O pedestre está desaparecendo (por Joaquim Ferreira dos Santos/via #Colabora)

Joaquim Ferreira dos Santos

Por Joaquim Ferreira dos Santos – 30/10/2017 – via #Colabora.

Conectados com a irrelevância, passantes abrem mão do prazer de refletir enquanto os pés se movem.

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https://projetocolabora.com.br/cidades/o-pedestre-brasileiro-esta-desaparecendo/?utm_source=Colabora&utm_campaign=e3ff7f34b0-EMAIL_CAMPAIGN_2017_10_30&utm_medium=email&utm_term=0_7b4d6ea50c-e3ff7f34b0-417482585

 

Saudável é comer o que te faz feliz (por Maria Bitarello/via Outras Palavras)

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Imagem: Hieronymus Bosch, O Jardim das Delícias Terrenas, 1490-1510 (detalhe).

Por Maria Bitarello – 19/9/2017 – via Outras Palavras.

Desvie dos cálculos de nutrientes, do proselitismo alimentar. Dê à alma e ao corpo o que eles pedem. Confie no que te alegra – e mais na intuição que no intelecto.

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http://outraspalavras.net/destaques/saudavel-e-comer-o-que-te-faz-feliz

Manual prático de bons modos em livrarias (por Raul Arruda Filho/via blog raulealiteratura)

Por Raul Arruda Filho 8/9/2014 – via blog raulealiteratura.

Trabalhar em livraria parece ser sinônimo de paz e tranquilidade. Não o é. Essa é a opinião da livreira Lilian Dorea, que, no mundo virtual, adota o pseudônimo Hillé Puonto. Algumas das dificuldades que acompanham o comércio de livros foram relacionadas (e discutidas) no Manual Prático de Bons Modos em Livraria, texto que deveria ser leitura obrigatória para qualquer um que trabalhe com leitura, ensino literário e editoração. Além, é claro, daqueles que labutam do outro lado do balcão tentando vender qualquer tipo de publicação (livros, revistas, jornais).

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http://raulealiteratura.blogspot.com.br/2014/09/manual-pratico-de-bons-modos-em.html

Tô em bloco de sujo, mas tô limpo!

Por Celso Vicenzi – 21/2/2017.

 

Olha o Carnaval aí, gente! Dizem que o ano só começa, no Brasil, depois do Carnaval. Verdade ou não, o que se sabe é que com tantos escândalos em território nacional, há mais blocos de sujos do que se imagina.

Embora o país tenha se transformado numa imensa passarela de corruptos desfilando em tapetes vermelhos, de Norte a Sul, de Leste a Oeste e, principalmente, no Planalto Central, o povo por esses dias só quer saber de outro tipo de folia. Dos desfiles de escolas de samba e, principalmente, dos blocos de sujo, porque bom mesmo é brincar de graça, nas ruas e nas praças, com os amigos do bairro, do local de trabalho ou por livre e espontânea vontade ao primeiro bloco que estiver passando.

E se tem uma coisa que faz o Brasil parar, mais do que muitos governos corruptos e ilegítimos, é o Carnaval, com muito samba, suor e cerveja.

Alguns desses grupos começam com poucos amigos e amigas e, com o tempo, vão reunindo cada vez mais adeptos. O segredo é boa música, criatividade, alegria e, claro, um bom nome para o bloco.

E o que não faltam, por todo o Brasil, são nomes engraçados, bizarros, maliciosos e até – por que não? – recatados e familiares (não tanto como a primeira-dama!).

Alguns já viraram grifes famosas, como os baianos Filhos de Gandhy, Ilê Aiyê e o carioca Cordão da Bola Preta, entre outros. Mas o que diverte mesmo são os nomes e a irreverência dos blocos mais improvisados.

A maioria usa frases de duplo sentido, com segundas e terceiras intenções,  brincando com a sexualidade.

Outros fazem trocadilho com os lugares onde foram criados, como Eu Choro Curto mas Rio Comprido, Vai Tomar no Grajaú, Balança meu Catete, Largo do Machado mas não Largo do Copo.

Há aqueles com nomes que não enrubescem os mais tímidos, como o Simpatia é Quase Amor, Vizinha Fofoqueira, Pipoca no Mel, Acorda e Vem Brincar, Concentra mas não Sai, News Kid on the Bloco, Meu Bem eu Volto Já, Inimigos da Segunda, Deixa a Língua no Varal.

Tem a turma dos amigos e amigas de uma determinada profissão, como o Imprensa que eu Gamo, Te Vejo Por Dentro Sou da Radiologia, Inova que eu Gosto (da Finep) e o Quero Exibir meu Longa, que começou com uma turma de cineastas.

Às vezes, por trás (ôps!) de um nome que carrega muita malícia, a história se revela bem singela. O bloco Senta Que Eu Empurro, por exemplo, é formado por amigos cadeirantes e deficientes visuais.

Tem muito bloco fazendo troça com bebida. Exemplos: Quem não Guenta Bebe Água, Nunca Mais Eu Bebo Ontem, Melhor ser Bêbado do que ser Corno, Largo da Mulher mas não Largo da Cerveja, Bloco do Isopor, Boteco sem Lei, Parei de Beber para não Mentir.

Em Florianópolis tem o Berbigão do Boca, Sou Mais Eu, Vento Encanado, Baiacu de Alguém e o Pauta Que Pariu, dos jornalistas e amigos do pessoal da imprensa.

Alguns dos mais engraçados, Brasil afora (e adentro): o baiano Siri com Tódi, o paulista Arrianu Suassunga, o piauiense Se Fui Pobre Não me Lembro, os pernambucanos Eu tô Liso mas tô na Mídia, e Antes Aqui que na UTI, o mineiro Trema na Linguiça, e os cariocas iPad que eu Dou, Já Comi Pior Pagando, e Quem Vai Vai Quem Não Vai Não Cagueta.

E, finalmente, uma pequena lista dos mais sacanas: Põe na Quentinha, Só o Cume Interessa, Se não Quiser me Dar me Empresta, É Mole mas é Meu, Não Dou Meu Cuati (lá em Santarém/PA), É Pequeno mas vai Crescer, Já que tá Dentro Deixa, Vai Tomar no Cooler, Filhos de Glande, Hoje a Mangueira Entra, Enxota que eu Vou, Mostra o Fundo que eu Libero o Benefício.

Mas, em tempos de Lava Jato, Odebrecht e escândalos do Oiapoque ao Chuí, melhor é pular (fora) com o bloco carioca O Negócio Tá Feio e o teu Nome Tá no Meio.

Natal dos covardes

A data já passou, mas tem Natal todos os anos. Por isso, deixo registrado essa mensagem, para uma reflexão.

Foto: Marcello Casal Jr/ Agência Brasil

Cidade de Goiás (GO) – Encenação da via sacra de Jesus Cristo, durante a procissão do fogaréu na cidade de Goiás. Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil.

Natal dos covardes 
Por Marcelo Freixo.

O que diriam os pregadores da intolerância, os obreiros do justiçamento, os apóstolos do olho por olho dente por dente sobre um homem que manifestou seu amor por um ladrão condenado e lhe prometeu o paraíso? Brandiriam o velho sermonário: bandido bom é bandido morto?

Hoje, quase todos os brasileiros, inclusive os cônscios moralistas da violência que amarram adolescentes em postes para linchá-los, se reunirão com suas famílias para celebrar mais uma vez o nascimento desse homem.

Sujeito, aliás, que respondeu à provocação: está com pena? Então, leva para casa! Pois, é. Jesus Cristo prometeu levar o ladrão para casa. “Em verdade te digo que hoje estarás comigo no Paraíso”, diz o evangelho de Lucas.

Jesus optou pelos oprimidos e renegados, pelos miseráveis, leprosos, prostitutas, bandidos. Solidarizou-se com o refugo da sociedade em que viveu, contestou a ordem que os excluiu.

O Cristo bíblico foi um dos primeiros e mais inspiradores defensores dos direitos humanos e morreu por isso. Foi perseguido, supliciado e executado pelo Império Romano para servir de exemplo.

Assim como servem de exemplo os jovens que são espancados e crucificados em postes, na ilusão de que a violência se resolve com violência. Conhecemos a mensagem cristã, mas preferimos a prática romana. Somos os algozes.

Questiono-me sobre o que seria dele em nossa Jerusalém de justiceiros. Não sei se sobreviveria. É perigoso defender a tolerância, o amor ao próximo e o perdão quando o ódio é tão banal. Como escreveu Guimarães Rosa: “quando vier, que venha armado”.

Não é difícil imaginar por onde ele andaria. Sem dúvida, não estaria com os fariseus que conclamam a violência e fazem negócios, inclusive políticos, em seu nome.

Caminharia pelos presídios, centros de amnésia da nossa desumanidade, onde entulhamos aqueles que descartamos e queremos esquecer, os leprosos do século 21. Impediria que homossexuais fossem apedrejados, mulheres violentadas e jovens negros linchados em praça pública. Estaria com os favelados, sertanejos, sem tetos e sem terras.

Por ironia, no próximo Natal, aqueles que defendem a redução da maioridade penal, pregam o endurecimento do sistema prisional, sonham com a pena de morte e fingem não ver os crimes praticados pelo Estado contra os pobres receberão um condenado em suas casas.

Diante da mesa farta, espero que as ideias e a história desse homem sirvam, pelo menos, como uma provocação à reflexão. Paulo Freire dizia que amar é um ato de coragem. Deixemos então o ódio para os covardes.

Feliz Natal!

O retrato de Vera (por Carlos Moura/via FB)

Por Carlos Moura – 20/12/2016 – via Facebook.

Tava pensando:

…em dividir com vocês não o que me intranquiliza a alma, mas o que vai na alma de Vera, nesse conto que escrevi faz um tempinho. Tens um instantinho aí? Acho que as mulheres vão se ver por aqui. Olha só:

O retrato de Vera

É preciso olhar bem dentro do retrato de Vera. Lá no fundo dele há de se ver Vera sem retoques, sem edições. Porque Vera sempre vai estar além, lá adiante, distante do retrato. Vera está vazia e sem tempo. Esqueceu, sob a avalancha de obrigações e necessidades, de horários e tarefas, de que tinha um coração e um corpo. Vera é para Vera um retrato na parede. E o distanciamento e a estranheza, separa Vera dela mesma. Vera dorme pensando em amanhã e todas as coisas a serem feitas. Esquece o seu aniversário, a hora marcada no cabeleireiro há mais de mês, do dentista, das roupas para ajustar. Roupas que deviam acentuar a beleza de Vera, essa beleza que só pode ser vista no retrato na parede.

Vera esqueceu do orgasmo, do seu rosto e do lápis para os olhos belos, do batom e de soltar os cabelos. Vera anda muito ocupada abrindo todas as correspondências e contas. Vera esqueceu de olhar para o moço que está sentado ao seu lado no ônibus. E que a olha de soslaio, sem querer dar a perceber que não consegue tirar os olhos de Vera. E ainda que ela notasse, provavelmente desconsideraria a possibilidade de que isso fosse mesmo com ela. Vera deve tanto à Vera que precisa estar atenta às formas de como pagar as dívidas que tem com ela mesma.

Vera esquece o café, o cheiro do café e o sabor do pão com manteiga. Porque Vera tem muita pressa, está sempre atrasada e nem tem tempo de prestar atenção se a calça combina com a blusa. Depois, pouco interessa. Quem vai olhar para Vera? pensa, enquanto faz contas e se desespera. Vera está só. Sente toda a solidão de ser Vera e ter tantas coisas a fazer que nem tem mais tempo para Vera. Nem para os olhares brilhantes e gulosos do moço que senta a seu lado no ônibus quase todos os dias pela manhã. Vera precisa chegar e então só olha para frente, freia e acelera com o motorista do ônibus e promete, sem muita convicção, que deste sábado não passa: vai comprar o tecido para fazer as cortinas que quer há tanto tempo.

Vera vê o sábado se aproximando com velocidade e na sexta está tão cansada e preocupada com o que tem de fazer na segunda que a sexta só deixa a sensação de necessidade de amor, paixão e prazer. E Vera olha o beijo da novela e deseja ser beijada assim também. O sábado vem e Vera não acorda, não compra o tecido, não costura as cortinas, não faz almoço, não lê o livro que está a lado da cama. Não pinta os cabelos, não faz as unhas, não liga e nem atende o telefone. Vera esquece de Vera pela milésima vez. Porque ninguém presta atenção em Vera… Nem Vera.

O moço senta no banco do ônibus ao lado de Vera. Mas está triste e o olhar não brilha mais. Não, Vera não vê o moço e o moço começa a pensar que seria melhor ter apenas um retrato de Vera. E que talvez, olhando para o retrato, bem dentro dele, possa ver Vera de verdade, ao menos uma vez.

Zero à esquerda

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Muito fácil encontrar cartazes, folhetos e até notícias com um zero antes das datas. (imagem capturada na internet).

Por Celso Vicenzi – 9/12/2016.

Fui um péssimo aluno de Matemática. Isso para não contar que as disciplinas de Física, Química e Geometria também atormentaram meus dias de colégio. Mas do pouco que gravei dos números e equações que me foram apresentados, nunca esqueci que zero à esquerda não tem nenhum valor. Vale até para xingamento: “Você é um zero à esquerda!” Ou seja, não acrescenta nada.

O mundo, portanto, sempre viveu muito bem sem um zero à esquerda. Pelo menos até décadas recentes, quando não se sabe de onde nem por quem – dizem as más línguas que surgiu entre publicitários, mas não há prova – eis que o zero à esquerda ganha um status nunca antes imaginado em cartazes, banners, flyers e outras peças gráficas. É parente não muito distante da disseminadíssima hora digital que também não existe (ex.: 20:00 com ou sem h), mas isso são outros quinhentos! Que, aliás, têm dois zeros, mas todos à direita.

Não satisfeito em marcar presença em outdoors, folhetos, cartilhas e outros materiais gráficos, o zero à frente de datas tem sido utilizado com frequência em releases, notícias, artigos e outros textos jornalísticos. Portanto, quando você imagina que nada poderia ser pior, vários jornalistas – redondamente enganados – fazem questão de demonstrar o contrário.

Assim, sem mais nem menos, multiplicam-se, todos os dias, em publicações impressas ou digitais, exemplos de datas com zero à esquerda. Por exemplo: em 05 de janeiro – ou outro mês – algo foi ou será realizado em algum lugar.

Ora, o que um zero faz à frente de uma data, sem nenhuma utilidade? Existirá, por acaso, sem que eu saiba ou tenha sido comunicado, o dia zero cinco de janeiro? Ou de agosto? Não importa o mês. Eu só conheço o dia 5 de janeiro, o dia 8 de novembro, o dia 7 de setembro (tá bom, esse todos conhecem!) e assim sucessivamente.

Quem pousou, afinal, todos esses zeros antes das datas? Algum extraterrestre? E, pior, sem que causasse, pelo visto, nenhum estranhamento entre humanos leitores e leitoras, posto que continuam a ser largamente empregados na publicidade, no jornalismo, nas redes sociais e em outros lugares não sabidos por tanta gente que se considera sábia.

Sabemos que surgiu, primeiramente – ou supostamente –, em balanços contábeis, onde, se não fazia muita diferença à totalidade das somas, ajudava a ordenar as colunas de números. Graficamente, um abaixo do outro, números de uma e duas dezenas “equilibravam-se” melhor quando acrescentava-se um zero à esquerda dos números de um a nove. Mais tarde vieram os computadores, também “viciados” em zeros à esquerda. Não raro, você não conseguia preencher uma data com menos de dois dígitos, em determinados campos, se não colocasse, antes, um zero. O programa exigia.

Como teriam saltado – de paraquedas? – para as peças gráficas e textos jornalísticos é um mistério a ser desvendado. Pode valer um prêmio de reportagem!

O certo é que não dá mais para continuar a pôr venda nos olhos e fazer de conta que ninguém vê.

– Zero à esquerda, saia já daí, com as mãos para o alto! E pare este assalto.

Pelo menos, ao bom senso.