Alcides Buss homenageia as vítimas da tragédia do voo com a Chapecoense

Avião Chapecoense

Às vezes, falta-nos palavras para expressar o que parece não fazer sentido. Nessas horas precisamos dos escritores, dos poetas, para cobrir de beleza o mistério do que não se explica. Alcides Buss, também tocado pela tragédia do voo com a delegação da Chapecoense, escreveu este belo poema.

OS MÁRTIRES DE CADA UM
Alcides Buss.

De vocês não quero o último suspiro
o susto que o antecede
o devaneio após o lanche servido a bordo
que aos poucos se desvanece num cochilo
a conversa casual com o colega ao lado
a acomodação no assento
a entrada em fila na aeronave
a espera pela chamada na sala de embarque
o caminho do aeroporto
a saída do hotel – ou de casa
a olhadinha no espelho
a ida rápida ao banheiro
a checagem dos documentos e objetos de mão
a arrumação da mala – ou mochila
o descanso na cama confortável

De vocês apenas quero
a última coisa que passou pela mente
a última das últimas
pra com ela tecer o sudário
que faça lembrar a vida depois de tudo
na escuridão sem movimento e sem ruído
do apagão final

Sei. O que quero está longe demais
para as mãos que buscam o mistério extremo
a música das alturas
a poesia nos braços de Deus

Nenhum consolo desfaz o destino

Gullar, por Alcides Buss

Ferreira Gullar
GULLAR
Alcides Buss.
 
Poeta não se aposenta.
 
Ao contrário do que pensam alguns,
poesia dá trabalho.
 
Quando dorme, quando come
ou enquanto toma banho,
o poeta trabalha.
 
Se sai de férias
o poeta leva consigo
o poema que espera ser escrito.
 
Até quando trabalha pra pagar as contas,
no ofício que for, de médico
a engenheiro, de professor
a jornalista,
o poeta carrega palavras como se fossem pedras,
às vezes flores e, outras, pássaros.
 
O poeta não sossega.
O peso dos anos o deixa leve
e sempre cheio de planos.
 
Se avista ao longe um céu de brigadeiro,
amanhece por dentro.
 
De tão imenso
esquece de respirar.

Instruções para enfrentar o mau tempo! (por Paco Urondo)

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Foto: Agência Brasil.
Por Paco Urondo (poesia escrita em plena ditadura argentina – 1973-1976).

 
Em primeiro lugar, não se desespere.
E em caso de agitação não siga as regras que a repressão quiser impor.
Refugie-se em casa e feche as trancas quando todos os seus estiverem a salvo.
Compartilhe o mate e a conversa com os companheiros,
os beijos furtivos e as noites clandestinas com quem lhe assegure ternura.
Não deixe que a estupidez se imponha.
Defenda-se.
Contra a estética, ética.
Esteja sempre atento.
Não lhes bastará empobrecê-lo, e vão querer subjugá-lo na sua própria tristeza.
Ria ostensivamente.
Tire sarro: a direita é mal comida!
Será imprescindível jantar juntos, a cada dia, até que a tormenta passe.
São coisas simples, mas nem por isso menos eficazes.
Diga para o compa: bom dia, por favor e obrigado.
E tomar no cu, para os de cima.
Atire tudo o que puderes, mas nunca sozinho.
Eles sabem como emboscá-lo na solidão desprevenida de uma tarde.
Lembre-se que os artistas serão sempre nossos.
E o desprezo será eterno para o bando de impostores que os acompanham.
Tudo vai ficar bem se você me ouvir.
Sobreviveremos novamente, estamos prontos.
Cuidemos dos jovens, que “eles” vão querer podá-los.
Só é preciso preparar-se bem e não amesquinhar amabilidades.
Devemos ter sempre à mão os poemas indispensáveis, o vinho tinto e o violão.
Sorrir aos nossos pais, como vacina contra a angústia diária.
Ser generosos com os amigos.
Não confundir os ingênuos com os traidores.
E, mesmo com estes, ter o perdão quando acabarem com suas ilusões.
Aqui ninguém sobrará.
E, para isto, ser perseverantes e tenazes,
escrever religiosamente todos os dias, todas as tardes, todas as noites.
Ainda que sustentados na teimosia se a fé desmoronar.
Nisso, não haverá trégua para ninguém.
A poesia dói para esses filhos da puta!
 
Paco Urondo (1930-1976). Escritor, jornalista, poeta, militante político e guerrilheiro Montonero. Foi assassinado em Mendoza, em 17 de junho de 1976. Teve três filhos, e a filha Claudia, foi também assassinada pela ditadura militar em 1976.

O estatuto do golpe e da resistência popular

temer-brasil

Charge: Blog do Brito (blogdobrito.com).

Por Celso Vicenzi, depois de Thiago de Mello – 31/8/2016.

Artigo I 
Fica decretado, depois do golpe,
que agora vale a mentira.
Que depois de Michel Temer,
o patife, vice passa a ser rima imediata de
canalhice e calhordice.

Artigo II 
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive
nas segundas-feiras mais cinzentas,
estaremos nas ruas e nas redes sociais
para combater o golpe, denunciando toda a cafajestice
e artimanhas de um governo ilegítimo,
de um judiciário cúmplice e partidário, de um parlamento
formado em grande parte por velhacos, financiados
por empresários dispostos a manter a nação entre as mais desiguais.

Artigo III
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá coragem e determinação
para abrir-se dentro da sombra
e projetar transparência e luz
nos porões da ditadura
midiático-jurídica-parlamentar-empresarial-policial,
para que todos vejam o covil de onde emergem
feias faces encobertas por máscaras ardilosas.

Artigo IV 
Fica decretado que homens e mulheres,
jovens e adultos, duvidem das palavras
que já saem corrompidas de bocas com hálito
pestilento, de ratos que roubaram
54 milhões de votos da primeira
mulher eleita presidenta da República.
E com machismo e cinismo,
a torturaram com infâmias e mentiras,
e a condenaram, pela segunda vez,
num tribunal de exceção.

Parágrafo único:
Ninguém permanecerá ingênuo diante
das palavras e imagens
nos grandes veículos de mídia,
(principalmente a Rede Globo).
Também não nos deixaremos enganar pelas
decisões escamoteadas de tribunais,
pela criação de leis despóticas,
nem iremos esmorecer diante da ação truculenta
da polícia contra movimentos sociais,
tampouco cairemos no engodo de
apelos a uma unidade que
os governantes nunca quiseram pôr à mesa
dos mais pobres e necessitados, mantendo-os
segregados, explorados, submissos, excluídos.

Artigo V 
Fica decretado que homens e mulheres
lutarão lado a lado para livrarem-se do jugo da mentira,
da manipulação da mídia,
da armadura de palavras sofisticadas que
os tribunais utilizam para manter
escravo um povo que nasceu para ser livre.
Sentaremos à mesa, mas não comeremos
o pão que o diabo amassou
enquanto seus discípulos tramavam o golpe.
Iremos, sim, saciar a fome de justiça
e beber cada gota de esperança,
para que nossos filhos e netos
possam ver, em breve nascer do Sol,
a aurora de uma nova democracia.
Cuidaremos dessa tenra planta para que
se transforme em altiva árvore e a protegeremos
do machado de golpes militares e dos parasitas
mortíferos de golpes parlamentares.

Artigo VI 
Fica estabelecido que a partir de agora,
os falsos profetas serão desmascarados
e que a religião não será mais álibi para o
estelionato diário contra um povo de boa-fé.

Artigo VII
Por decreto irrevogável, fica estabelecido que,
depois do golpe, a mancha da injustiça descerá
sobre o manto de magistrados
disfarçados em agentes da lei
e sob suas negras capas
um líquido fétido e putrefato escorrerá
pela nação, a céu aberto, para
que todos vejam e nunca mais se iludam
com discursos de imparcialidade.
Que fique gravado para todo o sempre, na memória
dos que presenciaram e daqueles que nos sucederão,
a omissão, a covardia e a ignomínia de seus atos, travestidos
em linguagem culta e pomposa tanto quanto enganosa.

Artigo VIII 
Fica decretado que as maiores dores
sempre foram e sempre serão
as da injustiça, do cinismo, da hipocrisia,
do preconceito, da discriminação, do machismo, do racismo,
do ódio, da crueldade e de toda a perversidade
que mantêm os privilégios de classe e
a estrutura social que oprime
seres humanos “que nascem livres e
iguais em dignidade e direitos” quase sempre sonegados.

Artigo IX
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha o sabor da cooperação e igualdade.
Mas, sobretudo, que seja repartido
fraternalmente e que tenha
sempre o quente sabor da ternura. 

Artigo X 
Fica permitido a qualquer pessoa,
qualquer hora da vida,

vestir-se à sua maneira,
sem que sofra discriminação,
ameaça, abuso sexual ou qualquer
outro tipo de violência.

Artigo XI
Fica decretado, depois do golpe, que
é preciso estar mais atento às
torpezas da alma humana, ao ódio que se
espalha nas redes sociais, com desejos de
exclusão, dor, tortura e morte. Há que
tentar compreender, para melhor combater
tanta desumanidade.

Artigo XII 
Decreta-se que haverá perseguição e censura,
que as manifestações serão reprimidas,
os movimentos sociais duramente atacados e
os direitos humanos estarão ainda mais ameaçados.

Parágrafo único: 
Só uma coisa será essencial,
para combater todo esse mal:
Não desistir da luta, jamais!

Artigo XIII 
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
as consciências e prostituir
a democracia. Fiquemos atentos ao grande baú
de onde emergem figuras macabras, do parlamento,
do judiciário, do executivo, do ministério público, da mídia,
das igrejas, das corporações policiais e empresariais, todos
acumpliciados para golpear as conquistas sociais
e vilipendiar os direitos dos trabalhadores, até rebaixar a
nação a vilanias e torpezas em tal grau
que será difícil dizer a que século regredimos
ou se é mesmo essa a cara da modernidade, nos
estertores de um capitalismo cada vez mais
irresponsável e mortal, que extingue milhões
de espécies e põe em risco a sobrevivência humana no planeta.

Artigo Final. 
Fica proibido o uso da palavra democracia
pelos usurpadores que a dilaceraram
por meio de um golpe. Essa palavra e tudo
o que ela representa de liberdade, igualdade e direitos,
será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a democracia será um projeto vivo e intenso
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração de quem nunca desiste
e luta para ver a justiça triunfar,
formando um novo homem e
uma nova mulher, para que juntos
plantem as sementes de uma
sociedade justa e solidária.

Santiago do Chile, abril de 1964.
Florianópolis, 31 de agosto de 2016.

Poesia: Reverso do tempo (por Pedro César Batista/via redes sociais)

Reverso do tempo
Pedro César Batista

Quem fuzilou Lorca
Atirando nele pelas costas?
Quem puxou o gatilho?

– Munição que segue matando.
– Ordens que seguem sendo dadas.

São os mesmos que assassinaram Che Guevara?
Os mesmos mandantes de milhões de massacres e mortes?
Que ainda guilotinou Babeaf, que insistia em falar de justiça?

Quem genocidiou os povos indígenas de todas as Américas?
Sequestrou homens e mulheres da África?
Quem comandou dezenas de massacres contra aqueles que ousaram combater por dignidade?

Ainda estão impunes?

Quem torce fatos e mente a cada novo amanhecer,
Com a desfaçatez de quem aperta gatilhos
Secularmente em nome da propriedade?

Quem rouba o sol,
Saqueia os frutos do suor
Que transformam a natureza?

São os mesmos que deixam a herança de morte,
Perpassam séculos espalhando deuses
Que propagam rancor, dores e culpas,
para saquear o trabalho?

Quem roubou a lua,
Que Lorca cantou em Granada?

São os que para roubar o petróleo,
Invadem países e matam milhões
Em nome de uma democracia
Que serve apenas a quem mente?

Quem levou a chuva,
Deixando somente a aridez nos olhares?
Quem acordará o fogo adormecido?

Quem libertará as labaredas
E incendiará a história?

Quem abrirá as veredas da verdade?
Quem?