Autora de tese de doutorado sobre Mr. Catra critica pensamento “elitista e preconceituoso”

Mylene Mizrahi (de blusa rosa, no centro), em baile funk na Fundação Progresso, no Rio, durante a elaboração de sua tese de doutorado | Arquivo pessoal

Mylene Mizrahi (de blusa rosa, no centro), em baile funk na Fundação Progresso, no Rio, durante a elaboração de sua tese de doutorado – Foto: Arquivo pessoal.

Via Gazeta do Povo – 17/6/2017.

Após ser citada em matéria da Gazeta do Povo , Mylene Mizrahi diz “que o costume de querer ditar o que é ou não é cultura perdura entre as elites”.

Leia mais:

http://www.gazetadopovo.com.br/educacao/autora-de-tese-de-doutorado-sobre-mr-catra-critica-pensamento-elitista-e-preconceituoso-9jxaz85j3uucblcipuyve3r5j

Antropólogos lançam estudo sobre índios gays no Brasil (por Elenice Dueñas/via Jornal Já)

Por Elenice Dueñas – 5/6/2017 – via Jornal Já.

Revelador, pioneiro e reflexivo, “Gay Indians in Brazil: Untold Stories of the Colonization of Indigenous Sexualities” (Índios Gays no Brasil: As Histórias Não Contadas da Colonização das Sexualidades Indígenas) é o novo título que chegou ao mercado editorial internacional neste ano como um convite ao debate sobre alguns tabus.

Livro de autores brasileiros, lançado pela editora suíça Springer International Publishing, uma das maiores editoras científicas do mundo, tem como base a pesquisa para a tese de doutorado em antropologia do professor e pesquisador Estevão Rafael Fernandes, da Universidade Federal de Rondônia. A publicação traz a parceria da antropóloga gaúcha Barbara Maisonnave Arisi, atualmente pesquisadora visitante na Vrije Universiteit Amsterdam e professora da Universidade Federal da Integração Latino-Americana.

http://www.jornalja.com.br/indios-gays-no-brasil-historias-nao-contadas-sobre-a-colonizacao-das-sexualidades-indigenas

Novo olhar para entender o feminino e o masculino (por Cândida Del Tedesco e Fernanda Cirenza/via revista Brasileiros)

A antropóloga Heloisa Buarque de Almeida - Foto: Luiza Sigulem

Por Cândida Del Tedesco e Fernanda Cirenza/via revista Brasileiros – 21/6/2016. (Foto: Luiza Sigulem).

“Em especial para a Brasileiros, a antropóloga Heloisa Buarque de Almeida diz que não há nada de natural nos gêneros feminino e masculino. Tudo é aprendido. O momento é de multiplicidade identitária e inaugura uma maneira diferente de compreender o comportamento humano.”

Leia mais:

http://brasileiros.com.br/2016/06/186798

Quase 90% línguas indígenas brasileiras foram extintas e as que restam estão ameaçadas (por Leandro Fonte/via Portal EBC)

http://www.ebc.com.br/cidadania/2016/04/de-1500-linguas-indigenas-no-descobrimento-restaram-181-todas-ameacadas-aponta

Por Leandro Melito Fonte/Portal EBC – 19/4/2016.

Brasília –   Na data que marca o Dia do Índio no calendário nacional, 19 de Abril, a avaliação sobre a preservação das línguas indígenas nacionais não mostra um panorâma favorável à preservação dessa cultura no Brasil. Uma pesquisa elaborada pelo Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e divulgada em março deste ano aponta que das cerca de 1,5 mil línguas indígenas existentes no período de descobrimento do Brasil restam 181, das quais 115 são faladas por menos de mil pessoas.

Índios Pataxó fazem treinamento antes do início dos Jogos Mundiais dos Povos Indígenas
Creative Commons – CC BY 3.0Índios Pataxó fazem treinamento antes do início dos Jogos Mundiais dos Povos Indígenas

(Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Todas as línguas indígenas brasileiras estão ameaçadas de extinção em algum grau, de acordo com Atlas Mundial das Línguas elaborado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Em sua última versão, o mapa da Unesco – publicado em 2008 a fim de comemorar o Ano Internacional das Línguas proclamado pelas Nações Unidas – mostra 190 línguas indígenas no Brasil sendo que 12 já estavam extintas. Segundo esse estudo, o Brasil é o terceiro país com o maior número de línguas ameaçadas.

O Atlas é baseado no Índice de Vitalidade das Línguas, que estuda o que leva um idioma a ser ameaçado, as políticas de Estado em relação a ele, seu uso nos meios de comunicação e o fato de ele ter registros na internet. O índice também divide as línguas em cinco categorias: vulneráveis; seriamente em perigo; severamente em perigo; absolutamente em perigo e extintas.

O Programa de línguas ameaçadas de extinção da Unesco existe desde 1993 e a primeira versão do Atlas das Línguas do Mundo em Perigo de Desaparecimento foi publicada em 1996. O documento passa hoje por um processo de revisão e deve incluir em sua próxima versão além das línguas ameaçadas, aquelas que estão aparentemente seguras.

Os dados sobre o número de línguas indígenas existentes hoje no Brasil, porém, não são exatos. No estudo do IEL  são consideradas180 línguas, além da língua geral amazônica Nheengatu. Já os linguistas ligados ao Museu Goeldi apontam a existência de 150 línguas indígenas no Brasil. O Censo de 2010 elaborado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), por sua vez, aponta a existência de 274 línguas faladas por 305 povos indígenas.

Indios Waimiri-Atroari
Creative Commons – CC BY 3.0Indios Waimiri-Atroari

Segundo Angel Humberto Corbera Mori – professor e pesquisador do IEL, além de editor do periódico Línguas Indígenas Americanas (Liames) -. a discrepância entre os dados depende do método utilizado em cada pesquisa. “As diferenças entre um número maior ou menor dependem dos critérios que se usam para identificar o que seria uma língua e o que seria um dialeto. As fronteiras entre língua e dialeto não são fáceis de identificar, são necessários estudos sistemáticos de tipo dialetológicos para se chegar a uma conclusão mais adequada”, considera.

Para Mori, outro aspecto a ser considerado ao analisar esses dados é que não existe uma correlação direta entre o quantitativo populacional e número de falantes que mantêm as línguas indígenas. Há povos que já perderam a língua materna, passando a ser falantes apenas do português, como os Guato, Umutina, Chiquitano e os povos indígenas do Nordeste – Potiguara, Kiriri, Pankararu. Outros apenas tem um número irrosório de falantes como os Yawalapiti (3 falantes), Ofaye (cerca de 5 individuos).

“Apenas povos do Xingu como os Wauja, Mehinaku, Kuikuru, Kamaiura, Aweti, ainda podem ser considerados exemplos em que o número da população e o de falantes da língua indígena se correlacionam”, aponta o pesquisador. Recentemente, morreu a última falante da língua indígena Xipaia, em Altamira, no Pará. Em situação similiar, apenas dois anciões falam Guató, eles vivem em lugares diferentes e não se comunicam entre si devido a distância.

Indígenas
Creative Commons – CC BY 3.0Indígenas

Creative Commons

De acordo com o Instituto Socio Ambiental (ISA), 25 povos têm mais de cinco mil falantes de línguas indígenas: Apurinã, Ashaninka, Baniwa, Baré, Chiquitano, Guajajara, Guarani [Guarani Ñandeva / Guarani Kaiowá / Guarani Mbya], Galibi do Oiapoque, Ingarikó, Kaxinawá, Kubeo, Kulina, Kaingang, Kayapó, Makuxi, Munduruku, Sateré-Mawé, Taurepang, Terena, Ticuna, Timbira, Tukano, Wapixana, Xavante, Yanomami e Ye’kuana.

Para se debruçar sobre como a pesquisa pode colaborar para a preservação dessas línguas, mais de 100 cinetistas de 10 países se reuniram entre 21 de março e 2 de abril deste ano no Instituto durante a Escola São Paulo de Ciência Avançada Putting Fieldwork on Indigenous Languages to New Uses, realizada com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Jogos Mundiais dos Povos Indígenas: adereços e pinturas corporais da etnia Pataxó
Creative Commons – CC BY 3.0Jogos Mundiais dos Povos Indígenas: adereços e pinturas corporais da etnia Pataxó

Marcelo Camargo/Agência Brasil

Mori considera que a defesa dos territórios tradicionais dos povos indígenas é a principal forma de preservar sua língua.”É o ponto principal para que eles continuem desenvolvendo sua autonomia no ponto cultural, socioeconômico e religioso. Junto a isso, podemos colaborar com estudos, descrição dessas línguas, materiais escolares e outros fatores que podem ajudar a manter a cultura e a língua tradicional”, afirmou o pesquisador em entrevista para o programa Amazônia Brasileira. Confira a íntegra da entrevista.

Primeira estudante índigena da Pós em Antropologia Social da UFSC defende dissertação sobre povos Kaingang (por Bruna Bertoldi Gonçalves/via UFSC)

http://noticias.ufsc.br/2016/04/primeira-estudante-indigena-da-pos-em-antropologia-social-da-ufsc-defende-dissertacao-sobre-povos-kaingang

5/4/2016.

“Desde criança, a gente vê antropólogos entrarem e saírem das terras indígenas. É uma relação bem próxima. Eles vão para pesquisas, demarcação de terra. Vim de uma terra de © Pipo Quint / Agecom / UFSCretomada, foi uma disputa de território. Nesse período, via muitos antropólogos visitarem a nossa casa, conversarem com as lideranças. Sempre achei aquilo interessante. Um deles sempre soube muito da minha família, dos meus avós”, relembra Joziléia Daniza Jagso Inácio Schild, primeira estudante indígena do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social (PPGAS) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). A sua dissertação Mulheres kaingang, seus caminhos, políticas e redes na TI [Terra Indígena] Serrinha foi defendida no dia 24 de fevereiro de 2016.

Em seu trabalho, a geógrafa deu ênfase a três narrativas de luta de mulheres kaingang a partir das décadas de 60 e 70. “O movimento indígena pela terra e pelos direitos não se inicia pela Constituição de 88. Houve uma luta grande do movimento indígena, que conseguiu se articular sem internet, telefone, dinheiro. Alguns artigos específicos (231 e 232 – direito aos costumes, território e crenças) nos asseguram o direito de sermos quem somos. O tema vinha sendo discutido em fóruns institucionais; a promulgação da Constituição de 88 veio depois”, destaca.

Natural da Terra Indígena (TI) do Guarita (RS), Joziléia tem Serrinha como a TI do coração. A aldeia, localizada na região Norte do Rio Grande do Sul, pertence aos municípios de Ronda Alta, Três Palmeiras, Constantino e Engenho Velho. “Passei por mais de cinco aldeias, mas sempre tivemos uma aldeia fixa, a nossa ‘emã’. Os Kaingang mudam bastante, foram povos agricultores desde sempre. Tinham aldeias migratórias em épocas de pesca, de caçadas, de colheita do pinhão – base da alimentação deles durante muitos séculos. A gente sempre praticou muito o caminhar”, afirma.

Em maio de 2013, Joziléia enviou um e-mail à coordenação do curso de Licenciatura Indígena e à direção do Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFH), com o pedido de que houvesse a extensão das ações afirmativas existentes para o curso de graduação também ao de pós-graduação em Antropologia Social. “O pedido foi encaminhado à coordenação do Programa, e a discussão foi para o Colegiado. No segundo semestre foi lançado, para o mestrado, edital com ações afirmativas, que assegurou uma vaga para indígenas e uma para negros, e bolsa de estudo para essas vagas”, relembra.

Joziléia participou do processo seletivo da UFSC e, em março de 2014, iniciou o mestrado na Universidade. Naquele ano, não houve candidatos à vaga para indígenas ofertada para o curso de doutorado. “Tive muitos parceiros aqui para concluir meu mestrado, não pedi prorrogação. A Evelyn[Martina Schuler Zea], que foi minha professora e depois futura orientadora, deu um curso de leitura dirigida para que eu pudesse acompanhar as discussões mais teóricas da Antropologia e os textos em leitura estrangeira, apesar de eu ter proficiência. Já sou bilíngue, por isso o aprendizado de uma terceira língua é mais difícil”, afirma a mestre em Antropologia.

Atualmente, Joziléia atua como coordenadora pedagógica da Licenciatura Intercultural Indígena do Sul da Mata Atlântica, da UFSC, e faz doutorado em Memória Social e Patrimônio Cultural na Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Bolsista de pesquisa durante a graduação, defende que a iniciação científica é fundamental aos estudantes. “Fazer a iniciação científica abre um leque de oportunidades e de conhecimentos, e me fez crescer. É importante que os estudantes se preocupem em trazer indígenas para seus núcleos de pesquisa”, avalia. No mesmo ano em que concluiu a graduação, Joziléia iniciou o curso de especialização em Educação Profissional Integrada na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

O interesse em conhecer a extensão do seu território, dados sobre populações e biomas levaram Joziléia à graduação em Geografia, concluída em 2010, na Unochapecó, no Oeste de Santa Catarina. A jornada para o curso superior teve início oito anos antes: em 2002, Joziléia iniciou as aulas, interrompidas em 2005. O acordo com a universidade particular na qual estudava havia sido desfeito. “A Funai fazia parcerias com universidades particulares para obter bolsa para pagar a universidade dos indígenas que passassem no vestibular Acafe. Não havia outros auxílios, não havia uma política nesse sentido para as universidades públicas. A política de cotas e as ações afirmativas foram uma luta dos indígenas que se formaram nas particulares e levaram essa demanda para o cenário nacional”, afirma a geógrafa. Em 2006, prestou vestibular e, em 2007, voltou à Academia.

Joziléia atuou como professora de Geografia dentro da aldeia, na Escola Estadual Indígena Fág Káva, e fora dela, com alunos dos ensinos fundamental e médio e para uma turma de alunos especiais em escolas estaduais de Chapecó. Entre 2011 e 2012, trabalhou no Instituto Indígena Brasileiro para Propriedade Intelectual (Inbrapi), em Brasília. “O Inbrapi nasceu de um pedido feito em encontro com pajés em São Luiz do Maranhão. Eles pediram que fosse criada uma instituição para proteger nossos conhecimentos tradicionais; muitos são levados embora. No instituto só trabalham indígenas. Há um núcleo de advogados, outro de escritores”, exemplifica. Em 2013, foi coordenadora dos Jogos dos Povos Indígenas no Rio Grande do Sul.

Povos Kaingang

Os Kaingang são povos guerreiros que pertencem à família linguística Jê e representam o terceiro maior povo indígena do país. Somam mais de 37 mil pessoas, de acordo com o Censo Demográfico de 2010, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). “Acredito que passe de 40 mil, porque há muita gente na zona urbana. A distribuição espacial vai do Sul de São Paulo até o Rio Grande do Sul, especificamente nos locais de matas de araucária. A gente não viveu nos litorais, que eram ocupados pelos guaranis”, afirma Joziléia.

© Pipo Quint / Agecom / UFSCO patrimônio cultural kaingang será objeto de estudo em seu doutorado. “O meu olhar parte do olhar das mulheres que confeccionam artesanato para venda. O artesanato não é simplesmente uma cesta. As marcas indígenas, os grafismos contam a história da tua metade. Somos divididos em duas metades, que são complementares e que representam o povo Kaingang: Kame e Kanhru”, revela a estudiosa.

Os Kaingang vivem em sociedades cuja descendência paterna define a metade de pertencimento. “Embora patrilineares, o homem vai morar na casa da esposa, ou do sogro, após o casamento”, informa Joziléia. Eles gostam de cores fortes e utilizam objetivos e acessórios relacionados a sua história. “Os desenhos têm um significado. Há uma cultura material – a arte – e uma imaterial, que é a relação da pessoa com a sua metade. Kame caracteriza a metade guerreira: mais lenta, porém mais forte. Eles têm pés maiores, e os desenhos são abertos. Kairu é a metade espiritual; normalmente dela descendem os caciques. São de estatura menor, corpo mais delgado, mais ligeiros. Os desenhos fechados, como a onça, os representam”, explica a indígena. Plantas e animais também são divididos entre as duas metades. O bracelete com traçados pretos revela: Joziléia pertence à metade Kame.

A geógrafa lamenta o preconceito que identifica enraizado em parte da sociedade e ressalta a importância do respeito às diferenças culturais. “Os indígenas têm alcançado alguns espaços, mas são muito pequenos. O nosso maior inimigo é a invisibilidade, ou a visibilidade ruim. A mídia tem pontuado cada vez mais e tem feito com que novos guerreiros indígenas venham por aí com falas mais duras porque a nossa fala tranquila não tem sido ouvida”, finaliza.

TI de Serrinha

O Instituto Kaingang é uma Organização Não Governamental (ONG) regulamentada em 2003 e gerida apenas por mulheres na TI de Serrinha, Rio Grande do Sul. Sua missão é formar professores indígenas. “É a formação do pensar junto, como vamos ter essa escola indígena diferenciada – no sentido de poder fazer uso da língua materna, dos costumes e das tradições dentro da escola – e de qualidade”, esclarece a geógrafa. O instituto promove discussões sobre políticas públicas para povos indígenas, com atuação também fora da aldeia, em ONGs e órgãos governamentais.

No local, há um Ponto de Cultura, onde são desenvolvidas atividades com crianças, jovens e idosas; projetos de revitalização de artes; artesanato; contação de histórias e apresentações musicais e literárias. “O Projeto Eg Rá – Nossas Marcas”, proposto pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e pelo Inbrapi, e financiado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), propôs a revitalização da pintura corporal e a recuperação de grafismos específicos dos Kaingang, trabalho que resultou na publicação de um livro, em 2012, o lançamento de um DVD e a oferta de oficinas sobre o tema. “Essas instituições indígenas nos deram muitas possibilidades. Por meio delas, é possível acessar recursos para projetos. Instituições como essas formaram muitas jovens lideranças mulheres”, pontua Joziléia.

História de vida

O pai de Joziléia faleceu quando ela tinha 10 anos; a mãe, quando ainda era adolescente. A tia Andila, sob quem ficaram seus cuidados e a qual considera mãe, é apontada como grande influência e é uma das personagens que figuram na dissertação de mestrado de Joziléia. “Ela é aposentada da Funai. Na década de 70, Andila escreveu uma carta para o presidente Ernesto Geisel denunciando os arrendamentos nas terras indígenas e a intrusão dos colonos.”

Durante a infância, a indígena estudou em uma escola na aldeia onde o tio era professor. “Minhas maiores recordações são das escolas não indígenas; tive professores muito bons. Nunca fiz cursinho pré-vestibular. No início da adolescência, senti o preconceito. Alunos das 7ª e 8ª séries diziam que tínhamos cheiro de fumaça, falavam das nossas roupas. Lembro de uma música que cantavam no caminho para a escola, isso marcou muito”, relata, serena.

A índia de cabelos negros e olhos expressivos tem 35 anos e é neta de cacique. O avô permaneceu no ofício por 30 anos e acompanhou o processo de retomada da TI de Serrinha na década de 90. O tio é o atual cacique. Ela tem quatro irmãos biológicos – duas mulheres e dois homens – e cinco primas que são reconhecidas como irmãs de coração. “Duas são advogadas, uma médica, uma jornalista e uma antropóloga”, conta, orgulhosa. Alguns dos irmãos vivem na Serrinha; outros, fora da aldeia. Joziléia possui responsabilidades em relação aos filhos dos irmãos. Tem uma filha de coração: Isadora. “Os filhos deles são meus filhos também. Há uma responsabilidade afetiva, de alimentação, de educar, amar. Dentro da minha cultura, já sou avó”, anuncia, orgulhosa.

 

Bruna Bertoldi Gonçalves / Jornalista / DGC / UFSC

Revisão: Claudio Borrelli / Revisor de Textos da Agecom / DGC / UFSC

Fotos: Pipo Quint / Fotógrafo da Agecom / DGC / UFSC