A melhor época para a alienação (por Antonio Prata, via GGN)

http://jornalggn.com.br/noticia/a-melhor-epoca-para-a-alienacao-por-antonio-prata

DOM, 22/11/2015 – 15:02

Da Folha de S. Paulo

O gueto de Mariana

Por Antonio Prata

Outro dia um amigo me ligou pra reclamar da vida. Estava trabalhando tanto, ele me disse, que não fazia a menor ideia do que se passava no mundo: há meses não lia jornal, não via TV, não ouvia rádio. Queria um consolo, mas recebeu a minha inveja: “Você não tem ideia da sua sorte! Acho que, desde que a gente nasceu, não teve época melhor pra não saber o que se passa” –e, veja bem, a gente nasceu numa ditadura.

No final de uma ditadura, é verdade. O governo dos militares chegava ao fim com a vergonhosa anistia, a esquerda chegava à praia com o desavergonhado “desbunde”. O tempo ainda estava fechado, mas a previsão era de sol, adiante. Gilberto Gil cantava “Não se incomode/ O que a gente pode, pode/ O que a gente não pode explodirá” e “explodirá” rimava com “poderá” e “brilhará”, não com homens-bomba, pautas-bomba, aviões derrubados, chacinas e barragens arrebentadas.

Vejo na TV a mãe do menino de dez anos assassinado com um tiro na cabeça, no Alemão, revoltada com o inquérito da polícia, inocentando os PMs. Vejo aqueles índios mineiros, mal ajambrados, macambúzios, sentados num trilho de trem, à beira do ex-rio Doce. Leio a carta do viúvo aos terroristas que mataram sua mulher, em Paris, deixando-o com o filho de um ano e meio. “Cara, que sorte a sua não ler jornal!”, digo ao meu amigo. “Eu ontem chorei ouvindo a CBN. Que tempos são esses em que a gente chora com a CBN?”

Serão os tempos? Será que o mundo piorou ou sempre foi assim e eu é que fiquei adulto? Num esforço de otimismo –veja a que ponto chegamos–, penso na Segunda Guerra. Lembro do depoimento de um sobrevivente do Holocausto, no documentário “Shoa”. Com outros prisioneiros do gueto de Varsóvia, o homem criou um esquema elaborado e perigoso para passar cartas para fora da área em que estavam confinados. Por anos, essas cartas foram enviadas a governos, instituições e pessoas importantes de vários países. O homem tinha certeza de que, uma vez que se soubesse do que acontecia ali, alguém tomaria uma providência. Em seu depoimento, o horror nazista parecia chocá-lo menos do que o descaso geral.

Lembro do judeu polonês ao ouvir e fazer tantas vezes a pergunta, depois dos atentados de Paris: como pode um ser humano ter tamanho descaso pela vida de outros seres humanos a ponto de metralhá-los indiscriminadamente? Como pode o mundo saber o que Hitler fazia com os judeus, por anos, sem tomar uma atitude?

Pois, na última quinta-feira, tive a resposta. Não uma resposta sociológica, histórica, geopolítica: uma resposta íntima, pessoal. Num pé de página, no jornal, li: “Atentado terrorista mata 45 na Nigéria” e não senti nada. Ou quase nada. Pensei, “puxa, que triste”, mas não chorei. Só depois é que veio o incômodo, não como um nó na garganta, mas como um embrulho no estômago: eu sou o destinatário das cartas de Varsóvia. Todo dia elas me chegam via e-mail, Facebook, Twitter, vindas dos guetos do Alemão, da Síria, de Barueri, de Lagos, do Pará, do Afeganistão. Algumas vezes dou um share, noutras mando um casaco, outro dia fui até o Brás, comprei umas esfirras de um refugiado, me senti bem por semanas. Na maior parte do tempo, contudo, rolo rápido a tela pra cima, fingindo não ter nada a ver com essa lama, e vou cuidar dos meus assuntos.

A guerra contra o terrorismo não é mais justa que o terrorismo contra a guerra (Por Emir Ruivo, no DCM)

Para entender o que acontece na França, nos EUA, no Iraque, no Afeganistão, na Síria, em qualquer parte do mundo em conflito.
http://www.diariodocentrodomundo.com.br/a-guerra-contra-o-terrorismo-nao-e-mais-justa-que-o-terrorismo-contra-a-guerra

Por Emir Ruivo – 15/11/2015.

Vídeo: Sam Richards explica como entender o que acontece no mundo em conflito.

Paris vive noite de terror

Atentados como o de sexta têm que provocar reflexões muito amplas. Onde caralhos nos perdemos? Em algum momento não estivemos perdidos? Em algum momento vamos nos encontrar?

O terrorismo não advém de uma guerra do bem contra o mau. Nada, nunca, é uma guerra do bem contra o mau. Guerras vêm simplesmente de necessidades e crenças conflitantes. Vários conflitos poderiam ser resolvidos com o uso da razão, mas no fim das contas, nossa emoção é muito mais forte.

O problema quase sempre está em subjugar o amiguinho. Quando a Alemanha perdeu a Primeira Guerra Mundial, foi subjugada no tratado de Versalhes. A raiva gerada no povo alemão pelo tratado deu força ao movimento nacionalista de Hitler, que por fim se tornaria o movimento fascista de um dos maiores criminosos da história. Se considerarmos que sem o tratado de Versalhes provavelmente não haveria Hitler, de quantas outras burradas históricas poderíamos nos ter livrado com atitudes mais delicadas?

Eu sempre penso que o padrão ético de guerra é determinado pelo mais forte. É muito fácil, quando você tem acesso às melhores tecnologias, dizer o que é justo e o que não é na guerra.

Deixar uma bomba no metrô e utilizar mísseis teleguiados em combates contra exércitos que usam pistolas são atitudes igualmente covardes. A diferença é que o míssil visa um alvo militar.

Mas vou contar uma coisa: a guerra, pelo caráter de longo prazo, mata mais civis colaterais do que atentados terroristas. O Iraq Body Count Project afirma que mais de 70.000 civis foram mortos como vítimas colaterais de ataques militares pela guerra do Iraque. Para comparar, nós falamos de algo entre 100 e 150 em Paris.

A The Lancet, mais tradicional revista da área médica no Reino Unido, conduziu uma pesquisa no Iraque para saber quantas vítimas fatais indiretas houve em razão da guerra. Mortes provocadas pela falta de segurança, pela degradação da infra-estrutura, pela dificuldade em conseguir comida, medicamentos e, tudo o que poderia levar à piora na saúde-pública. O número gira em torno de 600.000.
Bagdad vive terror constante há mais de uma década

Bagdad vive terror constante há mais de uma década

Fica claro, então, que a guerra não é mais ética ou moralmente defensável do que o terrorismo. Por isso, em momentos como este, nada que não seja compreensão e diálogo podem resolver. A não ser que se dizime uma cultura inteira, sempre haverá uma resposta mais agressiva a qualquer repressão.

O terrorismo é a resposta possível do cara que não tem acesso a drones, mísseis teleguiados, aviões ultra-sônicos e a tecnologia mais avançada. É uma resposta que eu não apoio, fique claro. Ao menos não desta forma. Mas assim como Sam Richards, compreendo.

Da minha parte, desejo todo o amor aos amigos e familiares das vítimas deste atentado em Paris. Assim como das vítimas de todas as guerras e injustiças que motivaram os executores do ataque. Mas antes que comecem a planejar uma nova guerra ao terror, me adianto: a guerra contra o terrorismo não é mais nobre ou mais justa que o terrorismo contra a guerra.

 

Sobre o Autor

Emir Ruivo é músico e produtor formado em Projeto Para Indústria Fonográfica na Point Blank London. Produziu algumas dezenas de álbuns e algumas centenas de singles. Com sua banda, Aurélios, possui dois álbuns lançados pela gravadora Atração. Seu último trabalho pode ser visto no seguinte endereço: http://www.youtube.com/watch?v=dFjmeJKiaWQ