A corrupção sem disfarces

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Por Celso Vicenzi – 21/6/2017.

A corrupção agora acontece na cara do freguês, mas como a freguesia é outra, os jornalistas acham tudo normal, os revoltados não batem mais panelas, a justiça fecha os olhos e os patos que foram às ruas abanar seus rabinhos indignados voltaram para seus quintais, onde pousam a bunda em confortáveis sofás, de onde assistem tudo com cara de paisagem.

A união que disfarça a opressão

Por Celso Vicenzi – 21/6/2017.

Na hora em que as coisas não dão certo para a elite, chovem editoriais na imprensa do tipo “é hora de todos nos unirmos para sair da crise”. Não dizem, claro, quem criou a crise e, muito menos, o que têm a oferecer aos que menos tem. Vamos nos unir quem? A classe média? Que só bate panela contra corrupção em governos que ajudam os pobres? Que não quer a ascensão dos mais pobres? Unir em torno do quê? O de disfarçadamente continuar a levar vantagem em tudo? O de negar que o Brasil oferece privilégios a uma minoria que deles não quer abrir mãos? O discurso negado mas praticado do “tudo pela minha família” e danem-se os outros? Tenho pouquíssimas esperanças com a conscientização da classe média. Melhor investir na troca de saberes com a classe mais pobre, para que não seja ludibriada pela mídia e por quem quer que seja para votar em candidatos conservadores da elite que nunca farão nada para tirá-la da miséria. Se unir aos conservadores ou à direita mais fascista nunca será solução para os mais pobres.

Os erros do PT e o golpe

Mídia e Judiciário não deram chances de defesa. Charge: Aroeira.

Por Celso Vicenzi – 20/6/2017.

Há um argumento frequente nas redes sociais e nas conversas por aí, que embora falho, tem conquistado muitos adeptos. Diz-se, em linhas gerais, que o PT sabia quem era Temer e conhecia bem o PMDB e que, por isso, deve admitir que também errou, ou seja, aceitou correr riscos com essa aliança e, por conseguinte, justifica-se o golpe. Erros não faltam ao PT e a tantos outros partidos que ascenderam ao poder em algum momento da história. Mas nenhum deles pode ser pretexto para se aceitar um golpe.

Para governar é preciso obter maioria no Congresso e para isso recorre-se a coalizões políticas, aqui e em outros países. Errar na escolha das coalizões, no programa de governo ou no exercício do cargo, repito, não justifica um golpe.

Quem faz um mau governo é derrotado na eleição seguinte. É assim numa democracia. O PT pagaria o preço de suas opções políticas e econômicas.

Outra coisa, no entanto, é sofrer um golpe que uniu, entre outros, boa parte do  empresariado, da mídia, do Congresso financiado por corruptores como a Odebrecht, JBS e tantos outros, que obteve a conivência de boa parte do Judiciário, da Polícia Federal e, muito provavelmente, com apoio logístico da nação que considera a América Latina estratégica para seus interesses geopolíticos. Inclua-se, ainda, a traição torpe como poucas vezes se viu, em qualquer país, de um vice-presidente e do maior partido que dava sustentação política ao governo. Contra tudo isso, havia pouco a se fazer (é verdade que nem esse pouco o PT fez, confiando no Judiciário e na Divina Providência).

A crítica ao PT é necessária e deve ser feita, mas não pode ser usada para justificar o golpe. Numa democracia, maus governos ou escolhas políticas devem ser questionadas numa próxima eleição. Golpe é golpe. E os erros do PT não podem justificar o que se fez no país, de maneira ilegítima e arbitrária (apesar da roupagem jurídico-legal com que travestiram o golpe).

Portanto, é preciso separar bem as duas coisas. Críticas ao PT (que se afastou dos movimentos sociais, que optou por uma política econômica equivocada, que não democratizou a comunicação etc), aos dirigentes que se corromperam etc etc, são todas muito bem-vindas e necessárias, porque ajudam a aprimorar a política, a democracia, a sociedade. Mas aceitar que erros políticos de um partido ou de um governante deem pretexto a um golpe – com tudo que já se sabe agora sobre as suas motivações -, desculpem-me, é violentar duplamente a vítima. É estuprar a democracia.

E cá entre nós, toda a corrupção dos golpistas que tomaram de assalto o Palácio do Planalto para tentar livrar a pele e barrar a Lava Jato (recordemos Jucá: “A solução é botar o Michel, num grande acordo nacional, com o Supremo, com tudo, aí parava tudo”), o ódio da classe média à ascensão dos mais pobres, os donos do PIB ávidos por destruir a Constituição e a proteção aos direitos sociais e dos trabalhadores para aumentar seus ganhos, os lucros com a privatização, o interesse de potências estrangeiras no pré-sal, nas riquezas nacionais –, tudo isso teve muito mais peso na motivação do golpe do que eventuais casos de corrupção do PT ou erros políticos e econômicos do governo da presidenta Dilma.

E mostrou-se ainda mais transparente depois que o golpe perdeu o rumo, a ponte para o futuro revelou-se uma frágil pinguela, defensores da ética mostraram-se igualmente corruptos, os golpistas desentenderam-se, a mídia e a justiça retiraram suas máscaras e heróis transmudaram-se em vilões da noite para o dia.

Promovem um golpe e querem que o povo não reaja?

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Quem hoje se ofende com as agressões verbais esquece como elas começaram. 
Foto: jornalggn.com.br

Por Celso Vicenzi – 16/6/2017.

Primeiro, Fora Temer! Segundo, criar um clima de achincalhes, seja de esquerda ou de direita não é desejável, mas não dá para rodar os acontecimentos da história para trás. Portanto, aqui se faz, aqui se paga. Depois da violência do golpe vai ser difícil acalmar os ânimos. E é preciso ter noção do que é mais grave. A violência e a derrubada de direitos que estamos assistindo com o apoio desses comentaristas da Globo ou os protestos verbais por onde eles andam? O povo vai ter que aguentar, calado, toda a violência de que tem sido vítima desde o golpe?

Cada um vê o que quer e sabe de que lado deseja ficar. Há, por exemplo, quem fique ofendidíssimo e vai às redes protestar contra quem promove esses achincalhes (constrangedores, mas pacíficos) e, ao mesmo tempo, não diz nada e acha perfeitamente normal o que eles fazem, diariamente, nos veículos de comunicação, na defesa de um golpe que está ferrando e vai ferrar ainda mais com a população mais pobre.

Dão o golpe com o apoio da mídia e de seus principais jornalistas, destroem o país e acham que ninguém deve reagir ou falar nada por “educação”.

Ah, tá!

E esquecem como os golpistas xingavam aqueles que eram contra o golpe.

Informação, manipulação e ideologia

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Foto: blogs.odiario.com

Por Celso Vicenzi – 14/6/2017.

Vivemos uma era em que tudo circula muito rapidamente nas redes sociais e é possível que, em algumas situações sejamos enganados sobre a veracidade de uma notícia ou de parte dela.

Claro, quanto mais críticos e bem informados, menores os riscos. Quando acontece e o internauta é idôneo, pede desculpas, corrige e retifica o mais rapidamente possível.

É diferente a situação de quem apura uma informação e tem a obrigação de ser o mais fiel possível aos acontecimentos e às fontes, daquela de quem lê uma notícia, um artigo etc e eventualmente divulga. Ninguém em sã consciência pode afirmar que os internautas vão dispor de tempo e meios para conferir se cada informação foi bem apurada ou não. Você confia mais em algumas fontes, em outras menos, mas ninguém está imune a erros.

Em muitos casos, as informações podem até ser verdadeiras, mas não estão contextualizadas suficientemente ou só contam uma parte.

Num país em que os grandes veículos de comunicação não têm se pautado, em grande parte, pela correta apuração técnica, pela necessária contextualização dos fatos, mas pelo protecionismo que oferecem a alguns e ataques desproporcionais disparados contra outros (situação que piorou muito nos últimos anos), divulgar o que outras correntes de opinião produzem é fundamental à democracia.

Os blogs e portais mais à esquerda também podem incidir nesses erros – embora tenham um peso muito menor e, portanto, de menor gravidade. O problema é que tem gente que só vê ou comenta os eventuais erros e equívocos de blogs e portais que se contrapõem ao jornalismo que se faz na grande mídia e, principalmente, não se ocupa da questão principal, que é o projeto de país que se desenha por trás de cada notícia ou opinião. Se é um modelo inclusivo, que pretende dar voz e vez à maioria da população, ou se aponta para a preservação de interesses de uma minoria privilegiada, num país que já é um dos 10 mais desiguais do planeta. É preciso ter sempre presente o que é o centro de todo o debate ou se entra em superficialidades, subterfúgios e sofismas.

O caso Miriam Leitão e o jornalismo sem contextualização

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Imagem: acasadevidro.com

Por Celso Vicenzi – 14/6/2017.

Sobre o constrangimento a que foi submetida a jornalista Miriam Leitão, durante um voo, a questão central é: houve um golpe, com enorme participação da mídia (e seus principais comentaristas, que podem ser tudo, menos ingênuos). Claro, não foram os únicos, mas não queiram, por favor, tirar-lhes a responsabilidade. Há vários estudos mostrando a espetacular quantidade de horas de ataques nas tevês, dezenas de capas em revistas, profusão de manchetes em jornais que nem sempre primaram pela ética jornalística – para dizer o mínimo. Se quiserem numa linguagem mais direta: manipularam descaradamente fatos e exageraram quanto a outros, de maneira seletiva, atacando uns e protegendo outros, justamente aqueles que comandaram o golpe e hoje mandam no país. Se serão descartados, isso já não tem nenhuma importância porque o principal se conseguiu: retirar do poder de maneira ilegítima (alguém vai querer sustentar que pedaladas fiscais legitimam o golpe?) uma presidenta eleita pelo voto popular.

E o golpe, pra quem quer pensar um pouquinho, não foi exatamente para tirar Dilma ou o PT do poder, mas para impor uma nova agenda política e econômica sem o respaldo da soberania popular, como aliás, estamos assistindo na aprovação de leis e projetos de interesses de corruptores que financiaram o golpe. E estamos só no começo, porque o modelo que querem implantar no país vai retirar direitos conquistados com muita luta pelo povo brasileiro. As consequências serão mais trágicas do que já estamos vislumbrando, com a perda de direitos históricos dos trabalhadores e dos movimentos sociais, com a soberania nacional de joelhos diante de grandes potências, ávidas pelas riquezas do país, que a exemplo das privatizações de FHC, voltarão à feira de liquidações.

Mas que gravidade tem tudo isso, quando o que importa é centrar peso no constrangimento a que foi submetida uma jornalista que não se destaca exatamente pela ética no exercício da profissão, não é mesmo? Não apoio agressão verbal ou de qualquer outro tipo contra quem quer que seja, mas jornalismo sem contextualização é jornalismo de má qualidade. Discutir só as agressões verbais – cuja extensão nem ainda conhecemos bem – fora do contexto do que Miriam Leitão e outros jornalistas, juízes, intelectuais etc ajudaram a desencadear no país é puro sofisma. E nisso, infelizmente, muitos jornalistas são mestres.

Informação, filtro e rejeição

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Armandinho, de Alexandre Beck.

Por Celso Vicenzi – 13/6/2017.

Acho engraçado jornalistas que rejeitam qualquer informação – mesmo sem ler – escrita em blogs e portais que não consideram “sérios” ou “isentos” – todos à esquerda, naturalmente -, mas aceitam passivamente o que sai na grande mídia. Ou pelo menos nunca se referiram aos jornalões e revistas que manipulam diariamente informações com o mesmo viés de rejeição. Cruzar informações de diferentes fontes, com os filtros necessários, é tarefa diária de quem quer compor o quebra-cabeça dos acontecimentos do cotidiano.

Sermão sobre as injustiças e os ataques aos trabalhadores, acobertados pela mídia

Mensagem dos Bispos e da CNBB sobre a atual crise no país.

Bispos e da CNBB sobre a atual Crise

Mensagem dos Bispos e da CNBB sobre a atual Crise

Publicado por O silêncio do Justo em Segunda, 5 de junho de 2017

Triste país onde depredação é escândalo, mas massacre de dez posseiros, não (por Mário Magalhães)

Por Mário Magalhães – 25/5/2017 – via blog do autor.

Os vândalos de ontem são dentes de leite em comparação com a corja que vandaliza o Brasil, as instituições em que a democracia deveria prevalecer, os direitos dos mais pobres, as conquistas alcançadas com suor pelos trabalhadores, os programas que impedem a morte por fome, as iniciativas que deixam menos jovens longe da escola e da universidade, os planos de preservação ambiental.

Leia mais:

https://blogdomariomagalhaes.blogosfera.uol.com.br/2017/05/25/triste-pais-onde-depredacao-e-escandalo-mas-massacre-de-dez-posseiros-nao