Da arte de não se omitir

Artistas

Artistas brasileiros protestam contra a censura nas artes. (Reprodução).

Por Celso Vicenzi – 10/10/2017.

Sobre os vídeos da campanha #342ARTES, com depoimentos de artistas brasileiros de várias áreas, gostaria de dizer que a gente divulga, sim, e se solidariza com essa luta, mas onde estavam essas – e tantas outras – pessoas quando a democracia começou a ser atacada? Quando pessoas começaram a ser execradas sem direito à defesa, linchadas em capas de jornais e revistas, em emissoras de rádio e televisão? Quando ficou claro que boa parte das pessoas foi às ruas não para combater a corrupção, mas apenas para fazer desse mote a alavanca para derrubar um governo eleito legitimamente? Onde estavam quando calaram diante de vozes que defendiam tortura, estupro, pena de morte? De religiosos fundamentalistas, de empresários gananciosos, de políticos igualmente corruptos, de magistrados que usam de dois pesos e duas medidas? De defensores do “bandido bom é bandido morto”? Desde que seja pobre e de preferência negro, claro!

Boa parte dos artistas, que tanta empatia possui com a população, e tantos outros brasileiros que ocupam funções importantes no imaginário do país, calaram, foram omissos, não levantaram a voz para protestar contra um golpe tramado com toscos argumentos. Talvez na vã esperança que uma ditadura (principalmente por não ser militar), logo poria as coisas novamente em ordem e o país voltaria a crescer. Dessa vez, livre de petistas e de tudo o que eles – bem ou mal – representaram na esperança dos mais empobrecidos. Porque, embora seja difícil para cada um admitir, eram reféns do preconceito, no íntimo de suas almas, que atribuíam aos mais pobres todas as mazelas que conhecemos (não eram os nordestinos que não sabiam votar e deram – embora o argumento seja incorreto – mais uma vitória à Dilma?). Como se este país não fosse comandado, desde a chegada de Cabral, por privilegiados soberanos, com ou sem nobres coroas sobre suas cabeças, mas com os bolsos forrados com o dinheiro da miséria de milhões, e sem vontade nenhuma de refletir sobre os mecanismos que geram uma sociedade rica e tão desigual.

Boa parte dos artistas – como de resto da parte mais privilegiada da sociedade, é preciso reconhecer – que agora vê o chicote estalar no próprio lombo, pouco tem contribuído – para além de sua arte – como cidadãos e cidadãs, para denunciar a pobreza, o regime de castas, as injustiças que marcam a história do país. Poucos se dispõem a um enfrentamento mais direto contra um sistema desigual, perverso, que violenta a dignidade da maioria da população. Apelos pontuais, campanhas filantrópicas não mudam essa correlação de forças.

Ou a classe média e os mais privilegiados num país com as características do Brasil encaram essa luta sem olhar apenas para o próprio umbigo ou continuaremos a ser o que sempre fomos: um país racista, preconceituoso, cheio de regalias classistas, que tem ódio de pobre e sem coragem e vontade para lutar pelas reformas basilares que poderiam fazer desse nosso chão o lugar ideal para se erguer um grande país, soberano justo e solidário.

Eu gostaria de ter visto e ouvido toda essa defesa contra o retrocesso, o discurso do ódio e da intolerância, quando a democracia brasileira foi atacada por um golpe jurídico-midiático-parlamentar-policial-empresarial. Mas naquele momento, calaram. Poucas vozes – entre tantos artistas – se ergueram para tentar deter o que já se sabia que viria, se não houvesse resistência ao golpe. Um misto de ingenuidade, preconceito e garantia de privilégios de classe talvez explique essa omissão.

Sim, eu vou cerrar fileiras nessa luta contra a volta da censura. Contem comigo!

Eu também sei o quanto a educação, a cultura e a arte são fundamentais na construção de um país mais humano e civilizado e que boa parte dos artistas brasileiros estiveram na linha de frente para denunciar a ditadura militar de 64. Principalmente quando as perseguições, as mortes e as torturas atingiram  pessoas da classe média. Porque restabelecida a democracia no país, as perseguições, as mortes e as torturas continuaram contra as classes mais pobres, na periferia e nos porões do sistema carcerário brasileiro, sem que recebessem de nós a solidariedade que destinamos aos bem nascidos.

A pauta, portanto, nesse novo momento de tentativa de resistência ao novo modelo de golpe, não pode ser tão somente para usufruto da mesma classe média que não acolhe os mais necessitados e pouco faz para trazer milhões de pessoas à margem da cidadania para o que há de melhor na educação, na cultura e na arte, seja como protagonista, subindo aos palcos, seja como espectador, nos teatros, nos cinemas, nos museus, nas galerias, nos espaços em que ela está presente.

Porque quem tem fome e não tem casa e emprego, está expulso desse banquete lúdico, mágico e transcendente. Pouco sobra de si e de sua luta pela sobrevivência diária, para dispor de tempo e motivação para saciar a sede de conhecimento e usufruir de um prazer desconhecido: o de ser reconhecido como um cidadão, uma cidadã, não como párias, olhados com repulsa, desconfiança e nenhuma empatia por quem não se irmana em sua dor e é (quase) indiferente ao mal que essa gente padece, a de ter nascido em uma sociedade que empodera poucos, às custas da exploração do trabalho de muitos. Senhores de escravos – ontem e hoje – que mal destinam à maioria dos brasileiros o suficiente para o sustento de cada trabalhador e de sua família.

Que todo esse retrocesso, esse ódio à pobreza, mas também à inteligência, sirva para que compreendamos que não podemos ser ilhas de civilização em meio à barbárie. Ou queremos construir um país para todos, ou então, como escreveu certa vez o poeta Affonso Romano de Sant’Anna, seremos apenas um “ajuntamento” de pessoas. Da pior espécie que se pode imaginar para conviver.

Jessé Souza: “O ódio ao pobre é o problema central do Brasil” (por Brasil247)

Ag. Senado | Ricardo Stuckert | USP Imagens

Por Brasil247 – 29/9/2017.

O sociólogo e professor Jessé Souza acredita que “o ódio ao pobre é o problema central do Brasil”. Em seu novo livro, “A elite do atraso – da escravidão à Lava Jato”, ele apresenta a tese sobre como é legitimada a desigualdade social no Brasil e como a elite do dinheiro é a principal influenciadora das ideias e projetos do País, comprando todas as outras elites.

Leia mais:

https://www.brasil247.com/pt/247/brasil/319945/Jess%C3%A9-Souza-%E2%80%9CO-%C3%B3dio-ao-pobre-%C3%A9-o-problema-central-do-Brasil%E2%80%9D.htm

Boaventura: a esquerda sem imaginação (por Boaventura de Sousa Santos/via Outras Palavras)

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Por Boaventura de Sousa Santos – 24/8/2017 – via Outras Palavras. Imagem: Edward Hooper, Pessoas ao sol (1963).

Leia mais:

Por não ousar novas formas de Democracia, Estado e Economia; e por não enfrentar articuladamente as três faces da dominação, ela tem sido incapaz de deter a ofensiva brutal do sistema.

http://outraspalavras.net/capa/boaventura-a-esquerda-sem-imaginacao

60% dos negros dizem ter sofrido racismo no trabalho, aponta pesquisa (por Luísa Melo/via G1)

Profissionais negros: mais da metade admite já ter alisado ou raspado o cabelo para ser aceito no trabalho (Foto: Divulgação/Etnus)

Profissionais negros: mais da metade admite já ter alisado ou raspado o cabelo para ser aceito no trabalho. Foto: Divulgação/Etnus.

Por Luísa Melo – 25/7/2017 – via G1.

Mais da metade dos profissionais negros admite já ter alisado ou raspado o cabelo para ser aceito no trabalho.

Leia mais:

http://g1.globo.com/economia/concursos-e-emprego/noticia/60-dos-negros-dizem-ter-sofrido-racismo-no-trabalho-aponta-pesquisa.ghtml

A privatização do dinheiro, silenciosa e radical (por Brett Scott/via Outras Palavras)

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Por Brett Scott – 7/3/2017 – via Outras Palavras. Tradução: Inês Castilhos e Antonio Martins.

Bancos, cartões de crédito e Estados querem substituir todo o dinheiro público por moeda digital, corporativa. Se isso ocorrer, haverá muito mais desigualdade, discriminação e vigilância.

Leia mais:

http://outraspalavras.net/posts/a-privatizacao-do-dinheiro-silenciosa-e-radical

 

Brasil vive bem com crianças pobres, mas não suporta ver um rico infeliz (por Leonardo Sakamoto/via blog do Sakamoto)

Indígena tenta impedir reintegração de posse no Amazonas. Foto vencedora do Prêmio Vladimir Herzog de Direitos Humanos, categoria Fotografia – Luiz Gonzaga Alves de Vasconcelos, Jornal A Crítica (2008). Segue mais atual do que nunca.

Por Leonardo Sakamoto – 25/7/2017 – via blog do Sakamoto.

Mais de 40% das crianças e adolescentes até 14 anos estão em situação de pobreza no Brasil, o que equivaleria a 17 milhões de pessoas, de acordo com levantamento da Fundação Abrinq baseado em dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios do IBGE. Neste caso, considera-se pobre uma família que vive com menos de meio salário mínimo por pessoa por mês.

Leia mais:

https://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2017/07/25/brasil-vive-bem-com-criancas-pobres-mas-nao-suporta-ver-um-rico-infeliz

O que você faria se visse uma criança de seis anos sozinha em um espaço público? O Unicef testou

O que você faria se visse uma criança de seis anos sozinha em um espaço público?

Unicef simulou uma situação que acontece todos os dias diante de nós. Em qualquer lugar do mundo. E que merece a nossa mais sincera reflexão.

Unicef simulou uma situação que acontece todos os dias diante de nós. Em qualquer lugar do mundo. Via Ivani Borges.

Publicado por Celso Vicenzi em Segunda, 5 de junho de 2017

Classe privilegiada acha natural a discriminação e a desumanização (por Luis Felipe Miguel)

Por Luis Felipe Miguel – 24/5/2017 – via Facebook.

A Folha publica sempre três artigos de opinião de jornalistas, na página 2, indicados pelo local de onde falam: São Paulo, Brasília, Rio de Janeiro. Aos cariocas cabe falar de temas “leves”, em geral em tom meio nostálgico – ou então da violência em sua própria cidade. Nem é preciso apontar como essa regra revela o apego dos paulistanos aos estereótipos relativos ao Rio. Mesmo quando destilam seu ódio à esquerda, como fazem sempre dois ocupantes regulares do espaço, Carlos Heitor Cony e Ruy Castro, deve ser assim, de forma “leve” e nostálgica.

Hoje escreveu Ruy Castro. Sua coluna termina com uma interessante transição do “fora PT” para o “são todos iguais”, típica de muita gente dessa direita envergonhada. Mas eu quero falar é do começo do texto. Reproduzo:

“Não sei como é hoje, mas, no passado, os pais se metiam para valer no futuro profissional dos filhos. Não importava que o garoto levasse jeito para o boxe, a taxidermia ou mesmo o corte e costura – a possibilidade de abraçar alguma dessas especialidades era mínima. Num país sem opções, o normal era que ele se voltasse para uma das três grandes carreiras: medicina, engenharia e direito. Talvez ainda seja assim”.

Ruy Castro deve ter chegado à idade de decidir sua vida profissional em meados dos anos 1960. Naquela época, o número de estudantes no ensino superior brasileiro ficava por volta de uns 300 mil, num país que já tinha mais de 80 milhões de habitantes (um estudante universitário para cada 250 ou 260 brasileiros; hoje, a relação é cerca de um para 30 e o acesso à universidade continua longe de ser universal). Cerca de 40% dos brasileiros eram analfabetos. O “normal” certamente não era ser médico, engenheiro ou advogado. O “normal”, para a esmagadora maioria das pessoas, era ser lavrador, pedreiro, balconista, empregada doméstica, vendedor ambulante.

O que leva Ruy Castro a ignorar todo esse contingente de pessoas é uma enfermidade bizarra, mas endêmica entre os grupos privilegiados: a incapacidade de ver os diferentes. A empregada que preparou seu café da manhã, o porteiro que lhe espera na entrada no prédio, a garçonete que lhe atende no boteco, o balconista da farmácia, nenhum desses aparece a ele como uma pessoa, com suas ambições, suas vontades, seus problemas, seus sonhos, alguns realizados, muitos frustrados. Por isso, ele pode generalizar a partir do que foi a sua experiência e a dos seus amigos ou do que é, hoje, a experiência de seus netos, dos amigos de seus netos e dos netos de seus amigos. Os outros não existem. É uma forma de desumanização, tão perfeita que nem é percebida.

Para mim, o melhor exemplo dessa postura, pelo grau de cegueira voluntária que expressa, ainda é a infame entrevista que o jovem Aécio Neves deu ao jornal da cidadezinha estadunidense na qual fazia intercâmbio, em 1977. Contando como era a vida no Brasil, ele explicou que “todo mundo tem uma empregada ou duas; uma para cozinhar, outra para limpar”. Por isso, “a vida das mulheres é fácil no Brasil”; elas “podem passar a maior parte de seu tempo na praia ou fazendo compras”. Fica claro, portanto, que para o jovem Aécio a “empregada” não faz parte da categoria “mulheres”.

Na mesma entrevista, o jovem Aécio contou que nunca na vida tinha arrumado a própria cama. Também por isso uma temporada na cadeia pode se revelar instrutiva.

Material didático de combate ao racismo contra indígenas é disponibilizado para download

Material didático de combate ao racismo contra indígenas é disponibilizado para download

Por Ministério Público Federal – 15/5/2017.

O Ministério Público Federal (MPF) publicou nesta segunda-feira (15) versão digital de material didático com informações para o combate às atitudes de preconceito, racismo e discriminação contra povos indígenas. O material está disponível para download.

Leia mais:

http://www.mpf.mp.br/pa/sala-de-imprensa/noticias-pa/material-didatico-de-combate-ao-racismo-contra-indigenas-e-disponibilizado-para-download

Deixar pra lá não resolve

Violência Contra As Mulheres, Não Desviar O Olhar

Por Celso Vicenzi – 24/4/2017 – Imagem: Pixabay/Creative Commons CCO.

Tem sido comum nas redes sociais, críticas “amigáveis”, no campo da esquerda, a quem se ocupa em denunciar atitudes e discursos que disseminam o ódio, sempre que partam de pessoas que, dizem esses internautas, “a melhor tática é deixar quieto, não debater”. Gostaria muito de acreditar que agir assim, diminuiria a força de quem usa os espaços públicos para propagar ideias de violência e exclusão contra outros seres humanos.

Por essa lógica, a pregação machista, fascista, homofóbica, misógina, preconceituosa, discriminatória e violenta de uma pessoa como Bolsonaro, por exemplo, não merece que nos ocupemos em debater e criticar. “É isso o que ele quer”, dizem. “Deixa ele pra lá, é a melhor atitude”. O mesmo aconteceu, recentemente, com um abuso ao vivo, pela maior emissora de TV, num programa de grande audiência. Neste segundo caso, evidentemente, ninguém propugna que se assista ao programa, mas ao tomar conhecimento de que algo de grave aconteceu, é necessário refletir sobre o alcance do que se torna público, queiramos ou não. Cidadãos e cidadãs recebem entretenimento da pior qualidade e noticiário idem. E vamos fazer de conta que se deixarmos quieto tudo se revolve?  Ou que não terá a força e o impacto que têm na mente de milhões de pessoas a quem não se oferecem outros argumentos para uma reflexão menos distorcida?

Se esta é a atitude mais correta para enfrentar essas e tantas outras aberrações cotidianas, não seria o caso de perguntar (a lógica, assim como as delações, não podem ser seletivas), por que denunciar, então, o machismo? Deixa pra lá, quanto menos falarmos, menos “Ibope” e, consequentemente, o machismo e os machistas perderão força e desaparecerão, num passe de mágica. Por que falar sobre assédio moral e sexual? Isto só vai estimular os assediadores, não é essa a lógica desse discurso? E os fascistas, vamos deixá-los pregar o ódio com argumentos falhos e equivocados, mas que podem conter uma lógica convincente para tantas pessoas sem acesso a outras fontes de informação? (Bandido bom é bandido morto; bolsa família é pra vagabundo; mulher que quer se dar ao respeito precisa saber como se vestir; quem quer trabalhar sempre arruma emprego;  e por aí vai…) .

Mesmo que sejam pessoas que se comportem de maneira desprezível, na política, nos meios de comunicação, onde quer que a vida exista e seres humanos e do reino animal (por que não?) estejam sendo violentados, há que meter a colher, sim. Há que debater, argumentar, tentar compreender o que leva tantas pessoas a se identificarem com seus próprios algozes, numa espécie de síndrome de Estocolmo coletiva.

Afinal, como São Paulo elege Doria? Como Bolsonaro, inicialmente ridicularizado em suas diatribes que pareciam apenas gestos tresloucados, recebe tantos votos e se apresenta como uma ameaça para o futuro da nação? (o cacófato é perfeito!). Por que no país milhões de pessoas aceitam passivamente um governo ilegítimo e que prega o fim dos diretos sociais e trabalhistas e se horrorizam com a simples menção à Dilma, Lula e o PT? A explicação mais simples aponta para a influência dos veículos de comunicação – e me parece correta –, mas não pode ser apenas isso.

Há nesse discurso algo mais profundo, que nos liga à história de séculos de violência contra índios, negros, gays, pobres, movimentos sociais e sindicais  e todos aqueles que se insurgem contra os privilégios de uma casta que transformou o Brasil num dos países mais desiguais do planeta. Há uma naturalização subjacente nas atitudes do garoto “moderninho” que legitima toda essa desigualdade, que o põe em contato com o passado de escravidão que não desapareceu e continua vivíssimo na alma ,na mente e nas ações de boa parte do povo brasileiro. Os mais ricos e setores da classe média continuam a achar perfeitamente normal ter muitas pessoas a servi-los, a limpar suas casas, a fazer serviços às vezes desumanos, a tratar empregados como pessoas de segunda classe. Há um discurso de meritocracia a tentar legitimar a injustiça e a desigualdade social, como se não fossem resultado de privilégios concedidos e construídos ao longo da história.

Precisamos revirar a história, buscar na sociologia, na antropologia, na filosofia, na ciência política, na psicologia e na psicanálise, em outras formas de conhecimento possíveis, as motivações mais profundas, mesmo as mais irracionais, para tantos fenômenos políticos, econômicos e sociais que impelem milhões de pessoas a um determinado comportamento de ódio e de exclusão – até mesmo contra seus próprios interesses. E, identificadas algumas premissas que nos parecem mais verdadeiras, agir para desativar a bomba-relógio que pode explodir em mais ódio e violência contra aqueles que historicamente vivem à margem da cidadania. O sistema é expert em patrocinar o ódio contra as classes sociais mais pobres, vistas como a fonte de todas as mazelas produzidas, em grande parte, pelo seleto grupo de privilegiados que sempre comandou e volta a comandar a política federal no país.

O negro já foi a explicação para o atraso brasileiro, na Europa os judeus foram acusados de ganância, os imigrantes são o bode expiatória da vez, em todo o mundo, para encobrir o principal: um sistema político e econômico que explora a maioria dos seres humanos, destrói o planeta, promove guerras e violências para garantir a dominação de um grupo muito pequeno de privilegiados.

E fenômenos sociais são icebergs. Deixam entrever, em breves momentos, atos que parecem isolados e despretensiosos, mas que são a ponta de algo maior, que pode causar enorme dano e sofrimento às pessoas.

Por isso, salvo engano, não dá pra “deixar pra lá”. Parece-me mais sensato e prudente  debater, com o máximo de alcance possível, as possíveis explicações para a “banalização do mal”, para que o maior número de pessoas compreenda os riscos que essas “falas” provocam se assimiladas sem qualquer discordância. Obviamente que há situações que não compensam o desgaste de tentar estabelecer um diálogo com quem não quer ouvir contra-argumentos. Por exemplo, nas redes sociais ou em situações sociais do cotidiano. O que se comenta , aqui, é que não dá para esperar o ovo da serpente ser chocado para só depois denunciar e reagir.  É preciso contrapor, desconstruir os discursos do ódio e da insensatez, com inteligência, paciência e racionalidade, sem abdicar do afeto e da emoção, que fala primeiro ao coração das pessoas.