A representação do negro no livro didático (por José Tadeu Arantes/via Fapesp)

A representação do negro no livro didático

Pesquisa investiga como a atuação dos ex-escravos no contexto pós-abolição é apresentada nas obras destinadas ao ensino fundamental e médio. (Foto: Ângelo Reinheimer/Fundação Ernesto Frederico Scheffel).

Por José Tadeu Arantes – 9/11/2017 – via Fapesp.

O Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) transformou o Estado brasileiro em um dos maiores compradores de livros do mundo. Quando as editoras inscrevem suas obras para concorrer à aquisição, uma série de requisitos devem ser cumpridos. E o edital define as características que podem contribuir para a aprovação ou a reprovação dos livros.

Uma pesquisa, conduzida na Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Assis, investigou como um tema tão polêmico quanto a representação do negro nos livros didáticos de História do Brasil pode ter sido afetado pelo PNLD, criado em 1985, mas que teve seu primeiro edital para o ensino médio apenas em 2008.

O estudo, realizado pela doutora em história Mírian Cristina de Moura Garrido, foi publicado em Escravo, africano, negro e afrodescendente – A representação do negro no contexto pós-abolição e o mercado de materiais didáticos (1997-2012), com o apoio da Fapesp.

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http://agencia.fapesp.br/a_representacao_do_negro_no_livro_didatico/26602

Atenção dos pais pode reduzir risco de abuso de drogas na adolescência (por Karina Toledo/via Agência Fapesp)

Atenção dos pais pode reduzir risco de abuso de drogas na adolescência

Estudo feito com mais de 6 mil jovens reforça a função protetora do estímulo ao cumprimento de regras. Pesquisa também indica que ricos bebem mais. Foto: Rebcenter/Wikimedia.

Por Karina Toledo – 7/11/2017 – via Agência Fapesp.

Pais que exigem o cumprimento de regras e que monitoram constantemente as atividades dos filhos – buscando saber onde estão, com quem e o que fazem – correm menor risco de enfrentar problemas relacionados ao abuso de álcool e de outras drogas quando as crianças entram na adolescência.

A probabilidade torna-se ainda menor quando, além de monitorar e cobrar, os pais também abrem espaço para o diálogo, explicam o motivo das regras e se mostram presentes no dia a dia dos filhos, dispostos a acolher suas dificuldades – característica parental que especialistas chamam de “responsividade”.

A conclusão é de uma pesquisa realizada na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) com 6.381 jovens de seis cidades brasileiras. Os resultados acabam de ser publicados na revista Drug and Alcohol Dependence.

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http://agencia.fapesp.br/atencao_dos_pais_pode_reduzir_risco_de_abuso_de_drogas_na_adolescencia/26569

O papel da imprensa na manutenção do tráfico escravista (por José Tadeu Arantes/via Agência Fapesp)

Por José Tadeu Arantes – 13/1/2017 – via Agência Fapesp.

O livro de Alain El Youssef, resultou de pesquisa também apoiada pela Fapesp, na qual ele consultou todos os jornais publicados no Rio de Janeiro entre 1822, data da Independência, e 1850, data final do tráfico negreiro transatlântico, para verificar qual o papel exercido pela imprensa, tanto na crítica quanto na defesa da importação de africanos. “Constatei uma estreita relação entre os artigos publicados na imprensa e os debates realizados no parlamento imperial. Ao mesmo tempo em que defendiam o tráfico no parlamento, os conservadores utilizavam os jornais para justificar o contrabando de escravos e combater aqueles que o criticavam”, afirmou.

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http://agencia.fapesp.br/o_papel_da_imprensa_na_manutencao_do_trafico_escravista/24615

 

Estudos abordam livros que foram considerados subversivos

Estudos abordam livros que foram considerados subversivos

Coletânea “Livros e subversão: seis estudos” reúne artigos produzidos pelo Grupo de Pesquisa Censura a Livros e Ditadura Militar no Brasil, da USP

Diego Freire – 19/12/2016 – Agência Fapesp.

A atividade censória contra obras literárias durante a ditadura militar brasileira é o objeto de pesquisa que levou à publicação da coletânea Livros e subversão: seis estudos, publicada pela Editora Ateliê. A obra reúne artigos sobre casos em que, entre 1964 e 1985, livros foram vistos pelos poderes censórios como possíveis instrumentos de subversão da ordem estabelecida.

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http://agencia.fapesp.br/estudos_abordam_livros_que_foram_considerados_subversivos/24516

Atual geração de adolescentes poderá ter surdez precoce, alerta estudo (por Elton Alisson/via Fapesp)

Hábitos de usar diariamente fones de ouvido e frequentar ambientes muito barulhentos têm causado um aumento na prevalência de zumbido nos ouvidos em jovens, considerado um sintoma de perda auditiva, aponta pesquisa. (Foto:Wikimedia Commons).

Por Elton Alisson – 14/6/2016 – Agência Fapesp.

“Os hábitos de usar diariamente fones de ouvido para escutar música e de frequentar ambientes muito barulhentos, como os de danceterias e shows, têm causado um aumento na prevalência de zumbido nos ouvidos em adolescentes, considerado um sintoma de perda auditiva.

A constatação é de um estudo realizado por pesquisadores da Associação de Pesquisa Interdisciplinar e Divulgação do Zumbido (APIDIZ).”

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http://agencia.fapesp.br/atual_geracao_de_adolescentes_podera_ter_surdez_precoce_alerta_estudo/23365

 

Mais de 300 livros digitais gratuitos são oferecidos pela Unesp

Por Agência Fapesp – 11/5/2016.

O Programa de Publicações Digitais da Unesp é o maior projeto de difusão de publicações de uma universidade brasileira e único no sentido de conceber a publicação original de obras em formato digital. Com os novos títulos, a coleção totaliza 322 títulos. Já foram realizados mais de 21 milhões de downloads.

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http://agencia.fapesp.br/mais_de_300_livros_digitais_gratuitos_sao_oferecidos_pela_unesp/23181

A face da escravidão contemporânea (por Karina Toledo/via Agência Fapesp)

http://agencia.fapesp.br/a_face_da_escravidao_contemporanea/22954

 

Karina Toledo, de Michigan | Agência FAPESP – 1/4/2016 – Embora a escravidão tenha sido formalmente abolida no Brasil em 1888, ainda nos dias de hoje é possível encontrar no país trabalhadores submetidos a condições análogas a de escravos.

De acordo com um balanço divulgado recentemente pelo Ministério do Trabalho e Previdência Social (MTPS), somente em 2015, o problema foi detectado em 90 dos 257 estabelecimentos fiscalizados e um total de 1.010 pessoas foram retiradas de condições de emprego consideradas degradantes.

Na tentativa de compreender quais são os fatores que caracterizam o fenômeno da escravidão contemporânea, a historiadora e professora da University of Michigan Law School Rebecca Scott tem se dedicado a estudar documentos produzidos por funcionários do MTPS durante as ações de fiscalização.

O projeto vem sendo realizado em parceria com o juiz federal e professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Carlos Henrique Borlido Haddad e com Leonardo Augusto de Andrade Barbosa, analista legislativo na Câmara dos Deputados, em Brasília.

Um escopo do trabalho foi apresentado por Scott no dia 29 de março, em Ann Arbor, em Michigan, Estados Unidos, durante a programação da FAPESP Week Michigan-Ohio. O evento, que termina hoje (1º/4) na cidade de Columbus, em Ohio, tem o objetivo de fomentar novas colaborações entre pesquisadores paulistas e norte-americanos.

“A campanha de erradicação do trabalho análogo ao escravo que vem sendo realizada no Brasil desde meados dos anos 1990 – e que se fortaleceu principalmente no início do século 21 – reúne diversas entidade governamentais e não governamentais e tem gerado o que os historiadores mais almejam: um vasto material documental. Não conheço outro país com um trabalho tão sistemático nesse campo”, afirmou Scott em entrevista à Agência FAPESP.

A análise dos processos gerados a partir da fiscalização do MTPS, disse Scott, permite aos pesquisadores irem além do campo especulativo e conferir quais são as condições reais que levam promotores e juízes a condenar pessoas por exploração de trabalho escravo.

“Nos permite examinar conceitos legais, entender como os fiscais e os promotores fazem o diagnóstico da situação quando visitam os locais de trabalho e observar como esses conceitos legais estão evoluindo na sociedade”, disse.

A colaboração com os juristas brasileiros começou há cerca de dois anos, quando eles estiveram em Michigan para cursar o pós-doutorado. Haddad tinha experiência prática no assunto, pois já havia julgado diversos casos de empregadores acusados de explorar trabalho escravo. No ano de 2009, na Vara Federal de Marabá, no Pará, ele julgou em um só bloco 32 processos e condenou 27 pessoas.

“Haddad acredita que toda a sociedade é prejudicada quando esse tipo de situação é mantida impune. Já Barbosa estava muito interessado em estudar como a legislação foi escrita e como foi se modificando”, contou Scott.

Na condição de historiadora, Scott disse estar interessada particularmente na definição do conceito de escravidão contemporânea. “O uso desse termo tem a intenção de fazer uma analogia com circunstâncias presentes no Brasil até o século 19. Mas como usar essa metáfora sem cometer um erro? Não podemos diminuir as características únicas do processo de escravização de africanos no século 19. Definir a linha entre escravidão e liberdade é algo crucial para que a campanha para erradicação do problema avance”, avaliou Scott.

Segundo a pesquisadora, as análises têm mostrado que são consideradas “condições análogas à escravidão” aquelas em que as violações dos direitos trabalhistas ultrapassam um certo limite e passam a ferir a dignidade humana.

“Muitas vezes os empregadores percebem a vulnerabilidade de seus trabalhadores e atuam para multiplicar essa vulnerabilidade e, assim, diminuir o grau de autonomia que aquela pessoa tem para aceitar certas condições de trabalho. Outro componente são as condições de trabalho propriamente ditas. Há décadas pesquisas têm mostrado que a escravidão tende a colocar seres humanos em condições similares a de animais, como dormir ao relento, por exemplo”, explicou.

Novas fontes

Além dos documentos do MTPS, o grupo pretende em breve analisar o acervo do Ministério Público do Trabalho (MPT) da 15ª Região – Campinas, que está sendo digitalizado com apoio da FAPESP no âmbito do Projeto Temático “Entre a escravidão e o fardo da liberdade: os trabalhadores e as formas de exploração do trabalho em perspectiva histórica“, coordenado pelo professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Fernando Teixeira da Silva, que integra a equipe do Centro de Pesquisa em História Social da Cultura (Cecult).

Conforme relatou no evento Sidney Chalhoub – que hoje é professor da Harvard University, mas já foi docente da Unicamp e ainda integra a equipe do Cecult –, o acervo do MPT corria risco de ser destruído por falta de espaço para armazenamento e foi salvo graças ao financiamento da FAPESP que permitiu sua digitalização. Atualmente, a base de dados conta com um total de 3.228  ichas, sendo que 1.053 já estão disponíveis para consulta pública na Unicamp.

“Boa parte do material da Justiça do Trabalho já foi destruída por falta de espaço para armazenar, o que é uma pena. São fontes riquíssimas para historiadores estudarem a experiência dos trabalhadores em uma determinada época. Muito do que sabemos hoje a respeito da escravidão se originou em processos criminais e cíveis em que trabalhadores analfabetos tiveram seu depoimento colhido”, disse Chalhoub.

Além de Scott e Chalhoub, participaram da sessão dedicada a temas de legislação e justiça social os professores de História da University of Michigan Paulina Alberto, Jean Hébrard e Sueann Caulfield, além da brasileira Eduarda La Rocque, coordenadora da iniciativa Pacto do Rio – que une representantes da sociedade civil, academia, órgãos públicos, parceiros privados e de organismos internacionais para promover e monitorar o desenvolvimento sustentável da Região Metropolitana do Rio.

Para mais informações sobre a FAPESP Week Michigan-Ohio acesse http://www.fapesp.br/week2016/michigan-ohio/category/news/.

Brasil perde R$ 156,2 bilhões do PIB com a morosidade do trânsito em São Paulo (via Agência Fapesp)

http://agencia.fapesp.br/brasil_perde_r_1562_bilhoes_do_pib_com_a_morosidade_do_transito_em_sao_paulo/21984/

José Tadeu Arantes | Agência FAPESP – Quanto custa ficar parado no trânsito em São Paulo? Esta pergunta foi respondida com precisão. “Hoje, pessoas que trabalham fora de casa gastam em média 100 minutos do dia na ida e volta entre os locais de moradia e de trabalho. Considerando as características estruturais da Região Metropolitana de São Paulo e os padrões de mobilidade verificados em outras cidades do país, seria possível reduzir esse intervalo de tempo em até meia hora.

O aumento de produtividade resultante faria o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, que atingiu o patamar de R$ 5,5 trilhões em 2014, crescer aproximadamente 2,83% — ou seja, R$ 156,2 bilhões. E isso acarretaria um adicional de R$ 97,6 bilhões no consumo da população brasileira.”

O raciocínio é do economista Eduardo Haddad, professor titular do Departamento de Economia da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP). Ele coordenou a pesquisa “Mobilidade, acessibilidade e produtividade: nota sobre a valoração econômica do tempo de viagem na Região Metropolitana de São Paulo”.

A pesquisa contou com o apoio da FAPESP por meio do projeto de auxílio regular “Modelagem integrada de sistemas econômicos metropolitanos” e de uma bolsa de pesquisa no exterior “Sistemas econômicos urbanos”.

“Os maiores obstáculos para que a redução do tempo nas locomoções seja obtida, com todo o benefício econômico que isso acarretaria, é a grande dependência ao uso do automóvel e o tamanho descomunal da frota de veículos em circulação na Região Metropolitana de São Paulo (RMSP). Essa frota, que se tornou excessiva para a infraestrutura viária existente, alcançou, em julho de 2015, o montante de 8.357.762 veículos [Fonte: Departamento Nacional de Trânsito – Denatran]”, disse Haddad à Agência FAPESP.

Como a população da RMSP foi estimada em 21.090.791 habitantes em agosto de 2015 [Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE], a combinação dos dois números fornece a média de 1 veículo para 2,5 habitantes. No município de São Paulo, que concentra a maior parte da frota, a média é de 1 veículo para menos de 2,2 habitantes.

Apenas para efeito de comparação, a população da cidade de Nova York foi estimada em 8.491.079 habitantes em 2014 [Fonte: City of New York – Department of City Planning]. Portanto, o número de veículos na Região Metropolitana de São Paulo é quase igual ao número de pessoas na cidade de Nova York.

A frota da Região Metropolitana de São Paulo distribui-se em 5.267.392 veículos no município de São Paulo e 3.090.370 veículos nos demais municípios que compõem a RMSP. “Na última década, a população do município de São Paulo aumentou 6,6%, enquanto sua frota de automóveis de passeio cresceu 48,2%. No mesmo período, a rede viária (avenidas e ruas) do município praticamente não mudou, o que significa que passou a ser ocupada por um número muito maior de veículos. O número de automóveis de passeio por quilômetro quadrado no município aumentou de 3.765, em 2005, para 5.579, em 2015”, informou o pesquisador.

Horários de pico

A maior concentração de veículos, gerando lentidão do tráfego ou congestionamentos, ocorre nos dois horários de pico, no início da manhã e no final da tarde, que são justamente os horários de deslocamento da grande maioria dos trabalhadores. De acordo com os dados do último Censo Demográfico do IBGE, de 2010, dos 6,36 milhões de trabalhadores atuantes no município de São Paulo, quase 1 milhão residia fora da capital paulista. Na mesma data, 170 mil trabalhadores paulistanos precisavam se deslocar em sentido contrário, para alcançar seus locais de trabalho em outros municípios.

“Na maior parte das sub-regiões que compõem a RMSP, a oferta de empregos é menor do que a população em idade ativa. A grande exceção ocorre no chamado ‘centro expandido’, compreendido entre as vias marginais dos rios Tietê e Pinheiros. Com mais de 1 milhão de postos de trabalho excedentes, o ‘centro expandido’ é a principal bacia de empregos da RMSP, tornando-se, assim, o ponto focal dos deslocamentos diários dos trabalhadores, com lentidão ou congestionamentos nas principais vias que o conectam às demais áreas”, afirmou Haddad.

Além disso, o município de São Paulo apresenta um terceiro horário de pico, pois muitos trabalhadores aproveitam a hora do almoço para cuidar de seus interesses pessoais. E, como grande parte utiliza o automóvel para se deslocar, isso provoca um expressivo adensamento do trânsito nesse horário.

Um quadro comparativo dos tempos médios de deslocamento em várias regiões metropolitanas do mundo foi composto, em 2014, pelo Toronto Region Board of Trade, do Canadá. E mostrou que o tempo médio de deslocamento em São Paulo é maior do que em Tóquio, Nova York, Londres, Paris e Madri, e ligeiramente menor do que em Xangai, na China. A Cidade do México é o lugar onde essa variável alcança o maior valor: 142 minutos. Mas é preciso levar em conta que 4 milhões de trabalhadores se deslocam diariamente para a Cidade do México a partir de outros municípios – um número quatro vezes maior do que o registrado em São Paulo.

A pesquisa coordenada por Eduardo Haddad procurou quantificar o impacto econômico da morosidade do trânsito na Região Metropolitana de São Paulo. “Primeiro estabelecemos as características estruturais da RMSP, considerando dados como área do território, área urbanizada, tamanho da população, níveis de renda da população, preços dos imóveis nas várias sub-regiões, quantidade e densidade dos postos de trabalho, salário médio dos trabalhadores etc. Depois, levando em conta essa estrutura, estimamos um tempo de locomoção que poderíamos classificar como ‘normal’. Esse tempo é da ordem de 70 minutos. Mas o tempo real excede em aproximadamente meia hora o valor esperado, chegando a cerca de 100 minutos. O diferencial é o que se chama no jargão técnico de ‘excesso de fricções de mobilidade’”, explicou o pesquisador.

Fricções de Mobilidade

O passo seguinte foi calcular como esse “excesso de fricções de mobilidade” afeta a produtividade dos trabalhadores [são definidos como “trabalhadores”, no caso, todas as pessoas que trabalham fora de casa]. E como sua eventual eliminação se traduziria em acréscimo de produtividade e correspondente aumento do PIB e do consumo.

“Sabemos que maior tempo de deslocamento acarreta menor produtividade, porque as pessoas tendem a chegar mais tarde e sair mais cedo do trabalho, e já chegam aos locais de trabalho cansadas, devido ao esforço despendido no trânsito”, argumentou Haddad.

Isso é fácil de perceber. Mas existe também outro fator, não tão facilmente perceptível, mas talvez até mais importante. “É que tempos de deslocamento mais curtos geram um mercado de trabalho mais denso, isto é, com maior número de trabalhadores potenciais a uma dada distância de cada local de trabalho. E isso acarreta um dos efeitos benéficos da chamada ‘economia de aglomeração’, que é o fato de os trabalhadores terem mais opções para encontrar os empregos de sua preferência e de as firmas terem mais opções de contratar os trabalhadores de que necessitam”, prosseguiu o pesquisador.

Tempos de deslocamento mais curtos aumentam as opções de escolha tanto dos trabalhadores quanto das firmas, favorecendo os dois lados da moeda do mercado de trabalho. E isso aumenta a produtividade.

“Nossos cálculos permitiram estabelecer que, se a meia hora a mais no tempo de deslocamento dos trabalhadores fosse eliminada, o ganho médio de produtividade seria de aproximadamente 15,7%. Dependendo da maior ou menor distância entre os locais de residência e os locais de trabalho, o adicional de produtividade variaria de 12,6% a 18,9%. E esse acréscimo de produtividade causaria um aumento de 2,83% no PIB nacional, com o correspondente crescimento no nível de consumo dos trabalhadores”, disse Haddad.

“A cidade de São Paulo absorveria aproximadamente 50% de todo esse benefício, com um aumento de 10,94% do PIB municipal. Considerando a Região Metropolitana de São Paulo em seu conjunto, teríamos um aumento de 12,89% do PIB regional e de 18,53% do consumo dos habitantes”, informou o pesquisador.

Integração de modelos de grande escalas

O que sua pesquisa fez foi aquilo que, na linguagem técnica, é chamada de “integração de modelos de grande escala”. No caso, foram integrados três modelos: o modelo de demandas de viagens, que combina informações sobre os deslocamentos das pessoas com o levantamento da infraestrutura física da rede (rotas de ônibus, de metrô, de automóveis etc.); o modelo de produtividade, estabelecendo relações quantitativas entre estrutura da cidade, características dos trabalhadores e produtividade; e o modelo macroespacial de equilíbrio geral computável, que transforma produtividade em impactos de ordem superior, como PIB e consumo.

“Para fazer esse levantamento, cruzamos dois grandes conjuntos de dados: os dados do último Censo Demográfico do IBGE, de 2010; e os dados da Pesquisa de Origem e Destino, realizada pelo Metrô de São Paulo em 2007, compatibilizados com os valores de 2010”, detalhou Haddad. A pedido da Agência FAPESP, o pesquisador extrapolou posteriormente os resultados com base em estimativas numéricas de 2014, produzindo um quadro bem próximo da situação atual.