Será que as autoridades sabem que começou a temporada de verão na Ilha?

Por Celso Vicenzi.

Hoje (30/12/2015) por volta das 11 horas, havia um engarrafamento enorme em direção às praias do sul da Ilha. Começava já na altura do Bistek, logo depois de passar o túnel da Prainha. O motivo? O trânsito estava liberado em duas pistas para quem vinha para o centro (poucas pessoas, claro!) e apenas uma pista para quem queria se dirigir às praias.

Alguém precisa avisar às autoridades estaduais de trânsito – Prefeitura e Governo do Estado, será que conversam? – que a temporada de verão já começou.

A onda conservadora e o impasse da esquerda (Por Antônio David/Viomundo)

Por Antônio David, especial para o Viomundo.

http://www.viomundo.com.br/politica/antonio-david-a-onda-conservadora-e-o-impasse-da-esquerda.html

Em seu mais recente artigo na Folha de S. Paulo (25/12/2015), Vladimir Safatle procura desconstruir a imagem de uma “onda conservadora” na política brasileira.

Reconhecendo que “o Brasil sempre foi um país com uma grande parcela de sua população claramente identificada ao pensamento conservador”, Safatle enumera episódios da história recente do Brasil nos quais o conservadorismo aflorou, para então concluir: “nada disto mudou muito, só perdeu seu contraponto”.

Nesses termos, o problema residiria no contraponto, isto é, na esquerda:

“Mas seria interessante se perguntar se o fenômeno que vemos hoje é realmente uma onda conservadora ou simplesmente a decomposição radical do que poderíamos chamar de ‘campo das esquerdas’. Uma decomposição que não foi fruto de complôs internacionais e de recrudescência do ódio, mas de impasses e erros próprios”.

Onda conservadora – Se é verdade que o conservadorismo deita profundas raízes na sociedade brasileira, é difícil concordar que a atual conjuntura não tenha produzido algo de novo a partir do velho conservadorismo, ou seja, que não estejamos diante de um novo conservadorismo, mais forte e com novas feições.

A onda conservadora existe. Trata-se de algo novo e complexo, que vai do individualismo consumista produzido pelo lulismo nas classes subalternas até o sentimento de mal-estar na classe média tradicional em face da perda relativa de prestígio e status produzida pela mobilidade social dos últimos anos. As recentes manifestações pró-impeachment amparam-se nessa segunda vertente.

Talvez seja no cinema o campo em que aparece de maneira mais nítida a produção do conservadorismo a partir do tecido social.

Em meio a isso tudo, soa simplista a afirmação de que o fortalecimento de ideias e manifestações conservadoras na sociedade decorra da ausência do contraponto de esquerda. Na verdade, o que a experiência ensina é o exato oposto: o contraponto de esquerda tende a alimentar ainda mais o conservadorismo, como bem mostram nossos vizinhos latino-americanos, que não estão melhores do que nós.

Além disso, seria honesto lembrar que nossa onda conservadora foi sendo incrementada a conta gotas por contrapontos de esquerda, muitos dos quais vindos do governo (como o programa Mais Médicos, a Comissão da Verdade e as políticas das secretarias nacionais vinculadas à presidência da República, só para dar alguns exemplos). Não é por acaso que o alvo principal de Bolsonaro, Feliciano e cia. seja o PT. Uma leitura do conservadorismo no Brasil atual não pode deixar esses dados de lado.

É certo que o objetivo de Safatle é contrapor-se a um tipo de intervenção, próprio de uma militância governista fanática, para quem todos os problemas devem ser imputados à direita. Trata-se de um embate intelectual, no campo da crítica. Todavia, negar pura e simplesmente a existência de uma onda conservadora acaba sendo tão empobrecedor quanto atribuir todos os problemas à dita onda. Se o que se quer é polarizar com a militância governista, o resultado foi um nivelamento por baixo da polarização. Enquanto para uns tudo é onda conservadora, para outros não há onda conservadora. Entre uns e outros, é o pensamento crítico que perece, deixando o campo aberto para o fanatismo.

Impasse da esquerda – Se a decomposição radical do campo das esquerdas foi fruto de erros próprios, resta saber por que razão a crítica de Safatle não alcança o lugar de onde ele fala, isto é, a esquerda socialista. Isso inclui a esquerda do PT, bem como seu próprio partido e a tese à qual ele associou-se no interior do PSOL.

Tem sido lugar comum entre os intelectuais de esquerda a ideia de que apenas e tão somente o PT deve ser criticado. Para estes, a razão pela qual só o PT merece ser criticado é tão óbvia, tão autoevidente que sequer merece justificativa. “A culpa é do PT”, é o que se lê aqui e acolá.

Mas se estamos diante da decomposição do campo das esquerdas, como nota Safatle, não seria o caso de dirigir a crítica à esquerda no seu conjunto? Se a esquerda socialista é pequena ou muito pequena – argumento o mais das vezes utilizado por ela própria para eximir-se da crítica -, cabe notar que sua pequenez não é um dado da natureza, nem deve ser imputado pura e simplesmente ao sistema. Aqui também são os erros próprios que devem ser vislumbrados.

As duas últimas eleições presidenciais mostram que há espaço para uma terceira via. Um espaço eleitoral, político e social que, se ocupado pela esquerda socialista, empurraria a conjuntura para a esquerda. Não é exatamente a capacidade de a esquerda socialista ocupar um espaço social à esquerda a chave para o necessário contraponto à onda conservadora? A quem interessa uma esquerda socialista pequena e isolada, enquanto Marina e o PSDB polarizam com o governo e o PT?

Dizemos isso porque é o próprio Safatle quem lembra: “a última eleição teve uma candidata com 20% de votos e, no fundo, sem partido”. Ocorre que Marina chegou onde chegou não por acaso, mas fundamentalmente porque ela acertou. Não saiu do governo antes de o governo começar, mas na hora certa e do jeito certo. Não fez oposição ao lulismo, antes apresentou-se como continuação e superação deste.

Ao contrário do que muitos pensam, o espaço ocupado por Marina não se situa na classe média tradicional, mas na nova classe trabalhadora. Sobretudo entre os jovens e nas grandes cidades. Esse espaço não poderia ter sido ocupado pela esquerda socialista? Sim, mas as condições para isso não seriam simples. Exigiriam da esquerda socialista e do PToutra estratégia política. Uma estratégia de esquerda, na qual lulismo e esquerda socialista convergiriam.

Apesar de central, a eleição majoritária não resolve o problema da composição do Congresso Nacional. Quanto a isso, tanto quanto é pobre a afirmação de que o Congresso representa a população – como se existisse representação política perfeita -, a negativa também é simplista e empobrecedora. (Para um estudo sério sobre o assunto, ler André Singer, Esquerda e direita no eleitorado brasileiro, Edusp, 1999; há inúmeras monografias produzidas recentemente sobre o assunto).

Ao contrário do que Safatle argumenta, não há uma tendência do voto de presidente influenciar o voto proporcional, ao menos não como Safatle quer fazer crer. Os resultados estão disponíveis para quem quiser ver.

Finalmente, imaginar que, sob outras leis eleitorais e com outra mídia, o Congresso Nacional seria qualitativamente mais à esquerda, soa como uma maneira de apaziguar a consciência. Primeiro porque as leis eleitorais e a mídia são as armas do inimigo, e numa guerra nunca o inimigo abdica de suas armas (1); segundo porque as pessoas pensam, de modo que o voto é sim expressão de uma percepção do eleitor(a) sobre a posição que o candidato(a) e/ou o partido ocupam no espectro ideológico. E, afinal, “o Brasil sempre foi um país com uma grande parcela de sua população claramente identificada ao pensamento conservador”.

Crítica e autocrítica – Veja-se o caso da Espanha: o Podemos teve uma votação impressionante, como bem lembra Safatle. Mas convém notar: com as mesmas regras eleitorais de sempre (2). Nós também podemos, desde que façamos como eles: entendamos o Brasil e inovemos nossa estratégia. Criemos uma estratégia adequada ao Brasil, capaz de fazer frente às condições tais quais existem.

O problema é que isso exige autocrítica, e toda autocrítica coloca em risco a própria identidade e a coesão do grupo, e nem todos estão dispostos a enfrentar o fantasma da crise de identidade e da quebra da coesão. Mais cômodo e seguro é aferrar-se à situação atual, ainda que seja de derrota.

A paralisia não acomete apenas o PT e o governo – que também devem fazer uma dura autocrítica.

Há também na esquerda socialista uma situação de paralisia, ou seja, uma fixação ideológica que impede a inovação estratégica: tanto quanto o PT não consegue incorporar em sua estratégia a esquerda socialista, que não ocupa lugar algum na estratégia do lulismo, esta – esquerda socialista – igualmente não consegue incorporar o lulismo em sua estratégia. Enquanto a única alternativa que o lulismo produziu foi Marina, a estratégia do PSOL segue sendo a mesma dez anos depois de sua fundação: oposição.

Se há paralisia, o ponto é que a paralisia é da esquerda no seu conjunto e só dessa perspectiva ela pode ser compreendida. Daí a razão pela qual a superação dos impasses da esquerda no atual momento histórico exige um esforço mais elevado de crítica, de uma crítica dirigida à esquerda no seu conjunto. Crítica dirigida apenas ao PT ou apenas à esquerda socialista não é crítica, mas caricatura de crítica.

A recusa de Safatle em associar à crítica ao PT a autocrítica – não dele, pessoal, mas do lugar de onde ele fala – é emblemática do momento por que passamos no campo intelectual e político na esquerda brasileira. Momento que carece superarmos.

(1) É conhecido o argumento, preponderante entre a esquerda socialista, de que o PT (o governo) poderia mudar as leis eleitorais e a mídia se quisesse, e de que a mudança não ocorreu porque o PT (o governo) não quis. Por vezes, o argumento é mais sofisticado: o PT e o governo poderiam mobilizar a população para, nas ruas, desequilibrar a correlação de forças do Congresso e, com isso, aprovar quaisquer medidas; mas o PT e o governo abdicaram da mobilização como estratégia – o que é verdade, embora não seja verdadeira a ideia de que a mobilização provavelmente conduziria a um resultado favorável.

Há, enfim, quem compare o Brasil com a Venezuela, ignorando que o chavismo surgiu de processos muito particulares (cada país tem a sua história) e que o PSUV sozinho logrou por muitos anos ter maioria no parlamento venezuelano. Com argumentos como esse, demonstra-se apenas uma profunda ingenuidade, uma visão romântica da política brasileira, na qual se ignora a situação concreta das classes sociais no Brasil – alguns na esquerda socialista chegam a atribuir à classe média uma feição progressista! – e na qual se atribui ao PT (e ao governo) um poder que estes definitivamente não têm. No fundo, estes argumentos apenas demonstram uma fantasia a respeito das classes sociais no Brasil e o desejo de um governo com superpoderes, o que não deixa de ser irônico em face da pouca força daqueles que argumentam nesse sentido.

(2) Para compreender como o Podemos construiu uma estratégia original a partir de uma leitura avançada da situação concreta da Espanha, conferir: Pablo Iglesias, Entendendo o Podemos, Revista Mouro, janeiro de 2016, tradução de Joana Salém Vasconcelos (contato@mouro.com.br)

Mudar a sociedade e a polícia

Texto publicado na edição de hoje (26/12/2015) do jornal Diário Catarinense.

Por Celso Vicenzi.

Em menos de uma semana, quatro jornalistas, em Santa Catarina, foram vítimas de ações da Polícia Militar, que impediu, de forma truculenta, que pudessem realizar o seu trabalho. Infelizmente, não são atos isolados. Em 2014, dos 129 jornalistas agredidos no país, 62 foram vítimas de violência policial (48%), segundo informa a Federação Nacional dos Jornalistas. Entre 2012 e 2014 também houve mortes, tentativas de homicídio, ameaças de mortes e sequestros. Essas agressões não atingem somente os profissionais da comunicação. Representam, também, uma afronta à liberdade de expressão e ao direito do cidadão à informação, constituindo-se, em última instância, como um ataque aos princípios democráticos.

Há no Brasil uma cultura da violência que é herança das raízes escravagistas.  Inicialmente empregada contra índios e negros, hoje usada para subjugar as populações mais pobres. Paradoxalmente, em muitos casos, alimentada até mesmo por setores da mídia, sobretudo em algumas emissoras de rádio e televisão, em programas policialescos que adotam a ideologia do “bandido bom é bandido morto”. Há uma tolerância institucional e de uma parcela da população que acaba por naturalizar a violência. No lugar da indignação, a concordância.

Um estudo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostra que o risco de um jovem negro ser assassinado supera em 2,5 vezes a possibilidade de um jovem branco ser vítima de homicídio. Entre as vítimas da violência policial no Rio de Janeiro, quase 80% eram negras e 75% tinham idades entre 15 e 29 anos.

São notórias as estatísticas do uso desproporcional da força policial. A Polícia Militar, que ainda é muito parecida com aquela em ação na ditadura, continua a ser utilizada por governantes no controle do “inimigo interno”. Segundo o relatório da Comissão da Verdade “Rubens Paiva”, de São Paulo, a Polícia Militar “não reconhece na população pobre uma cidadania titular de direitos fundamentais, apenas suspeitos que, no mínimo, devem ser vigiados e disciplinados, porque assim querem os sucessivos governantes, ontem e hoje”.

É a polícia que mais mata no mundo. Entre 2009 e 2013, houve 11.197 mortes causadas por policiais. É mais do que a polícia norte-americana matou em 30 anos. Segundo a Anistia Internacional, em geral são homicídios de pessoas já rendidas, que já foram feridas ou alvejadas sem qualquer aviso prévio. A maioria dos autores dos disparos nunca foi punida.

Em 2013 a média era de seis pessoas mortas por dia, um grau de letalidade superior à maioria das baixas em guerras em várias partes do mundo. Tanta violência, no entanto, não tornou a sociedade mais segura. O Brasil possui cerca de 600 mil presos (a quarta maior população carcerária do mundo), a maioria em condições subumanas, sem oferecer condições de recuperação, formando um círculo vicioso que gera mais e mais violência. E que se volta, também, contra a própria corporação policial. Entre 2009 e 2013 morreram 1.770 policiais no exercício da profissão.

Por isso, precisamos repensar, com urgência, o modelo de sociedade, em que o direito à cidadania e a uma vida digna, com respeito aos direitos humanos, sejam etapas fundamentais para reconciliar o país e aceitar que todos os seus cidadãos e cidadãs são portadores dos mesmos direitos e obrigações.

Natal sem hipocrisia

http://blogdaboitempo.com.br/2015/12/24/boulos-natal-sem-hipocrisia

Por Guilherme Boulos – 24/12/2015 – Boitempo.

Hoje é Natal. Quase um terço da população mundial celebra o nascimento de Jesus Cristo. Só no Brasil são mais de 160 milhões de cristãos. A data, é na verdade, se tornou maus que tudo um grande evento comercial, mas vale a pena aproveitarmos a ocasião natalina para uma breve reflexão.

Jesus Cristo, do modo como nos apresenta a Bíblia, não era um apologeta da ordem e da tradição. Enfrentou os poderosos de seu tempo e defendeu ideias que a consciência dominante não podia admitir.

Não por acaso morreu na cruz, depois de perseguido, preso e torturado. Como gosta de lembrar Frei Beto, Jesus não morreu de hepatite na cama nem atropelado por um camelo em alguma esquina de Jerusalém. Morreu como preso político nas mãos do prefeito Pôncio Pilatos e dos sacerdotes judeus. Isso, as escrituras nos dizem.

Nos falam também sobre as razões que fizeram de Jesus tão odiado pelos poderosos. Defendeu a igualdade e os mais pobres, condenando aqueles que se apegavam demais às riquezas: “É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus” (Mateus 19-24).

Defendeu a divisão dos bens, como signo da igualdade social: “Encheu de bens os famintos, e despediu vazios os ricos” (Lucas 1, 53). E assim o fez, partilhou o pão e os peixes entre todos (Marcos 6,41).

Jesus enfrentou também decididamente os preconceitos, como mostra o caso bíblico da mulher samaritana (João 4, 1-42). Acolheu os marginalizados (Marcos 7, 31) e foi misericordioso com as prostitutas (Lucas 7, 36-50). Combateu o ódio e intolerância.

Hoje, 2014 anos depois, nosso mundo permanece profundamente desigual. Os 2% mais ricos da população mundial detêm mais da metade de todas as riquezas, enquanto os 50% mais pobres detêm apenas 1%. Os donos do poder, via de rega, continuam atuando para manter esta estrutura de privilégios e reprimir o povo quando ousa enfrentá-la.

Muitos dos que hoje se dizem cristãos consideram a desigualdade como fato imutável e a legitimam pelo discurso hipócrita da meritocracia. Sem falar no ódio e na intolerância. Defendem o linchamento público de “marginais”, silenciam como cumplicidade ante a chacina da juventude negra nas periferias, ofendem homossexuais e toleram a agressão à mulheres.

Jesus dedicou sua vida à igualdade, justiça e paz entre os povos. Se reaparecesse em 2014, no Brasil, ficaria espantado com o que dizem e fazem muitos dos cristãos. Seria achincalhado com palavras inomináveis nas seções de comentários da internet. Seria chamado de bolivariano na avenida Paulista. Certa comentarista de telejornal o mandaria levar para casa a mulher adúltera que ele salvou do apedrejamento. E alguém, de dentro de algum carro no Leblon, gritaria a ele:”Vai pra Cuba, Jesus”.!

Um coisa é certa. O Jesus de que a Bíblia nos conta, se vivesse hoje, estaria ao lado dos direitos sociais e humanos. Estaria com os sem-teto e os sem-terra, com os negros, as mulheres violentadas e os homossexuais vítimas de preconceito. Estaria com os imigrantes haitianos e defendendo – como o papa Francisco – o fim do vergonhoso embargo à Cuba.

Talvez fosse preso e torturado, do mesmo modo que milhares de brasileiros que não há muito lutavam por igualdade e justiça. Seria sem dúvida crucificado, desta vez não pelas autoridades romanas e os sacerdotes judeus, mas crucificado moralmente por muitos dos cristãos que, em seu nome insistem em combater tudo aquilo que ele defendeu.

Dizem que o Natal é a passagem de ano são momentos para reflexões e mudançãs. Assim seja. Espero que muitos dos que partilham da fé cristão possam aproveitar a oportunidade natalina para inspirarem-se mais no exemplo de seu mestre.

O impeachment, o STF, a mídia e a democracia

Por Celso Vicenzi.

O principal jornal catarinense, na edição de 18 de dezembro/2015, na página 18, apresenta um quadro com o voto de cada ministro do STF, dividindo-os em “favorece o governo” e “favorece a oposição”. É a mesma ênfase e linha de raciocínio presente nos telejornais da Rede Globo, na tentativa de pressionar e indispor os integrantes da mais alta Corte do país com a população. É uma visão reducionista, que induz os leitores/telespectadores a interpretar o voto de cada ministro como um voto eminentemente político. Aliás, têm sido frequentes insinuações de que determinados ministros votam de um jeito ou de outro apenas porque “foram indicados” para o Tribunal por Lula ou Dilma.

As indicações de ministros do STF, em governos anteriores, do PSDB, por exemplo, nunca foram questionadas pela imprensa. A começar pelo ministro Gilmar Mendes, indicado por FHC. Nem é preciso ser um renomado jurista para entender que o eminente ministro se comporta de maneira indecorosa no  cargo, sem a necessária discrição (juiz só deveria falar nos autos), usando a mídia, com muita frequência, para emitir opinião política em processos que deveriam exigir um mínimo de isenção, sem pré-convicções antes de analisar as provas que constam nos autos. Gilmar é, de fato, um caso à parte, que envergonha o Judiciário brasileiro e que merece providências.

Os meios de comunicação do país, incapazes de uma análise mais honesta, têm reduzido a política do país a uma interpretação binária: contra ou a favor do governo. Há quem torça, inclusive, pelo caos no país. Mas a tese das “indicações políticas” não guardam lógica com os votos dos ministros (e se houvesse coincidência, ainda assim, não seriam prova, sob pena de sempre ter que votar contra o presidente/governo que fez a indicação do ministro). Ora, Fachin e Tóffoli, votaram pela manutenção do encaminhamento dado por Eduardo Cunha no processo de impeachment. Carmen Lúcia, que há dias fez pesada crítica aos governos petistas (“o escárnio venceu o cinismo”), votou a favor da anulação do processo deflagrado por Cunha e a favor do voto aberto. Basta prestar atenção ao resultados dos quesitos votados: 11 a 0; 7 a 4; 8 a 3 e 6 a 5. Nada que comprove a tese de um Fla-Flu com resultados “arranjados”.

A decisão do STF, no caso do impeachment, foi a de impedir que a Constituição fosse desrespeitada e vilipendiada por pessoas como Eduardo Cunha e sua tropa de choque que vinham chantageando e ameaçando parlamentares, o governo e quem quer que estivesse se opondo aos interesses particulares e de grupos desses políticos cuja atuação tem sido marcada por atitudes antiéticas – sem contar que vários deles respondem a processos na Justiça. Em síntese: a democracia era refém de pessoas que usam e abusam do cargo para defender interesses particulares.

Um famoso comentarista da Globo, que já assessorou um presidente na época da ditadura, numa interpretação apressada e mal elaborada, disse que a decisão do STF legitima o processo de impeachment, e que, a partir de agora, não pode mais ser chamado de golpe. Raciocínio tosco e pretensiosamente manipulador, pois um impeachment que tem início sem fato concreto para legitimar a abertura de um processo tão violentador da soberania popular manifestada no voto, usado como moeda de chantagem por um presidente da Câmara que já deveria estar preso, não deveria ser levada adiante pelo Parlamento brasileiro. O que o STF fez, preliminarmente, foi instituir o rito correto do impeachment, sem as manobras do presidente da Câmara. E antes que alguém se apresse em lembrar das “pedaladas fiscais”, elas não configuram crime e muito menos motivo suficiente para desencadear um processo de impeachment.

Tratar a decisão do Supremo como simples “favorecimento” ao governo ou à oposição é desviar a discussão daquilo que de fato ela é: uma decisão sobre a Constituição, a lei máxima que todas as pessoas e instituições precisam obedecer. A democracia não pode ser refém da mídia, de parlamentares sem ética, de partidos e políticos que não respeitam o resultado de eleições, de corporações sindicais, empresariais, religiosas ou de quem quer que seja.

O cidadão é soberano e precisa ficar atento a manobras de quem não se pauta pelo interesse público e usa de atos escusos para fazer o país retroceder em todas as suas conquistas sociais. A decisão do STF, impediu, por enquanto, que a democracia seja desrespeitada e que a decisão soberana da maioria dos eleitores, seja derrotada por interesses particulares de grupos ou de pessoas, em desacordo com o que prevê a Constituição brasileira.

Diz a Magna Carta em seu primeiro artigo e parágrafo único: “Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição”. É bom que o povo fique de olho, em todos aqueles que falam em seu nome.

Mulheres elegem filmes e livros (sobre mulheres) que você precisa conhecer (por Camile Moraes/El Pais)

A voz feminina está se fazendo ouvir, em alto e bom tom, em diversas cidades brasileiras.

Enquanto milhares de mulheres se manifestam nas ruas do país em prol de seus direitos e de sua integridade, no cinema e na literatura mundiais suas histórias de resistência vêm sendo contadas através de livros e filmes imperdíveis. Muitos deles merecem e precisam ser ouvidos, especialmente em tempos como os atuais, de conservadorismo retrógrado e daninho.

Por isso, convidamos cineastas, escritoras, professoras, jornalistas e pesquisadoras para fazer uma lista de indicações culturais que ajudaram a formar os olhares delas sobre o tema – e que você precisa conhecer.

Confira as escolhas da mulherada e divirta-se com um tema sério e urgente. Nem que seja por um fim de semana.

http://brasil.elpais.com/brasil/2015/11/12/cultura/1447350789_035135.html

Democracia é valor inalienável

http://www.fenaj.org.br/materia.php?id=4453

Nota oficial 9/12/2015

A Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) dirige-se à população brasileira para manifestar sua preocupação com os rumos que a crise política assume e para defender a democracia, duramente conquistada no passado recente da história nacional.

A FENAJ alerta para o perigo do casuísmo autoritário que setores da sociedade, sem espírito público, promovem ao propor o impeachment presidencial, com características de golpe aberto. Também lamenta que, mais uma vez, parlamentares eleitos pelo voto da população traiam seus eleitores ao apelarem à ruptura democrática para se contrapor ao resultado da eleição presidencial de 2014.

O argumento jurídico apresentado para o afastamento da presidente Dilma não se sustenta nem esconde a volúpia pelo poder a qualquer custo, manifestada pelos conservadores, desde a eleição que derrotou Aécio Neves e seu projeto neoliberal. Igualmente, são inaceitáveis as manobras políticas realizadas e que envergonham o Parlamento brasileiro.

Entidade máxima de representação dos jornalistas brasileiros, a FENAJ condena veementemente setores da mídia nacional por conspirarem contra a democracia, produzindo um clima de medo e terror e, a exemplo de 1964, propondo explicitamente o afastamento da presidente da República, Dilma Rousseff.

Jornalistas brasileiros deram seu sangue e sua vida pela democracia; centenas vêm sofrendo represália e afastamento de seus trabalhos ao longo das últimas décadas, por defenderem a responsabilidade e a ética no Jornalismo.

Neste momento em que a democracia e os verdadeiros interesses da população brasileira estão novamente ameaçados, a FENAJ conclama os jornalistas brasileiros a cumprir seu dever de informar a sociedade e denunciar toda e qualquer tentativa de mascarar a realidade.

Os jornalistas brasileiros não devem se curvar a eventuais pressões de empresários autoritários ou inescrupulosos. Ao contrário, devem honrar o compromisso primeiro do Jornalismo, que é a busca da verdade.

A FENAJ conclama também as demais entidades do movimento sindical dos trabalhadores e dos movimentos sociais, academia, partidos políticos e todos os cidadãos e cidadãs brasileiros a defender, até as últimas consequências, a democracia. A sociedade brasileira, se preciso for, vai às ruas para dizer: não permitimos retrocessos à margem da legalidade e da moralidade; não aceitamos golpe!

Diretoria da FENAJ.

Brasília, 9 de dezembro de 2015

Trair e conspirar

Por Celso Vicenzi

O vice-presidente Michel Temer, que de repente abandona toda a fleugma e diplomacia que o caracterizou para se transformar num conspirador e incendiário, paradoxalmente, contribui para aumentar o sentimento de ilegitimidade do impeachment da presidenta Dilma. Se já não bastasse um presidente que se mantém ativo na presidência da Câmara, apesar de acusado por uma série de crimes, boa parte deles documentados com carimbo suíço, agora Temer expõe ao país a sua face mais grotesca e torpe: a de um traidor. Não há atenuantes para quem ocupa o cargo de vice-presidente e, longe de defender o governo em hora difícil, conspira para derrubá-lo. E se apresenta como seu principal beneficiário.

O Brasil, por várias razões, costuma ser leniente com a corrupção. O povo sabe, intuitivamente, que não somos tão rígidos com o cumprimento das leis. Que, por nossa  formação cultural, muitas vezes somos coniventes com pequenos atos de exceção, com compadrios, com vantagens nem sempre advindas de méritos. O povo aprendeu no dia a dia que uma lei não é igual para todos, que para alguns, mais próximos do poder e da fortuna, há sempre um jeitinho. Mesmo com o Mensalão e agora com a Lava-Jato, percebe que a justiça tem sido muito seletiva ao apontar envolvidos com a corrupção. Enxerga uns e não vê outros.

Maluf e vários políticos com biografias não muito recomendáveis, estão aí para provar que os brasileiros não são assim tão rigorosos com quem já foi condenado ou é acusado de corrupção. Mas a lei vigente nas cadeias, lotada de pessoas das camadas mais pobres, é implacável em relação a uma regra: não se perdoa traição. E o povo mais pobre assimila esse código que não está escrito em nenhum lugar, mas habita o imaginário de todos.

Michel Temer e o PMDB, sobretudo, parecem desconhecer o risco que correm nesse momento da história. O partido, hábil por sempre transitar nas sombras do poder, pode ter que se despir diante dos holofotes da opinião pública da pior forma possível: como um partido conspirador, que apesar de ocupar vários cargos de poder, ainda assim morde a mão que o alimenta. Uma mancha que não se apagará com facilidade e que pode mudar a forma condescendente com que a sociedade sempre viu o PMDB. Mais grave ainda, por se tratar da traição de um homem contra uma mulher.

Parece ser outro fenômeno tipicamente brasileiro, a megalomania e a falta de discernimento de homens públicos a quem os cabelos brancos não serenaram eventuais frustrações, a despeito de toda a glória que puderam desfrutar. Hélio Bicudo, Aécio Neves, Fernando Henrique Cardoso, Michel Temer – entre tantos – confiam demais na mídia amiga e nas elites do país, esquecendo-se que o julgamento final será sempre do povo. E o povo aceita muitos defeitos, mas não perdoa quem coloca as suas ambições pessoais acima dos interesses da nação.

Zumbi dos Palmares, Tiradentes, Anita Garibaldi, Getúlio, Jango, Juscelino, Chico Mendes não obstante nem mesmo desfechos trágicos, têm seus nomes gravados para sempre na memória do povo. “Saíram da vida para entrar na história”, parafraseando Getúlio. E pela porta da frente. Lula, mesmo que venha a ser condenado por uma justiça que também corre o risco de desmoralizar-se, contaminada pelo viés da política, parece que terá o mesmo destino.

No ato de promulgação da Constituição brasileira, em 1988, Ulysses Guimarães, de um PMDB que o país pode se orgulhar e que parece ter se perdido em algum lugar da história, disse, em discurso à nação, palavras que Michel Temer, atuais peemedebistas e outros políticos parecem ter esquecido: “A Constituição certamente não é perfeita. Ela própria o confessa, ao admitir a reforma. Quanto a ela, discordar, sim. Divergir, sim. Descumprir, jamais. Afrontá-la, nunca. Traidor da Constituição é traidor da Pátria”.

A golpistas está reservada a lata de lixo da história.

O golpe pode custar caro

E os repórteres, comentaristas, apresentadores e editores da Globo continuam apresentando o golpe como se fosse a coisa mais democrática do mundo. A parte mais podre desse país não aceitou a derrota nas eleições e quer dar o golpe. Com desculpas esfarrapadas travestidas de constitucionais. Não é à toa que um dos maiores corruptos que o país já conheceu continue na presidência da Câmara, liderando o processo de impeachment, sem que cause qualquer desconforto à consciência de boa parte dos brasileiros e brasileiras que querem o golpe. Custe o que custar. Mas pode custar caro.

Quando o povo vira protagonista

Os estudantes de São Paulo nos lembram a velha (e sempre nova) lição: quando o povo deixa de ser espectador e vira protagonista, em busca daquilo em que acredita, nenhuma força é capaz de derrotá-lo. Nem governantes ou policiais. Gandhi expulsou os colonizadores ingleses sem pegar em armas. Mas sem ilusões, porque a história também está cheia de exemplos de retrocessos, com a adesão ou conivência do povo. Deflagrado o processo de impeachment (por um corrupto!), vamos saber agora, claramente, quem defende a democracia e quem apoia o golpe. Sem álibis!