Triste sina, a de ter que defender um governo inepto

Quem não tem coragem e disposição para perder, se preciso for, sem abrir mão de princípios, também não merece permanecer no poder.
 
O que faz uma presidenta que não vem a público denunciar os parlamentares que querem vender o patrimônio dos brasileiros? É sempre esse joguinho de bastidores, onde nunca haverá aglutinação suficiente de forças para derrotar os entreguistas.
 
Pensem nos discursos de um Brizola, de um Mujica, de um Sanders e comparem à paralisia política que toma conta do governo brasileiro.
 
O que estamos defendendo, há um bom tempo, não é o governo Dilma ou do PT. É o país, contra as forças reacionárias que querem entregar o futuro das próximas gerações ao controle do capital internacional.
 
Porque desse governo, inepto e incapaz de se aliar aos movimento sociais e às forças progressistas, não há mais muito o que esperar, embora tenhamos que defendê-lo, com muito pesar.

O PT vai perder por WO? (Por Fernando Brito/via Tijolaço)

http://tijolaco.com.br/blog/o-imperio-do-odio

Assino embaixo na reflexão, mais do que oportuna, de Fernando Brito.
Vivemos tempos incertos e onde tudo isso nos levará é difícil prever. Talvez o retrocesso, agora com o carimbo de “legalidade” do golpe jurídico-midiático seja mais impactante do que os tempos mais sombrios da nossa história. O futuro não só de uma, mas de várias gerações pode estar sendo vendido por reacionários e traidores da pátria, sob a sempre onipresente cortina de fumaça do “combate à corrupção”.

POR · 24/02/2016.

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A esta altura, o mais tolo “republicano de taubaté” deveria estar vendo que o roteiro da tomada do poder segue sua marcha inexorável.

Se Dilma não pode ser incriminada por qualquer benesse recebida, que o seja pelos negócios de seu marqueteiro.

Se Lula não tem milhões, que seja corrupto pelos pedalinhos, pelo puxadinho, pela churrasqueira ou pela canoa de lata.

O país é varrido por uma onda de moralismo que, junto com a falcatruas reais, que já deixaram de ser importantes, arrasta tudo de roldão, com um juiz e suas matilhas de policiais e promotores, que tem jurisdição sobre tudo e sobre todos, em qualquer assunto e em qualquer parte do país.

E uma “tropa de reserva” de juízes e promotores que, deuses que se acham, estão dispostos a investigar até o cesto de roupa suja do ex-presidente.

O Judiciário, como um todo, vive uma Síndrome de Estocolmo: está sequestrado pela mídia e apaixonou-se por ela.

Viu-se elevado à condição que sempre desejou: a condição de deus ex machina, usurpando o poder de ser a solução dos problemas brasileiros, criados por estes abjetos e corrompidos portadores do voto e praticantes da política.

Cessará a corrupção nas estatais, todas serão destruídas.

As grandes empreiteiras, corruptas (fico espantado pela descoberta!) também, serão igualmente aniquiladas, pouco importando se é dos raros setores econômicos onde o país se projeta no exterior.

A indústria de defesa – esta monstruosidade perdulária – vai ser aniquilada, por inútil: defender o que, se devemos entregar tudo?

Tudo, apesar de abjeto, tem a sua lógica perversa.

A sede de poder, à qual a democracia impõe um  sistema de freios e contrapesos, é tão velha quanto as sociedades humanas.

O que não tem lógica é que Lula, Dilma, o governo e o PT continuem, bois mansos, seguindo para o matadouro.

Acreditando, como os pobres judeus nos campos nazistas, que aqueles chuveiros são para um banho, uma faxina, não para lhes sufocar em Zyclon-B.

As concessões, absolutamente necessárias à política, não podem jamais ter o poder de destruir nossas almas, nossa dignidade, nossa missão e compromissos com o povo brasileiro.

Se nos levam a isso, é questão de tempo – e não muito – até que destruam a nós próprios.

Como mulher, Miriam foi abusada por FHC (Por Nathalí Macedo/via DCM)

Estou impressionado com a agressividade dos comentários que leio nas redes sociais contra Miriam Dutra, feitos por alguns homens, mas principalmente por mulheres que leram este texto (falo aqui apenas deste texto).
Como não compreender, com um mínimo de solidariedade, a situação narrada por Nathalí Macedo e que é mais uma entre tantas violências sofridas cotidianamente por mulheres? Sim, ninguém é apenas vítima, como já assinalou Simone de Beauvoir, mas por que ignorar a vileza, a insensibilidade, a covardia de um homem poderoso que a ameaçou e chantageou para esconder um segredo e se reeleger presidente do Brasil, preferindo atacar justamente a pessoa que, a despeito de uma ou outra compensação financeira, foi enganada e humilhada nessa trama?
Miriam também não pode se omitir de responsabilidades diante do que aconteceu. Mas, sinceramente, o que não consigo entender é a enorme agressividade contra ela numa situação em que, abstraídos os personagens e o impacto no desencadear da vida política do país, é mais um drama comum a tantas mulheres.

 

http://www.diariodocentrodomundo.com.br/como-mulher-mirian-dutra-foi-abusada-por-fhc-por-nathali-macedo/?utm_source=dlvr.it&utm_medium=twitter&utm_campaign=como-mulher-mirian-dutra-foi-abusada-por-fhc-por-nathali-macedo

Eliane culpa PT pelo escândalo Miriam-FHC (Via Brasil 247)

Qual é a graça de brincar de combate à corrupção se não é no quintal do PT? A farsa que ela e outros colunistas tentaram de todas as maneiras construir e que começa a desmoronar é o que todos já sabiam: corrupção não é só um problema do PT, deste ou de qualquer outro governo, mas de toda a sociedade.

E como bem disse o presidente do Ipea, Jessé Souza, às vezes vira cortina de fumaça para esconder algo muito pior: a desigualdade brasileira. Pensada, arquitetada e construída com amplo apoio da mídia e instituições públicas e privadas. A farsa do combate à corrupção é só isso: tirar o PT do poder para voltar às mãos dos verdadeiros “profissionais” do ramo, a direita brasileira, que à exceção de pequenos hiatos, sempre mandou e desmandou no país sem que esses colunistas se sentissem muito incomodados.

É por isso que ninguém bate panela contra a corrupção do PMDB, do PSDB, do DEM, do Cunha, do Aécio, do FHC etc etc.

http://www.brasil247.com/pt/247/midiatech/217691/Eliane-culpa-PT-pelo-esc%C3%A2ndalo-Mirian-FHC.htm

Piketty: Sanders desafia a Era da Desigualdade (por Thomas Piketty/via Outras Palavras)

Por Celso Vicenzi.

Sim, por que não? Que história é essa que não é possível fazer nada contra os donos do capital? São poderosos com pés de barro. Uma ideia, no momento certo, como já provou a história, pode derrotar muitos impérios. E é chegada a hora de perguntar: por que não mudar um sistema que privilegia 1% com a renda da metade mais pobre de toda a humanidade. Nenhuma opressão se sustenta por muito tempo sem a aceitação do oprimido. É hora de reagir contra injustiças brutais que ameaçam o próprio futuro da espécie humana no planeta.

http://outraspalavras.net/capa/piketty-sanders-desafia-a-era-da-desigualdade

Quanto custou o silêncio da história de FHC com Miriam Dutra? (Por Kiko Nogueira/via DCM)

Por Celso Vicenzi.

O único erro – como provam tantos casos – que um político não pode cometer é trair uma mulher. Sai muito caro!

Como diz o samba “Mulher traída” do Grupo Revelação:
“Muito mais perigosa que bala perdida – é mulher traída!
Ela joga granada e depois sai batida – é mulher traída!
Coloca o chumbinho preparando a comida – é mulher traída!
Adora dar banho de água fervida – é mulher traída!”

Sim, eu sei que os homens são infinitamente mais violentos e matam com muita facilidade. É só um pouco de humor, pra rir dos falsos moralistas, dos que pensam que são éticos só porque estão blindados pela mídia.

Miriam aguentou até os 84 do segundo tempo, mas o príncipe foi casar com a nova secretária… pois é…deu nisso!

Mas, à parte esse “folclore” dos afetos e de problemas conjugais e sexuais que não são novidade para boa parte da humanidade, o que importa, de fato, é a questão de, provavelmente, usar dinheiro público para calar as empresas de comunicação. Quanto não rolou de verba farta e fácil para guardar este e outros segredinhos?

Estaria o juiz Moro interessado no caso? Ou o Ministério Público? A Polícia Federal? Duvido! Para eles, só existem corruptos e corrupção no Brasil a partir do governo Lula, mesmo tendo sido FHC quem promoveu a maior venda de patrimônio público a preço de banana. Com 10% da investigação que fazem à Dilma e Lula, o país ficaria estarrecido se fossem atrás de FHC e boa parte dos tucanos e da oposição hipócrita que se fingem de honestos.

Lembrando que contra Dilma e Lula, os mais investigados da história desse país, ainda não encontraram nada que pudesse ser caracterizado como crime. E olha que eles forçam a barra nas suspeitas…

http://www.diariodocentrodomundo.com.br/quanto-custou-o-silencio-da-historia-de-fhc-com-mirian-dutra-por-kiko-nogueira/

Mirian: FHC usou empresa para me bancar no exterior (via Paulo Henrique Amorim/Conversa Afiada)

Por Celso Vicenzi

A coisa é mais cabeluda. A questão não é só afetiva e moral, porque sobre isso ninguém tem nada que se meter – embora diga muito sobre o caráter de FHC. Mas usar empresa para bancar contas do filho e da amante no exterior, enquanto era presidente, precisa ser investigado. Aliás, o que não precisa ser investigado na vida de um ex-presidente que vendeu boa parte das empresas púbicas a preço de banana? Se nossos doutos juízes, procuradores e integrantes da PF aprofundassem as denúncias do livro “A Privataria Tucana” (se o que está ali é mentira, por que não processaram?), é provável que alguns tucanos teriam que passar o resto de suas vidas na prisão.

Na entrevista à Folha, Miriam Dutra ampliou o estoque de denúncias contra FHC.

OK, um grande jornal resolveu sair do silêncio (até porque esconder, a essa altura, pegaria muito mal), mas duvido que os tradicionais colunistas que caem de pau em Lula e Dilma façam o mesmo com FHC. A conferir os desdobramentos.

http://www.conversaafiada.com.br/brasil/mirian-fhc-usou-empresa-para-me-bancar-no-exterior

Pesquisa aponta que 49% dos homens acham que bloco de Carnaval não é lugar para mulher ‘direita’ (Via Agência Brasil e Brasil de Fato)

http://www.brasildefato.com.br/node/34098

Pesquisa feita pelo Instituto Data Popular, como contribuição à campanha Carnaval Sem Assédio, do site Catraca Livre, mostra que a maior parte da visão masculina ainda é machista em relação à participação de mulheres nos festejos de rua.

A pesquisa foi feita entre os dias 4 e 12 de janeiro, com 3,5 mil brasileiros com idade igual ou superior a 16 anos, em 146 municípios.

“O que existe por parte dos homens é uma naturalização do machismo”, disse hoje (6) à Agência Brasil o presidente do Instituto Data Popular, Renato Meirelles. De acordo com a sondagem, 61% dos homens abordados afirmaram que uma mulher solteira que vai pular carnaval não pode reclamar de ser cantada; 49% disseram que bloco de carnaval não é lugar para mulher “direita”; e 56% consideram que mulheres que usam aplicativos de relacionamento não querem nada sério.

Segundo Meirelles, o homem ainda tem uma visão de que a mulher é propriedade dele e que ela é feliz dessa forma, “como se a mulher tivesse que ser grata pela grosseria dele”. A pesquisa confirma a percepção distorcida do sexo masculino que a mulher, ao participar de bloco de rua, quer ser assediada. “Isso tem a ver com o processo histórico-cultural no Brasil”, disse.

Renato Meirelles lembrou que qualquer tipo de abordagem sem o consentimento da mulher é assédio. E o assédio, além de ser moralmente errado, dependendo do tipo é crime, e moralmente não funciona, lembrou.

A sondagem revela também que na percepção de 70% dos homens, as mulheres se sentem felizes quando ouvem um assobio, 59% acham que as mulheres ficam felizes quando ouvem uma cantada na rua e 49% acreditam que as mulheres gostam quando são chamadas de gostosa.

O lado feminino do assédio será objeto de outra pesquisa que o Instituto Data Popular divulgará mais adiante.

Chomsky: ‘Este é o momento mais crítico na história da humanidade’ (Por Agustín Gabard e Raúl Zibechi/via La Jornada e Carta Maior)

http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Internacional/Chomsky-Este-e-o-momento-mais-critico-na-historia-da-humanidade-/6/35471

Agustín Fernández Gabard e Raúl Zibechi – La Jornada – 10/2/2016

“Os Estados Unidos sempre foram uma sociedade colonizadora. Inclusive antes de se constituírem como Estado já trabalhavam para eliminar a população indígena, o que significou a destruição de muitas nações originárias”, como bem lembra o linguista e ativista estadunidense Noam Chomsky, quando se pede que descreva a situação política mundial. Crítico feroz da política externa de seu país, ele recorda 1898, quando ela apontou seus dardos ao cenário internacional, com o controle de Cuba, “transformada essencialmente numa colônia”, e logo nas Filipinas, “onde assassinaram centenas de milhares de pessoas”.

Chomsky continua seu relato fazendo uma pequena contra-história do império: “roubou o Havaí da sua população originária 50 anos antes de incorporá-lo como um dos seus estados”. Imediatamente depois da II Guerra Mundial, os Estados Unidos se tornaram uma potência internacional, “com um poder sem precedente na história, um incomparável sistema de segurança, controlando o hemisfério ocidental e os dois grandes oceanos. E, naturalmente traçou planos para tentar organizar o mundo conforme a sua vontade”.

Contudo, ele aceita que o poder da superpotência diminuiu com respeito ao que tinha em 1950, o auge da sua hegemonia, quando acumulava 50% do produto interno bruto mundial, muito mais que os 25% que possui agora. Ainda assim, Chomsky lembra que “os Estados Unidos continua sendo o país mais rico e poderoso do mundo, e incomparável a nível militar”.

Um sistema de partido único

Em algum momento, Chomsky comparou as votações em seu país com a eleição de uma marca de pasta de dentes num supermercado. “Nosso país tem um só partido político, o partido da empresa e dos negócios, com duas facções, democratas e republicanos”, proclama. Mas ele acredita que já não é possível continuar falando dessas duas velhas coletividades políticas, já que suas tradições sofreram uma mutação completa durante o período neoliberal.

Chomsky considera que “os chamados democratas não são mais que republicanos modernos, enquanto a antiga organização republicana ficou fora do espectro, já que ambas as vertentes se moveram muito mais à direita durante o período neoliberal – algo que também aconteceu na Europa”. O resultado disso é que os novos democratas de Hillary Clinton adotaram o programa dos velhos republicanos, enquanto estes foram completamente dominados pelos neoconservadores. “Se você olha os espetáculos televisivos onde dizem debater política, verá como somente gritam entre eles e as poucas políticas que apresentam são aterrorizantes”.

Por exemplo, ele destaca que todos os candidatos republicanos negam que o aquecimento global ou são céticos – não o negam mas dizem que os governos não precisam fazer algo a respeito. “Entretanto, o aquecimento global é o pior problema que a espécie humana terá pela frente, e estamos nos dirigindo a um completo desastre”. Em sua opinião, as mudanças no clima têm efeitos comparáveis somente com os da guerra nuclear. Pior ainda, “os republicanos querem aumentar o uso de combustíveis fósseis. Esse não é um problema de centenas de anos, mas sim um criado pelas últimas duas gerações”.

A negação da realidade, que caracteriza os neoconservadores, responde a uma lógica similar à que impulsiona a construção de um muro na fronteira com o México. “Essas pessoas que tratamos de distanciar são as que fogem da destruição causada pelas políticas estadunidenses”.

“Em Boston, onde vivo, o governo de Obama deportou um guatemalteco que viveu aqui durante 25 anos, ele tinha uma família, uma empresa, era parte da comunidade. Havia escapado da Guatemala destruída durante a administração de Reagan. A resposta a isso é a ideia de construir um muro para nos prevenir. Na Europa acontece o mesmo. Quando vemos que milhões de pessoas fogem da Líbia e da Síria para a Europa, temos que nos perguntar o que aconteceu nos últimos 300 anos para chegar a isto”.

Invasões e mudanças climáticas se retroalimentam

Há apenas 15 anos, não existia o tipo de conflito que observamos hoje no Oriente Médio. “É consequência da invasão estadunidense ao Iraque, que é o pior crime do século. A invasão britânica-estadunidense teve consequências horríveis, destruíram o Iraque, que agora está classificado como o país mais infeliz do mundo, porque a invasão cobrou a vida de centenas de milhares de pessoas e gerou milhões de refugiados, que não foram acolhidos pelos Estados Unidos, e tiveram que ser recebidos pelos países vizinhos pobres, obrigados a recolher as ruínas do que nós destruímos. E o pior de tudo é que instigaram um conflito entre sunitas e xiitas que não existia antes”.

As palavras de Chomsky recordam a destruição da Iugoslávia durante os Anos 90, instigada pelo ocidente. Assim como Sarajevo, ele destaca que Bagdá era uma cidade integrada, onde os diversos grupos culturais compartilhavam os mesmos bairros e se casavam membros de diferentes grupos étnicos e religiosos. “A invasão e as atrocidades que vimos em seguida fomentaram a criação de uma monstruosidade chamada Estado Islâmico, que nasce com financiamento saudita, um dos nossos principais aliados no mundo”.

Um dos maiores crimes foi, em sua opinião, a destruição de grande parte do sistema agrícola sírio, que assegurava a alimentação do país, o que conduziu milhares de pessoas às cidades, “criando tensões e conflitos que explodiram após as primeiras faíscas da repressão”.

Uma das suas hipóteses mais interessantes consiste em comparar os efeitos das intervenções armadas do Pentágono com as consequências do aquecimento global.

Na guerra em Darfur (Sudão), por exemplo, convergiram os interesses das potências ocidentais e a desertificação que expulsa toda a população às zonas agrícolas, o que agrava e agudiza os conflitos. “Essas situações desembocam em crises espantosas, e algo parecido acontece na Síria, onde se registra a maior seca da história do país, que destruiu grande parte do sistema agrícola, gerando deslocamentos, exacerbando tensões e conflitos”, reflete.

Chomsky acredita que a humanidade ainda não pensa com mais atenção sobre o que significa essa negação do aquecimento global e os planos a longo prazo dos republicanos, que pretendem acelerá-lo: “se o nível do mar continuar subindo e se elevar muito mais rápido, poderá engolir países como Bangladesh, afetando a centenas de milhões de pessoas. Os glaciares do Himalaia se derretem rapidamente, pondo em risco o fornecimento de água para o sul da Ásia. O que vai acontecer com essas bilhões de pessoas? As consequências iminentes são horrendas, este é o momento mais importante da história da humanidade”.

Chomsky crê que estamos diante um ponto crucial da história, no qual os seres humanos devem decidir se querem viver ou morrer: “digo isso literalmente, não vamos morrer todos, mas sim se destruiriam as possibilidades de vida digna, e temos uma organização chamada Partido Republicano que quer acelerar o aquecimento global. E não exagero, isso é exatamente o que eles querem fazer”.

Logo, ele cita o Relógio do Apocalipse, para recordar que os especialistas sustentam que na Conferência de Paris sobre o aquecimento global foi impossível conseguir um tratado vinculante, somente acordos voluntários. “Por que? Simples: os republicanos não aceitariam. Eles bloquearam a possibilidade de um tratado vinculante que poderia ter feito algo para impedir essa tragédia massiva e iminente, uma tragédia como nenhuma outra na história da humanidade. É disso que estamos falando, não são coisas de importância menor”.

Guerra nuclear, possibilidade certa

Chomsky não é de se deixar impressionar por modas acadêmicas ou intelectuais. Seu raciocínio radical e sereno busca evitar o furor, e talvez por isso não joga palavras ao vento sobre a anunciada decadência do império. “Os Estados Unidos possuem 800 bases ao redor do mundo e investe em seu exército tanto quanto todo o resto do mundo junto. Ninguém tem algo assim, soldados lutando em todas as partes do mundo. A China tem uma política principalmente defensiva, não possui um grande programa nuclear, embora seja possível que cresça”.

O caso da Rússia é diferente. É a principal pedra no sapato da dominação do Pentágono, porque “tem um sistema militar enorme”. O problema é que tanto a Rússia quanto os Estados Unidos estão ampliando seus sistemas militares, “ambos estão atuando como se a guerra fosse possível, o que é uma loucura coletiva”. Chomsky acredita que a guerra nuclear é irracional e que só poderia suceder em caso de acidente ou erro humano. Contudo, ele concorda com William Perry, ex-secretário de Defesa dos Estados Unidos, que disse recentemente que a ameaça de uma guerra nuclear hoje é maior que durante a Guerra Fria. O intelectual estima que o risco se concentra na proliferação de incidentes que envolvem as forças armadas de potências nucleares.

“A guerra esteve a ponto de ser deflagrada inumeráveis vezes”, admite ele. Um de seus exemplos favoritos é o sucedido sob o governo de Ronald Reagan, quando o Pentágono decidiu provar as defesas russas através de uma simulação de ataques contra a União Soviética.

“Acontece que os russos levaram a sério. Em 1983 depois que os soviéticos automatizaram seus sistemas de defesa, foi possível detectar um ataque de mísseis estadunidense. Nesses casos, o protocolo é ir direto ao alto mando e lançar um contra-ataque. Havia uma pessoa que tinha que transmitir essa informação, Stanislav Petrov, mas decidiu que era um alarme falso. Graças a isso, podemos estar aqui falando”.

Chomsky defende que os sistemas de defesa dos Estados Unidos possuem sérias falhas, e há poucas semanas se conheceu um caso de 1979, quando se detectou um ataque massivo com mísseis que vinham da Rússia. Quando o conselheiro de Segurança Nacional, Zbigniew Brzezinski, estava levantando o telefone para chamar o presidente James Carter e lançar um ataque de represália, chegou a informação de que se tratava de um alarme falso. “Há cada ano são registradas dúzias de alarmes falsos”, assegura ele.

Neste momento, as provocações dos Estados Unidos são constantes. “A OTAN está realizando manobras militares a 200 metros da fronteira russa com a Estônia. Nós não toleraríamos algo assim se acontecesse no México”.

O caso mais recente foi a derrubada de um caça russo que estava bombardeando forças jihadistas na Síria, no final de novembro. “Há uma parte da Turquia quase rodeada pelo território sírio e o bombardeiro russo voou através dessa zona durante 17 segundos, até ser derrubado. Uma grande provocação que, por sorte, não foi respondida pela força”. Chomsky argumenta que fatos similares estão sucedendo quase diariamente no mar da China.

A impressão que ele tem, e que expressa em seus gestos e reflexões, é que se as potências agredidas pelos Estados Unidos atuassem com a mesma irresponsabilidade que Washington, o destino do planeta estaria perdido.

Visão sobre a Colômbia

O linguista estadunidense Noam Chomsky conhece de perto a realidade colombiana. Fiel ao seu estilo e suas ideias, ele visitou o país e sua diversidade, conheceu a Colômbia que existe longe dos focos acadêmicos e midiáticos, adentrou no Vale do Cauca, onde grupos indígenas constroem sua autonomia, com base em seus saberes ancestrais, atualizados em meio ao conflito armado.

“Parece haver sinais positivos nas negociações de paz”, reflete Chomsky. “A Colômbia tem uma terrível história de violência desde o século passado, a violência nos Anos 50 era monstruosa”, lembrou ele, reconhecendo que a pior parte foi obra de operações paramilitares. Mais recentes são as fumigações realizadas pelos Estados Unidos, verdadeiras operações de guerra química, que deslocaram populações enormes de camponeses, para beneficio das multinacionais.

Como consequência, a Colômbia se tornou o segundo país do mundo em número de migrantes dentro do próprio território, depois do Afeganistão. “Deveria ser um país rico, próspero, mas está se quebrando em pedaços”, agrega. Por isso, se as negociações tiverem sucesso, eliminarão alguns dos problemas, mas não todos. “A Colômbia, mesmo sem o problema da guerrilha, continuará sendo um dos piores países para os defensores dos direitos humanos, para líderes sindicais e outros”.

Um dos perigos que ele observa, no caso de que se assine o acordo definitivo de paz, seria a integração dos paramilitares ao governo, uma realidade latente no país. Ainda assim, ele sustenta que a redução do conflito com as FARC seria um grande passo para frente, por isso acredita que deve se fazer todo o possível para contribuir com o processo de paz.

Tradução: Victor Farinelli

Nem mulatas do Gois e nem no “interior” de Grazi Massafera (Por Djamila Ribeiro/via CartaCapital)

http://www.cartacapital.com.br/sociedade/nem-mulatas-do-gois-e-nem-no-201cinterior201d-de-grazi-massafera

Por Djamila Ribeiro10/02/2016

Estamos em 2016 e colunistas de grandes veículos de comunicação ainda se julgam no direito de tratar mulheres negras como coisas. Ancelmo Gois, do jornal O Globo, é conhecido como “apreciador de mulatas” e em sua coluna “As mulatas do Gois” segue objetificando seres humanos.

Em uma delas deu espaço para um homem escolher novas mulheres para seu show de horrores machista. Essa pessoa chegou a usar expressões como “nova safra de mulatas”, “mulatas sub 20”, “espécie”. E eu achando que mulheres negras pertenciam à espécie humana.

Mesmo não tendo sido Ancelmo quem escreveu diretamente, a coluna é dele e continuamente, carnaval após carnaval, ele vem se utilizando dessas práticas racistas como se mulheres negras só servissem para isso. Percebem a violência disso? Podemos apreciar vinhos, queijos e não um grupo de seres humanos como se fosse a mesma coisa. Ser humano pode ser tratado em safra?

No início do mês, juntamente com a ativista Stephanie Ribeiro, escrevi para um grande jornal um manifesto pelo fim de estereótipos como o da Globeleza. Nesse artigo criticamos o termo mulata e porque seu uso é ofensivo: “Para começar o debate em torno dessa personagem, precisamos identificar o problema contido no termo “mulata”. Além de ser palavra naturalizada pela sociedade brasileira, ela é presença cativa no vocabulário dos apresentadores, jornalistas e repórteres da emissora global.

A palavra de origem espanhola vem de “mula” ou “mulo”: aquilo que é híbrido, originário do cruzamento entre espécies. Mulas são animais nascidos do cruzamento dos jumentos com éguas ou dos cavalos com jumentas. Em outra acepção, são resultado da cópula do animal considerado nobre (equus caballus) com o animal tido de segunda classe (equus africanus asinus).

Sendo assim, trata-se de uma palavra pejorativa que indica mestiçagem, impureza. Mistura imprópria que não deveria existir. Empregado desde o período colonial, o termo era usado para designar negros de pele mais clara, frutos do estupro de escravas pelos senhores de engenho. Tal nomenclatura tem cunho machista e racista e foi transferido à personagem globeleza, naturalizado. A adjetivação “mulata” é uma memória triste dos 354 anos (1534 a 1888) de escravidão negra no Brasil.

Ou seja, esse termo sequer deveria ser usado. Raramente vemos mulheres negras sendo convidadas para escrever artigos, sendo apresentadoras, atrizes protagonistas, mas nessa época do ano querem nos confinar a esse tipo de lugar.

É inadmissível que em pleno século XXI, Ancelmo Gois sinta-se no direito de nos retratar de modo tão subumano. Qual o espaço que o colunista abre para discussão sobre racismo na sociedade?

A crítica não é de forma algumas às mulheres que foram “mulatas do Gois”, como penalizá-las numa sociedade que não dá oportunidades para mulheres negras? Temos que pautar a necessidade da criação de outras possibilidades. E se a moça negra quiser ser a colunista do jornal? Há espaço para ela?

Sempre bom frisar que não tenho problema algum com a sensualidade, com a posição de passista, muito pelo contrário. O problema é sempre nos confinar nesses lugares, tratar essas moças como se fossem pedaços de carnes prontos a serem devorados.

Para coroar a falta de noção, nos últimos dias a ex-BBB Grazi Massafera foi eleita uma das mulatas do tal colunista e disse: “Eu tenho uma mulata dentro de mim, não tem como não ter. Eu acho que dentro de quase toda brasileira tem. Em algumas, ela é um pouco mais inibida. A minha é mais assanhada”.

É o cúmulo da falta de respeito. Primeiro pelo termo que já explicamos, segundo por colocar mulheres negras como se fossem a mesma coisa, uma categoria homogênea, logo, objetos. Qual mulher negra vive dentro dela? Taís Araújo ou Viola Davis? Percebem, como mulheres negras somos seres diversos, distintos, com personalidades diferentes e não coisas.

Segundo, porque Grazi é loira e está sempre fazendo novelas e séries. Fácil ser negra por dentro, não é mesmo? Porque se fosse por fora ou seria somente “mulata do Gois” uma vez por ano ou faria papéis estereotipados. Chega a ser ridícula essa mania que pessoas brancas têm de querer mostrar que não são racistas. Em vez de realmente se posicionarem contra o racismo, jogam palavras ao vento que nada mudam.

Grazi não deixou de estrelar campanhas publicitárias e de ganhar papéis de destaque mesmo “tendo uma mulata por dentro”. Fora isso, dizer que existe uma mulata dentro de si, dentro do contexto em que vivemos, significar dizer que todas sabemos sambar e fazemos as mesmas coisas. Somos predestinadas a um caminho somente. Sou absolutamente contra a objetificação de mulheres, mulheres brancas também são, mas não como as negras.

O que significaria eu dizer que existe uma loira dentro de mim? Nada. Ninguém presume que uma mulher loira é uma coisa só. Poderiam pensar que falo de uma atriz, modelo ou engenheira nuclear. Não há o mesmo estigma. O fato de mulheres loiras serem também objetificadas não exclui o fato de também serem atrizes protagonistas, estamparem capas de revistas e grandes campanhas publicitárias, apresentarem programas.

A elas, há várias possibilidades, até de ser “mulata do Gois” por um dia e estrelar uma novela durante o ano. Logo, não se pode essencializar um grupo todo de pessoas, como mulheres negras, como se fossem todas iguais, uma safra de tomates.

O Brasil é o país da piada pronta sem graça mesmo, principalmente no quesito racismo. Naturalizam as violências que sofremos, nos negam oportunidades e tentam nos penalizar por mostrarmos essas situações.

Essas pessoas têm acesso a informações e deveriam ler os vários estudos acadêmicos, pesquisas, artigos sobre a questão para evitar passar vergonha.

Falta interesse ao branco médio no Brasil de se aprofundar nesses assuntos que deveriam ser obrigatórios para que alcancemos um marco civilizatório. Mas preferem nos tratar como coisas, inferiores, objetos. Ao dizer que uma mulata vive dentro dela, Grazi está negando nossa humanidade.

Mulher negra não faz parte de safra e nem é uma “espécie” para deleite de homem machista e racista. Somos pessoas e exigimos respeito.