O retrato de Vera (por Carlos Moura/via FB)

Por Carlos Moura – 20/12/2016 – via Facebook.

Tava pensando:

…em dividir com vocês não o que me intranquiliza a alma, mas o que vai na alma de Vera, nesse conto que escrevi faz um tempinho. Tens um instantinho aí? Acho que as mulheres vão se ver por aqui. Olha só:

O retrato de Vera

É preciso olhar bem dentro do retrato de Vera. Lá no fundo dele há de se ver Vera sem retoques, sem edições. Porque Vera sempre vai estar além, lá adiante, distante do retrato. Vera está vazia e sem tempo. Esqueceu, sob a avalancha de obrigações e necessidades, de horários e tarefas, de que tinha um coração e um corpo. Vera é para Vera um retrato na parede. E o distanciamento e a estranheza, separa Vera dela mesma. Vera dorme pensando em amanhã e todas as coisas a serem feitas. Esquece o seu aniversário, a hora marcada no cabeleireiro há mais de mês, do dentista, das roupas para ajustar. Roupas que deviam acentuar a beleza de Vera, essa beleza que só pode ser vista no retrato na parede.

Vera esqueceu do orgasmo, do seu rosto e do lápis para os olhos belos, do batom e de soltar os cabelos. Vera anda muito ocupada abrindo todas as correspondências e contas. Vera esqueceu de olhar para o moço que está sentado ao seu lado no ônibus. E que a olha de soslaio, sem querer dar a perceber que não consegue tirar os olhos de Vera. E ainda que ela notasse, provavelmente desconsideraria a possibilidade de que isso fosse mesmo com ela. Vera deve tanto à Vera que precisa estar atenta às formas de como pagar as dívidas que tem com ela mesma.

Vera esquece o café, o cheiro do café e o sabor do pão com manteiga. Porque Vera tem muita pressa, está sempre atrasada e nem tem tempo de prestar atenção se a calça combina com a blusa. Depois, pouco interessa. Quem vai olhar para Vera? pensa, enquanto faz contas e se desespera. Vera está só. Sente toda a solidão de ser Vera e ter tantas coisas a fazer que nem tem mais tempo para Vera. Nem para os olhares brilhantes e gulosos do moço que senta a seu lado no ônibus quase todos os dias pela manhã. Vera precisa chegar e então só olha para frente, freia e acelera com o motorista do ônibus e promete, sem muita convicção, que deste sábado não passa: vai comprar o tecido para fazer as cortinas que quer há tanto tempo.

Vera vê o sábado se aproximando com velocidade e na sexta está tão cansada e preocupada com o que tem de fazer na segunda que a sexta só deixa a sensação de necessidade de amor, paixão e prazer. E Vera olha o beijo da novela e deseja ser beijada assim também. O sábado vem e Vera não acorda, não compra o tecido, não costura as cortinas, não faz almoço, não lê o livro que está a lado da cama. Não pinta os cabelos, não faz as unhas, não liga e nem atende o telefone. Vera esquece de Vera pela milésima vez. Porque ninguém presta atenção em Vera… Nem Vera.

O moço senta no banco do ônibus ao lado de Vera. Mas está triste e o olhar não brilha mais. Não, Vera não vê o moço e o moço começa a pensar que seria melhor ter apenas um retrato de Vera. E que talvez, olhando para o retrato, bem dentro dele, possa ver Vera de verdade, ao menos uma vez.

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