela surge o EI.

Assim e em nome de nada – ora em nome do combate a tropas soviéticas no Afeganistão, ora em nome de mentiras deslavadas (as ‘armas de destruição em massa’ de Sadam Hussein), ora sob o pretexto da defesa de minorias (Síria), ora sob pretexto nenhum (Líbia), os EUA – com a cooperação militar da França e da Inglaterra –, destruíram as estruturas sociais-religiosas do Iraque e dos demais países, acenderam conflitos religiosos e tribais, destruíram nações e as organizações políticas. Em  síntese, com a anarquia e o caos, ensejaram a proliferação de verdadeiros ‘Estados’ armados com exércitos agressivos, exércitos de terroristas aptos a agir em qualquer parte do mundo.

O Estado Islâmico e seu califado no Iraque e na Síria são fruto da invasão e destruição do Afeganistão, do Iraque, da Síria e da Líbia. A França interveio na Síria e os EUA financiam e dão assistência militar (inclusive com o fornecimento de armas e munições aos terroristas (que eles batizam de ‘rebeldes’) que lutam contra a ditadura de Bashar al-Assad, que, por seu turno, apoiado pela Rússia, combate o EI.

Os facínoras do EI colhem o fruto da destruição dos Estados árabes, de suas organizações sociais e politicas, e, nomeadamente, da destruição das forças armadas do Iraque, da Síria e da Líbia, cujos quadros foram atraídos pelos fanáticos, que também se beneficiam, ainda graças à intervenção do ‘Ocidente’, com o rompimento do tênue equilíbrio de forças entre xiitas e sunitas consequente das derrubadas de Saddam Hussein e Muamar Kadafi.

Os EUA, após a ignomínia do 11 de Setembro, conduziram operações secretas, com drones e execução de civis suspeitos em 70 países. Da injustificada invasão do Iraque – país que nada tinha com o ataque covarde – resultou uma guerra desastrosa (condenada até mesmo nas memórias do Bush pai) que fortaleceu a Al Qaeda (lembremos mil vezes, criada pelos EUA para combater os soviéticos  no Afeganistão) e propiciou as condições para o surgimento do EI. Deu no que deu. O medíocre François Hollande, elevado pelos terroristas à condição de ‘presidente marcial’ fala em guerra.

Que virá depois?

O simplório Jeb Bush, irmão do Bush 2 (o principal responsável pela depredação do Iraque e suas consequências vividas hoje), já declarou, em campanha pela candidatura republicana à presidência dos EUA, que o atentado de Paris é “uma tentativa de destruição da civilização ocidental”.

Antes dele, e melhor e mais perigosamente do que ele, Samuel Huntington já havia anunciado o ‘choque de civilizações’ (na essência a ‘guerra’ contemporânea teria como eixo os conflitos culturais e religiosos, opondo nossas civilizações), dando sua lamentável contribuição para a intolerância e o ultra anti-islamismo que ameaça infeccionar a sociedade norte-americana.

O cenário é muito mais complexo do que supõe a mediocridade, dividindo o mundo entre os  ‘bons’ (nós) e os ‘maus’ (os outros)  com o que a nova direita europeia (ex-socialistas incluídos) e os republicanos estadunidenses simplesmente repetem o maniqueísmo dos fanáticos que pretendem combater, os ‘cruzados’ com sinal trocado, pois, hereges, agora, somos nós, os que não seguimos Alá.

Algozes e vítimas, cada um a seu modo, se identificam na estratégia de propagar o ódio contra os que não compartilham sua ideologia. O ódio de um é a força que alimenta o ódio do outro e, assim, se tornam irmãos siameses e interdependentes.

Voltamos às Cruzadas?

A violência terrorista avança no mundo e agora grassa em uma Europa onde a xenofobia não é nova mas é crescente. As manifestações de preconceitos étnicos, especialmente contra os árabes, soma-se à intolerância religiosa, particularmente o anti-islamismo, reforçado pelos atos de terrorismo.

Essas manifestações prosperam em todo o mundo, mas avançam principalmente nos EUA (onde se tornam corriqueiras entre os pré-candidatos republicanos) e na Europa, símbolo de civilização que não conhece a inocência, mas sim a guerra como a arte da política: guerras fratricidas, guerras de conquista, séculos de exploração e depredação coloniais, uma história de colonialismo, pirataria, opressão dos povos subjugados. Em um só século duas guerras mundiais e o holocausto.

Carta aberta à ministra Carmen Lúcia, do STF (por Dom Orvandil/Cartas Proféticas)

http://cartasprofeticas.org/2015/11/25/carta-aberta-a-ministra-carmen-lucia-do-stf

Prezada Ministra Carmem Lúcia
Nosso País acordou estupefato com a prisão de um senador da República. Por outro lado, alivio-me com a prisão de um banqueiro, um dos mais ricos do Brasil.
Não guardo intimidade com o pensamento do Senador Delcídio do Amaral em virtude de suas origens políticas, ligadas à privatizações e ao nefasto neoliberalismo. Porém, sua prisão nos coloca sob espanto pelo colorido de arbitrariedade em face da imunidade parlamentar de que gozam os eleitos pelo povo para ocupar cadeira na mais alta casa legislativa.
Perdoe-me, ministra Carmem, por me dirigir a senhora sem o traquejo jurídico próprio dos advogados, já que não sou um e sem a formalidade de um tribunal, já que não pertenço a nenhum.
Aqui tenho o objetivo de questioná-la pelo que disse na 2ª turma do STF ao justificar seu voto na decisão do ministro Teori Zavascki ao ordenar a prisão do Senador Delcídio do Amaral e do Banqueiro André Esteves.
É de se esperar que os homens e as mulheres eleitos e eleitas sejam honestos, honestas, probos e probas nas suas atividades parlamentares, embora alguns afrontem e desrespeitem a sensibilidade social e a cidadania, como é o caso do Senador Ronaldo Caiado, que frequentemente usa camiseta amarela com os sinais de 9 dedos, em deboche a deficiência física do ex-presidente Luiz Inácio Luiz da Silva, sem que seja incomodado em momento algum por esse preconceito e crime.
Nesta carta singela desejo lhe dizer que me senti ofendido e desrespeitado como cidadão com seu discurso ao justificar seu voto a favor da prisão de Delcídio do Amaral, nesta manhã.
A senhora disse que antes nos fizeram acreditar que a esperança venceu o medo. É evidente que a senhora se referiu à campanha eleitoral e eleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, sem citá-lo.
E vencemos mesmo, ministra Carmem. Milhões de brasileiros fomos ameaçados com o estouro do dólar, com a fuga dos empresários que investiriam em outros Países abandonando o Brasil ao desemprego e à pobreza. Uma atriz da TV Globo apareceu em noticiários e na propaganda eleitoral do PSDB fazendo caras teatrais de assustada e dizendo: “ai, estou com medo”. Pois vencemos essa tentativa. Os milhões de votos investidos em Lula transcenderam fronteiras partidárias para afirmar nossa esperança contra as ameaças rasteiras e desonestas. Vencemos o medo, com muita esperança. O Brasil se sentiu recompensado com essa vitória. A senhora sabe!
Como cidadão e como povo me sinto ofendido e agredido em minha esperança e em minha fé com essa sua fala, para mim irônica e sem nenhuma relação com o mensalão da mídia, com muitos casos dúbios e influenciados pela opinião publicada.
A senhora carregou sobre a ironia sem nexo ao afirmar que “agora o escárnio venceu o cinismo”.
Qual a relação do possível crime do Senador Delcídio do Amaral, nem investigado totalmente e, muito menos julgado e condenado, com a vitória da esperança em 2002?
A senhora quer nos envolver em todos os possíveis crimes de Delcídio? A senhora falou pensando em investigação e condenação do ex-presidente Lula, o candidato a respeito de quem se usou o slogan “a esperança venceu o medo”? A senhora já sabe, mesmo sem julgamento, que o Senador Delcídio do Amaral é criminoso, até mesmo antes da manifestação da casa onde ele é parlamentar?
Na fundamentação de seu voto a favor da prisão do aludido senador a senhora asseverou que “ agora o escárnio venceu o cinismo”.
Pergunto se o seu voto não se referia a um senador? Se se referia ao Senador Delcídio do Amaral qual a relação da ironia com os votos de milhões de brasileiros que tiveram esperança de mudar aquela realidade triste de desemprego, de miséria e de pobreza em 2002?
A senhora ameaçou quem ao afirmar posteriormente que “criminosos não passarão sobre a justiça”, alertando a todos do mundo da corrupção?
Perdão, ministra, mas a minha ofensa também vem do fato de a senhora misturar ironicamente fatos e valores sem nenhuma relação, sendo que a esperança realmente venceu o medo e sempre vencerá as vilanias da classe dominante, principalmente da rapinagem dos poderosos internacionais, que atuam por meio de jagunços nacionais.
Pior, a sua referência de falso senso de oportunidade choca por estabelecer nexos irreais entre um senador atual, preso acusado de atrapalhar investigações, com toda a força da esperança de um povo.
Choca mais o fato de a senhora não fazer nenhuma menção ao banqueiro André Esteves, dono do Banco BTG Pactual, também preso como suspeito de fazer uma operação polêmica na área internacional da Petrobras, ao comprar poços de petróleo na África, sendo ele um dos homens mais ricos do Brasil, um País pobre e, mesmo assim, de esperanças que vencem os medos.
A senhora não disse nada sobre André Esteves foi pelo fato de ele ser banqueiro e rico? Haveria na senhora algum senso de seletividade, como o há na mídia que reforçou com grande destaque as suas palavras?
Enfim, perdoe-me pela ousadia de exercer o direito de questionar, de me indignar contra as seletividades e contra o deboche em relação ao povo que tem esperança, apesar do medo que diuturnamente lhe impingem.
• Abraços críticos e fraternos na luta pela justiça e pela paz sociais.
• Dom Orvandil, OSF: bispo cabano, farrapo e republicano, presidente da Ibrapaz, bispo da Diocese Brasil Central e professor universitário, trabalhando duro sem explorar ninguém.

“Invasões” x “Ocupações”. Por um curso intensivo para jornalistas (por Alceu Luís Castilho, via Blog do Alceu e Outras Palavras)

http://outraspalavras.net/alceucastilho/2015/11/25/invasoes-x-ocupacoes-por-um-curso-intensivo-para-jornalistas

ocupação

Como ensinar a editores distraídos a diferença entre ocupação e invasão? Sem complicar muito, com rápidas pinceladas de Constituição e história do Brasil?

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)
Foto: Roberto Parizotti/ Comunicação CUT leia mais →

Para a mídia, o banqueiro preso não é amigo de Aécio (por Paulo Nogueira, via DCM)

http://www.diariodocentrodomundo.com.br/para-a-midia-o-banqueiro-preso-nao-e-amigo-de-aecio-por-paulo-nogueira

Por   – 25/11/2015

O senador Aécio Neves é um homem sem amigos, para a imprensa.

Ele não é amigo de Perrela, o homem em cujo helicóptero foi encontrada meia tonelada de pasta de cocaína.

Ele também não é amigo de Andre Esteves, o banqueiro preso hoje na Lava Jato.

Em contraste, Lula, segundo a mídia, é um homem cheio de amigos. Você é informado ubiquamente em jornais e revistas, por exemplo, que ele é amigo de um pecuarista preso na Lava Jato como o banqueiro Esteves.

Fui ver o que a decana do jornalismo econômico, Míriam Leitão, deu em seu blog no Globo sobre Esteves hoje.

Nenhuma menção a Aécio. Esteves se aproximou, nos últimos anos, do governo, disse Míriam. Este seu pecado, para Míriam: aproximar-se de Lula e Dilma.

A empresa para a qual Míriam trabalha sempre esteve longe de governos, naturalmente, a começar pelos da ditadura militar, e depois seguindo por Sarney. Distância absoluta, o que dá a Míriam força para falar nos males trazidos pela proximidade com governos.

Não é notícia, nem para Míriam e nem para ninguém na imprensa, que Andre Esteves pagou uma viagem para Nova York para Aécio e acompanhante em 2013. Ele era então senador.

Em Nova York, Aécio falou num encontro com investidores estrangeiros promovido por Esteves. O casal Neves ficou hospedado num dos hotéis mais tradicionais de Nova York, o Waldorf Astoria.

Repare.

Ninguém discute se é ético um banco patrocinar uma viagem a Nova York para um senador da República.

Foi sua lua de mel. Aécio acabara de se casar. Míriam, como o resto da mídia, ignorou esta viagem de Aécio em seu texto. Será que ela acha moralmente aceitável este tipo de coisa? (Do episódio ficou o boato de que Esteves foi padrinho de casamento de Aécio. Não é verdade.)

Suspeito que para ela, assim como para a maior parte dos conservadores, haja duas formas de analisar uma mamata como a oferecida por Esteves a Aécio.

Para figuras como Aécio, tudo bem. Mas se fosse para alguém do PT seria um escândalo.

O Brasil vive a tragédia da dupla visão sobre episódios idênticos.

Fui ver o perfil do site da Folha sobre Andre Esteves. Mais uma vez, nenhuma citação a Aécio. Havia até, na última frase, a afirmação de que Esteves é sócio minoritário dos Frias no uol.

Mas silêncio absoluto sobre Aécio. É um homem sem amigos. O oposto de Lula.

Esta a mídia não enviesada, na definição antológica do juiz Sérgio Moro, outro luminoso exemplo de isenção.

A seletividade mata qualquer possibilidade de justiça (por Esther Solano, no Justificando/via O Cafezinho)

http://www.ocafezinho.com/2015/11/25/a-seletividade-mata-qualquer-possibilidade-de-justica

Carlos Eduardo

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por Esther Solano, no Justificando

Delcídio do Amaral, senador do PT, foi preso.

Jose Carlos Bumlai, o “amigo de Lula”, foi preso.

André Esteves, que não é “amigo de Aécio”, foi preso.

Cunha não foi preso, continua livre, leve e solto no Congresso.

Pobre negro de periferia é preso por tráfico.

Mineradoras não são presas.

A corrupção é algo imundo, absolutamente incompatível com a democracia. Que a justiça seja feita – mas ela nunca foi cega, aliás, sempre foi muito bem nas consultas do oftalmologista. Ela enxerga o que quer enxergar. O mínimo que devemos exigir é imparcialidade na luta contra a corrupção, independentemente de filiações representadas.

É uma aberração e um insulto à cidadania que a justiça seja tão seletiva. O Brasil merece uma polícia que não se deixe arrastar pela lama política, merece operadores de direito que queiram aplicar a lei – não para reproduzir um status quo de privilégios e sim para proteger quem não tem privilégio nenhum -, e uma imprensa que não manipule a informação de forma tão despudorada.

Se quisermos essa justiça imparcial, ou pelo menos não tão ostensivamente parcial, todos nós devemos lutar por ela. As cadeias-masmorras nunca deveriam ser um instrumento higienista, eleitoral, de uma seletividade penal escandalosa. A seletividade mata qualquer possibilidade de justiça.

Esther Solano Gallego é Doutora em Ciências Sociais pela Universidade Complutense de Madri e professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo