Assim nasce o conservador – Um poema brechtiano de Mauro Iasi (via blog da Boitempo)

Mauro Iasi, colunista

Por Mauro Iasi – 13/8/2015 – via blog da Boitempo.

“Nada mais parecido com um fascista que um pequeno burguês assustado”
– Brecht

Assim nasce o conservador

De todos os invernos
De todas as noites sangrentas
De todos os infernos
De todos os céus desterrados de perdão.

De toda obediência burra
Ao oficial, burocrata,
À coroa, ao cetro,
Ao papa, ao cura.

De todo medo
“Agora não, ainda é cedo”,
de todo gesto invertido para dentro,
de toda palavra que morre na boca.

Do obscurantismo, de todo preconceito,
de tudo que te cega, de tudo que te cala,
de tudo que lhe tolhe, de tudo que recolhes,
de tudo que abdicas, de tudo que te falta.

Um beijo o assusta,
um abraço o enfurece,
a dúvida o enlouquece,
a razão se esvanece no vácuo.

Germina, assim, uma impotência tão grande,
que deforma as feições e torna tenso o corpo,
o dedo em riste, a veia que salta no pescoço,
a boca transformada em latrina.

Assim nasce o conservador.
Ele teme tudo que é novo e se move.
É um ser frágil, arrogante, assustado…
e violento.

Por Mauro Luis Iasi.

Mauro Iasi é professor adjunto da Escola de Serviço Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (Núcleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comitê Central do PCB. É autor do livro O dilema de Hamlet: o ser e o não ser da consciência (Boitempo, 2002) e colabora com os livros Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil e György Lukács e a emancipação humana (Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às quartas.

Viver não é tudo

Do amigo e poeta Alcides Buss, para começar bem o ano.
 
VIVER NÃO É TUDO
 
Você me diz:
feliz ano novo.
Eu lhe digo:
não deixe morrer
o ano que terminou.
 
Não deixe perder-se
no vazio inexorável
a fonte do amor.
 
Não deixe que se vá
o sentido de existir:
cumprir à risca
o que exige a vida.
 
Você me diz:
tampouco, você, não descuide
dos azares da sorte.
Viver é romper fronteiras
entre a morte e a vida;
entre o que é
e o que não é.
 
Eu lhe digo:
sejamos pois o que somos
– há um pouco de cada um em todos.
 
Arremessemos ao futuro
esse poder de sonhar,
de sorrir, de chorar, de gritar
e este poder imenso
de cantar.
 
Acolha-nos o tempo
como quem, à maneira da Terra,
faz germinar
o que seremos.

Alcides Buss homenageia as vítimas da tragédia do voo com a Chapecoense

Avião Chapecoense

Às vezes, falta-nos palavras para expressar o que parece não fazer sentido. Nessas horas precisamos dos escritores, dos poetas, para cobrir de beleza o mistério do que não se explica. Alcides Buss, também tocado pela tragédia do voo com a delegação da Chapecoense, escreveu este belo poema.

OS MÁRTIRES DE CADA UM
Alcides Buss.

De vocês não quero o último suspiro
o susto que o antecede
o devaneio após o lanche servido a bordo
que aos poucos se desvanece num cochilo
a conversa casual com o colega ao lado
a acomodação no assento
a entrada em fila na aeronave
a espera pela chamada na sala de embarque
o caminho do aeroporto
a saída do hotel – ou de casa
a olhadinha no espelho
a ida rápida ao banheiro
a checagem dos documentos e objetos de mão
a arrumação da mala – ou mochila
o descanso na cama confortável

De vocês apenas quero
a última coisa que passou pela mente
a última das últimas
pra com ela tecer o sudário
que faça lembrar a vida depois de tudo
na escuridão sem movimento e sem ruído
do apagão final

Sei. O que quero está longe demais
para as mãos que buscam o mistério extremo
a música das alturas
a poesia nos braços de Deus

Nenhum consolo desfaz o destino

Gullar, por Alcides Buss

Ferreira Gullar
GULLAR
Alcides Buss.
 
Poeta não se aposenta.
 
Ao contrário do que pensam alguns,
poesia dá trabalho.
 
Quando dorme, quando come
ou enquanto toma banho,
o poeta trabalha.
 
Se sai de férias
o poeta leva consigo
o poema que espera ser escrito.
 
Até quando trabalha pra pagar as contas,
no ofício que for, de médico
a engenheiro, de professor
a jornalista,
o poeta carrega palavras como se fossem pedras,
às vezes flores e, outras, pássaros.
 
O poeta não sossega.
O peso dos anos o deixa leve
e sempre cheio de planos.
 
Se avista ao longe um céu de brigadeiro,
amanhece por dentro.
 
De tão imenso
esquece de respirar.