Seis estatísticas que mostram o abismo racial no Brasil (por Tory Oliveira/via Carta Capital)

Protesto no Dia da Consciência Negra

Integrantes de movimentos sociais e de defesa dos direitos da comunidade negra protestam na 13ª Marcha da Consciência Negra, em 2016. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil.

Por Tory Oliveira – 20/11/2017 – via Carta Capital.

No Brasil, a população negra é mais atingida pela violência, desemprego e falta de representatividade.

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https://www.cartacapital.com.br/sociedade/seis-estatisticas-que-mostram-o-abismo-racial-no-brasil

Boaventura: a esquerda sem imaginação (por Boaventura de Sousa Santos/via Outras Palavras)

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Por Boaventura de Sousa Santos – 24/8/2017 – via Outras Palavras. Imagem: Edward Hooper, Pessoas ao sol (1963).

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Por não ousar novas formas de Democracia, Estado e Economia; e por não enfrentar articuladamente as três faces da dominação, ela tem sido incapaz de deter a ofensiva brutal do sistema.

http://outraspalavras.net/capa/boaventura-a-esquerda-sem-imaginacao

Deixar pra lá não resolve

Violência Contra As Mulheres, Não Desviar O Olhar

Por Celso Vicenzi – 24/4/2017 – Imagem: Pixabay/Creative Commons CCO.

Tem sido comum nas redes sociais, críticas “amigáveis”, no campo da esquerda, a quem se ocupa em denunciar atitudes e discursos que disseminam o ódio, sempre que partam de pessoas que, dizem esses internautas, “a melhor tática é deixar quieto, não debater”. Gostaria muito de acreditar que agir assim, diminuiria a força de quem usa os espaços públicos para propagar ideias de violência e exclusão contra outros seres humanos.

Por essa lógica, a pregação machista, fascista, homofóbica, misógina, preconceituosa, discriminatória e violenta de uma pessoa como Bolsonaro, por exemplo, não merece que nos ocupemos em debater e criticar. “É isso o que ele quer”, dizem. “Deixa ele pra lá, é a melhor atitude”. O mesmo aconteceu, recentemente, com um abuso ao vivo, pela maior emissora de TV, num programa de grande audiência. Neste segundo caso, evidentemente, ninguém propugna que se assista ao programa, mas ao tomar conhecimento de que algo de grave aconteceu, é necessário refletir sobre o alcance do que se torna público, queiramos ou não. Cidadãos e cidadãs recebem entretenimento da pior qualidade e noticiário idem. E vamos fazer de conta que se deixarmos quieto tudo se revolve?  Ou que não terá a força e o impacto que têm na mente de milhões de pessoas a quem não se oferecem outros argumentos para uma reflexão menos distorcida?

Se esta é a atitude mais correta para enfrentar essas e tantas outras aberrações cotidianas, não seria o caso de perguntar (a lógica, assim como as delações, não podem ser seletivas), por que denunciar, então, o machismo? Deixa pra lá, quanto menos falarmos, menos “Ibope” e, consequentemente, o machismo e os machistas perderão força e desaparecerão, num passe de mágica. Por que falar sobre assédio moral e sexual? Isto só vai estimular os assediadores, não é essa a lógica desse discurso? E os fascistas, vamos deixá-los pregar o ódio com argumentos falhos e equivocados, mas que podem conter uma lógica convincente para tantas pessoas sem acesso a outras fontes de informação? (Bandido bom é bandido morto; bolsa família é pra vagabundo; mulher que quer se dar ao respeito precisa saber como se vestir; quem quer trabalhar sempre arruma emprego;  e por aí vai…) .

Mesmo que sejam pessoas que se comportem de maneira desprezível, na política, nos meios de comunicação, onde quer que a vida exista e seres humanos e do reino animal (por que não?) estejam sendo violentados, há que meter a colher, sim. Há que debater, argumentar, tentar compreender o que leva tantas pessoas a se identificarem com seus próprios algozes, numa espécie de síndrome de Estocolmo coletiva.

Afinal, como São Paulo elege Doria? Como Bolsonaro, inicialmente ridicularizado em suas diatribes que pareciam apenas gestos tresloucados, recebe tantos votos e se apresenta como uma ameaça para o futuro da nação? (o cacófato é perfeito!). Por que no país milhões de pessoas aceitam passivamente um governo ilegítimo e que prega o fim dos diretos sociais e trabalhistas e se horrorizam com a simples menção à Dilma, Lula e o PT? A explicação mais simples aponta para a influência dos veículos de comunicação – e me parece correta –, mas não pode ser apenas isso.

Há nesse discurso algo mais profundo, que nos liga à história de séculos de violência contra índios, negros, gays, pobres, movimentos sociais e sindicais  e todos aqueles que se insurgem contra os privilégios de uma casta que transformou o Brasil num dos países mais desiguais do planeta. Há uma naturalização subjacente nas atitudes do garoto “moderninho” que legitima toda essa desigualdade, que o põe em contato com o passado de escravidão que não desapareceu e continua vivíssimo na alma ,na mente e nas ações de boa parte do povo brasileiro. Os mais ricos e setores da classe média continuam a achar perfeitamente normal ter muitas pessoas a servi-los, a limpar suas casas, a fazer serviços às vezes desumanos, a tratar empregados como pessoas de segunda classe. Há um discurso de meritocracia a tentar legitimar a injustiça e a desigualdade social, como se não fossem resultado de privilégios concedidos e construídos ao longo da história.

Precisamos revirar a história, buscar na sociologia, na antropologia, na filosofia, na ciência política, na psicologia e na psicanálise, em outras formas de conhecimento possíveis, as motivações mais profundas, mesmo as mais irracionais, para tantos fenômenos políticos, econômicos e sociais que impelem milhões de pessoas a um determinado comportamento de ódio e de exclusão – até mesmo contra seus próprios interesses. E, identificadas algumas premissas que nos parecem mais verdadeiras, agir para desativar a bomba-relógio que pode explodir em mais ódio e violência contra aqueles que historicamente vivem à margem da cidadania. O sistema é expert em patrocinar o ódio contra as classes sociais mais pobres, vistas como a fonte de todas as mazelas produzidas, em grande parte, pelo seleto grupo de privilegiados que sempre comandou e volta a comandar a política federal no país.

O negro já foi a explicação para o atraso brasileiro, na Europa os judeus foram acusados de ganância, os imigrantes são o bode expiatória da vez, em todo o mundo, para encobrir o principal: um sistema político e econômico que explora a maioria dos seres humanos, destrói o planeta, promove guerras e violências para garantir a dominação de um grupo muito pequeno de privilegiados.

E fenômenos sociais são icebergs. Deixam entrever, em breves momentos, atos que parecem isolados e despretensiosos, mas que são a ponta de algo maior, que pode causar enorme dano e sofrimento às pessoas.

Por isso, salvo engano, não dá pra “deixar pra lá”. Parece-me mais sensato e prudente  debater, com o máximo de alcance possível, as possíveis explicações para a “banalização do mal”, para que o maior número de pessoas compreenda os riscos que essas “falas” provocam se assimiladas sem qualquer discordância. Obviamente que há situações que não compensam o desgaste de tentar estabelecer um diálogo com quem não quer ouvir contra-argumentos. Por exemplo, nas redes sociais ou em situações sociais do cotidiano. O que se comenta , aqui, é que não dá para esperar o ovo da serpente ser chocado para só depois denunciar e reagir.  É preciso contrapor, desconstruir os discursos do ódio e da insensatez, com inteligência, paciência e racionalidade, sem abdicar do afeto e da emoção, que fala primeiro ao coração das pessoas.

“Lugar de fala” virou ferramenta de exclusão

Por Luis Felipe Miguel – 11/4/2017 – via FB.

“Lugar de fala” virou uma ferramenta de exclusão. “Ter lugar de fala” é um bilhete de acesso, numa leitura literal da metáfora: é ter assento numa assembleia exclusiva. Quem “não tem lugar de fala” não tem assento, logo deve ser expulso, isto é, se calar.

Mas a ideia de lugar de fala remetia ao entendimento de que todo discurso é socialmente posicionado. Em oposição a compreensões racionalistas, que julgam que os discursos devem ser avaliados por seus argumentos abstratos, a ideia de lugar de fala indicava que a identidade do falante nunca é irrelevante. As posições socialmente estruturadas geram perspectivas que informam os discursos. Por isso, independentemente de seus valores, ideais ou simpatias, mulheres e homens, negros e brancos, trabalhadores e patrões, gays e heteros, vão manifestar visões diferentes de mundo.

Isso é um alerta que visa produzir uma leitura menos ingênua e mais informada de todos os discursos presentes no mundo social. Não é um veto. Nem as percepções que sustentam um privilégio epistêmico dos grupos dominados, como as standpoint theories dos anos 1970, creem que da experiência vivida deriva automaticamente a capacidade de entendê-la e de interpretá-la de forma crítica ou que se deve estabelecer uma reserva de mercado no debate sobre o mundo.

O ponto não é proibir que alguns falem sobre determinados assuntos. Nem dar a outros uma autoridade ilimitada porque ancorada numa vivência singular. O ponto é sempre levar em conta de onde partem os discursos, entender que eles externam uma perspectiva situada, incluir esse elemento na apreciação que fazemos deles. O integrante de um grupo dominado tem uma vivência que permite (potencialmente) que seu discurso traduza um conhecimento prático que alguém externo ao grupo não tem como alcançar. Isso é muito relevante. Mas não faz dele um oráculo, nem reduz o outro ao silêncio.

Transformado em veto, em arma de ataque em batalhas identitárias cada vez mais centradas em si mesmas, o “lugar de fala” serve para obstruir as articulações entre grupos dominados e afastar, até mesmo pintar com as cores do inimigo, aqueles que poderiam ser seus aliados.