Mudar a sociedade e a polícia

Texto publicado na edição de hoje (26/12/2015) do jornal Diário Catarinense.

Por Celso Vicenzi.

Em menos de uma semana, quatro jornalistas, em Santa Catarina, foram vítimas de ações da Polícia Militar, que impediu, de forma truculenta, que pudessem realizar o seu trabalho. Infelizmente, não são atos isolados. Em 2014, dos 129 jornalistas agredidos no país, 62 foram vítimas de violência policial (48%), segundo informa a Federação Nacional dos Jornalistas. Entre 2012 e 2014 também houve mortes, tentativas de homicídio, ameaças de mortes e sequestros. Essas agressões não atingem somente os profissionais da comunicação. Representam, também, uma afronta à liberdade de expressão e ao direito do cidadão à informação, constituindo-se, em última instância, como um ataque aos princípios democráticos.

Há no Brasil uma cultura da violência que é herança das raízes escravagistas.  Inicialmente empregada contra índios e negros, hoje usada para subjugar as populações mais pobres. Paradoxalmente, em muitos casos, alimentada até mesmo por setores da mídia, sobretudo em algumas emissoras de rádio e televisão, em programas policialescos que adotam a ideologia do “bandido bom é bandido morto”. Há uma tolerância institucional e de uma parcela da população que acaba por naturalizar a violência. No lugar da indignação, a concordância.

Um estudo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostra que o risco de um jovem negro ser assassinado supera em 2,5 vezes a possibilidade de um jovem branco ser vítima de homicídio. Entre as vítimas da violência policial no Rio de Janeiro, quase 80% eram negras e 75% tinham idades entre 15 e 29 anos.

São notórias as estatísticas do uso desproporcional da força policial. A Polícia Militar, que ainda é muito parecida com aquela em ação na ditadura, continua a ser utilizada por governantes no controle do “inimigo interno”. Segundo o relatório da Comissão da Verdade “Rubens Paiva”, de São Paulo, a Polícia Militar “não reconhece na população pobre uma cidadania titular de direitos fundamentais, apenas suspeitos que, no mínimo, devem ser vigiados e disciplinados, porque assim querem os sucessivos governantes, ontem e hoje”.

É a polícia que mais mata no mundo. Entre 2009 e 2013, houve 11.197 mortes causadas por policiais. É mais do que a polícia norte-americana matou em 30 anos. Segundo a Anistia Internacional, em geral são homicídios de pessoas já rendidas, que já foram feridas ou alvejadas sem qualquer aviso prévio. A maioria dos autores dos disparos nunca foi punida.

Em 2013 a média era de seis pessoas mortas por dia, um grau de letalidade superior à maioria das baixas em guerras em várias partes do mundo. Tanta violência, no entanto, não tornou a sociedade mais segura. O Brasil possui cerca de 600 mil presos (a quarta maior população carcerária do mundo), a maioria em condições subumanas, sem oferecer condições de recuperação, formando um círculo vicioso que gera mais e mais violência. E que se volta, também, contra a própria corporação policial. Entre 2009 e 2013 morreram 1.770 policiais no exercício da profissão.

Por isso, precisamos repensar, com urgência, o modelo de sociedade, em que o direito à cidadania e a uma vida digna, com respeito aos direitos humanos, sejam etapas fundamentais para reconciliar o país e aceitar que todos os seus cidadãos e cidadãs são portadores dos mesmos direitos e obrigações.

Compartilhe
Share On Facebook
Share On Twitter
Share On Google Plus
Share On Linkedin
Contact us

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *