Lava Jato e a marca da infâmia (por Luís Nassif/via GGN)

Por Luis Nassif – 14/8/2017 – via GGN.

A cada dia perpetra-se um estupro contra a Constituição, contra a civilização, contra os direitos sociais e individuais e até contra aspectos mais prosaicos de manifestação, o pudor público. Perdeu-se não apenas o respeito às leis como o próprio pudor e, com ele, o respeito mínimo pelo país.

Até onde irá essa selvageria? Quando começou essa ópera dantesca? Foram anos e anos de exercício diuturno do ódio por parte de uma imprensa tipicamente venezuelana.

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http://jornalggn.com.br/noticia/lava-jato-e-a-marca-da-infamia-por-luis-nassif

O perigo de subestimar a história

“A liberdade guiando o povo”, de Eugène Delacroix (1830), Museu do Louvre, Paris.

Por Celso Vicenzi – 9/8/2017.

O povo escreve a história com as suas próprias pernas. As lideranças, quando surgem, são apenas a expressão visível da vontade popular. O tempo em que mudanças profundas ocorrem não é, necessariamente, o tempo que nos é dado viver. Retrocessos e avanços estão continuamente sendo produzidos em cada pedaço de chão do planeta. E antes de termos nascido e depois que viermos a morrer, fatos memoráveis aconteceram e acontecerão em muitas e imprevisíveis direções.

Sei pouco, mas o pouco que sei basta para compreender que quando as pessoas que comandam as instituições de um país e que deveriam garantir a estabilidade social, econômica e política, se dedicam a usá-las unicamente em benefício próprio e de grupos, para subjugar ainda mais quem pouco tem, estão assinando a sua própria sentença, pondo a própria cabeça a prêmio. Com sorte, morrerão antes. Mas pode ser que ainda em vida compartilhem situações ocorridas em países muito próximos e outros mais distantes, onde poderosos acabaram presos e até mesmo condenados à prisão perpétua (como aconteceu na América Latina), sem falar naqueles que levaram ex-dirigentes à pena de morte. Não estou dizendo que isso acontecerá no Brasil (que não tem pena de morte, a não ser para pretos e pobres, executados neste país todos os dias). Faço apenas o registro que já aconteceu, em vários países. Mas é próprio de quem tem o poder, achar que nunca corre riscos.

No entanto, quanto mais poderoso alguém se sente, a ponto de fazer escárnio da maioria da população, como agora assistimos cotidianamente com parlamentares, juízes, procuradores, empresários e tantos outros que tripudiam sobre a desgraça de quem quase nada ou pouco tem, mais encorajam a revolta de quem tem sede de justiça. E desta vez, porque queimaram as pontes e destruíram os pactos, a alternativa de reconstrução pode não ser pela via da conciliação, como outrora aconteceu, em tantos momentos da história do país, desde a Independência, anunciada por um nobre português (ora pois!), passando pela Proclamação da República, redemocratização, anistia a torturadores e tantos outros episódios em que o povo, ou não participou ou não foi ouvido.

Mas, embora encobertas pela história oficial, não faltam revoltas e movimentos de insurreição, como as guerras de Canudos, do Contestado, a Sabinada, a Balaiada, a Revolta da Chibata, Insurreição Pernambucana, Revolução Farroupilha e segue uma lista que não é pequena.

Apesar de todas essas e outras insurgências que desafiaram os poderes estabelecidos, é fato que temos uma história marcada por (falsos) consensos, geralmente à revelia do povo, negociada pelos donos do “andar de cima”. Entre a paz e a convulsão social, difícil prever desdobramentos.  Cada povo constrói a sua história. Mas nada garante que essa “paz” – tantas vezes sangrenta – seja eternamente duradoura. Melhor não abusar.

Por isso, quem hoje ri, pode chorar. Quem é herói, pode virar vilão. A história caminha por vias tortas e instáveis. Quem pensa que pisa chão firme, esquece que o fundo da terra é feito de lava incandescente, sempre prestes a explodir. Em pouco tempo, sociedades podem dar vazão a forças incontroláveis. Às vezes, cortando cabeças de reis e rainhas, nobres e plebeus, aqui e acolá. Ou levando países a guerras civis e outras experiências traumáticas, com manifestações de ódio. Onde havia paz e serenidade, pode sobrevir hostilidade e pânico. Do céu ao inferno, é mais perto do que muitos imaginam.

Abrir os livros de História é mergulhar, não raro, em períodos de grandes horrores. Já seria o suficiente para ninguém abusar da paciência de quem é continuamente violentado em seus direitos. Muito menos subestimar o destemor e a coragem, como já nos ensinou há 2.500 o general Sun Tzu (A Arte da Guerra) do inimigo a quem não é oferecida uma saída, porque nessa situação, “ele lutará até a morte” com uma bravura e uma potência que talvez nem soubesse de que é capaz.

E os donos do golpe simplesmente não oferecem nenhuma saída à  população que não seja a de abrir mão de direitos, caminhar rumo à miséria e viver oprimida. Num país rico e desigual, os golpistas empurram o povo para um lugar onde a resposta mais justa e previsível é o uso da violência contra quem o violenta. Apostar continuamente na apatia de quem assiste, com fome de justiça, ao banquete dos poderosos, é uma aposta arriscada demais para um país que dispõe de tantos recursos para distribuir melhor a renda e evitar o caos.

Os erros do PT e o golpe

Mídia e Judiciário não deram chances de defesa. Charge: Aroeira.

Por Celso Vicenzi – 20/6/2017.

Há um argumento frequente nas redes sociais e nas conversas por aí, que embora falho, tem conquistado muitos adeptos. Diz-se, em linhas gerais, que o PT sabia quem era Temer e conhecia bem o PMDB e que, por isso, deve admitir que também errou, ou seja, aceitou correr riscos com essa aliança e, por conseguinte, justifica-se o golpe. Erros não faltam ao PT e a tantos outros partidos que ascenderam ao poder em algum momento da história. Mas nenhum deles pode ser pretexto para se aceitar um golpe.

Para governar é preciso obter maioria no Congresso e para isso recorre-se a coalizões políticas, aqui e em outros países. Errar na escolha das coalizões, no programa de governo ou no exercício do cargo, repito, não justifica um golpe.

Quem faz um mau governo é derrotado na eleição seguinte. É assim numa democracia. O PT pagaria o preço de suas opções políticas e econômicas.

Outra coisa, no entanto, é sofrer um golpe que uniu, entre outros, boa parte do  empresariado, da mídia, do Congresso financiado por corruptores como a Odebrecht, JBS e tantos outros, que obteve a conivência de boa parte do Judiciário, da Polícia Federal e, muito provavelmente, com apoio logístico da nação que considera a América Latina estratégica para seus interesses geopolíticos. Inclua-se, ainda, a traição torpe como poucas vezes se viu, em qualquer país, de um vice-presidente e do maior partido que dava sustentação política ao governo. Contra tudo isso, havia pouco a se fazer (é verdade que nem esse pouco o PT fez, confiando no Judiciário e na Divina Providência).

A crítica ao PT é necessária e deve ser feita, mas não pode ser usada para justificar o golpe. Numa democracia, maus governos ou escolhas políticas devem ser questionadas numa próxima eleição. Golpe é golpe. E os erros do PT não podem justificar o que se fez no país, de maneira ilegítima e arbitrária (apesar da roupagem jurídico-legal com que travestiram o golpe).

Portanto, é preciso separar bem as duas coisas. Críticas ao PT (que se afastou dos movimentos sociais, que optou por uma política econômica equivocada, que não democratizou a comunicação etc), aos dirigentes que se corromperam etc etc, são todas muito bem-vindas e necessárias, porque ajudam a aprimorar a política, a democracia, a sociedade. Mas aceitar que erros políticos de um partido ou de um governante deem pretexto a um golpe – com tudo que já se sabe agora sobre as suas motivações -, desculpem-me, é violentar duplamente a vítima. É estuprar a democracia.

E cá entre nós, toda a corrupção dos golpistas que tomaram de assalto o Palácio do Planalto para tentar livrar a pele e barrar a Lava Jato (recordemos Jucá: “A solução é botar o Michel, num grande acordo nacional, com o Supremo, com tudo, aí parava tudo”), o ódio da classe média à ascensão dos mais pobres, os donos do PIB ávidos por destruir a Constituição e a proteção aos direitos sociais e dos trabalhadores para aumentar seus ganhos, os lucros com a privatização, o interesse de potências estrangeiras no pré-sal, nas riquezas nacionais –, tudo isso teve muito mais peso na motivação do golpe do que eventuais casos de corrupção do PT ou erros políticos e econômicos do governo da presidenta Dilma.

E mostrou-se ainda mais transparente depois que o golpe perdeu o rumo, a ponte para o futuro revelou-se uma frágil pinguela, defensores da ética mostraram-se igualmente corruptos, os golpistas desentenderam-se, a mídia e a justiça retiraram suas máscaras e heróis transmudaram-se em vilões da noite para o dia.

Promovem um golpe e querem que o povo não reaja?

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Quem hoje se ofende com as agressões verbais esquece como elas começaram. 
Foto: jornalggn.com.br

Por Celso Vicenzi – 16/6/2017.

Primeiro, Fora Temer! Segundo, criar um clima de achincalhes, seja de esquerda ou de direita não é desejável, mas não dá para rodar os acontecimentos da história para trás. Portanto, aqui se faz, aqui se paga. Depois da violência do golpe vai ser difícil acalmar os ânimos. E é preciso ter noção do que é mais grave. A violência e a derrubada de direitos que estamos assistindo com o apoio desses comentaristas da Globo ou os protestos verbais por onde eles andam? O povo vai ter que aguentar, calado, toda a violência de que tem sido vítima desde o golpe?

Cada um vê o que quer e sabe de que lado deseja ficar. Há, por exemplo, quem fique ofendidíssimo e vai às redes protestar contra quem promove esses achincalhes (constrangedores, mas pacíficos) e, ao mesmo tempo, não diz nada e acha perfeitamente normal o que eles fazem, diariamente, nos veículos de comunicação, na defesa de um golpe que está ferrando e vai ferrar ainda mais com a população mais pobre.

Dão o golpe com o apoio da mídia e de seus principais jornalistas, destroem o país e acham que ninguém deve reagir ou falar nada por “educação”.

Ah, tá!

E esquecem como os golpistas xingavam aqueles que eram contra o golpe.

O caso Miriam Leitão e o jornalismo sem contextualização

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Imagem: acasadevidro.com

Por Celso Vicenzi – 14/6/2017.

Sobre o constrangimento a que foi submetida a jornalista Miriam Leitão, durante um voo, a questão central é: houve um golpe, com enorme participação da mídia (e seus principais comentaristas, que podem ser tudo, menos ingênuos). Claro, não foram os únicos, mas não queiram, por favor, tirar-lhes a responsabilidade. Há vários estudos mostrando a espetacular quantidade de horas de ataques nas tevês, dezenas de capas em revistas, profusão de manchetes em jornais que nem sempre primaram pela ética jornalística – para dizer o mínimo. Se quiserem numa linguagem mais direta: manipularam descaradamente fatos e exageraram quanto a outros, de maneira seletiva, atacando uns e protegendo outros, justamente aqueles que comandaram o golpe e hoje mandam no país. Se serão descartados, isso já não tem nenhuma importância porque o principal se conseguiu: retirar do poder de maneira ilegítima (alguém vai querer sustentar que pedaladas fiscais legitimam o golpe?) uma presidenta eleita pelo voto popular.

E o golpe, pra quem quer pensar um pouquinho, não foi exatamente para tirar Dilma ou o PT do poder, mas para impor uma nova agenda política e econômica sem o respaldo da soberania popular, como aliás, estamos assistindo na aprovação de leis e projetos de interesses de corruptores que financiaram o golpe. E estamos só no começo, porque o modelo que querem implantar no país vai retirar direitos conquistados com muita luta pelo povo brasileiro. As consequências serão mais trágicas do que já estamos vislumbrando, com a perda de direitos históricos dos trabalhadores e dos movimentos sociais, com a soberania nacional de joelhos diante de grandes potências, ávidas pelas riquezas do país, que a exemplo das privatizações de FHC, voltarão à feira de liquidações.

Mas que gravidade tem tudo isso, quando o que importa é centrar peso no constrangimento a que foi submetida uma jornalista que não se destaca exatamente pela ética no exercício da profissão, não é mesmo? Não apoio agressão verbal ou de qualquer outro tipo contra quem quer que seja, mas jornalismo sem contextualização é jornalismo de má qualidade. Discutir só as agressões verbais – cuja extensão nem ainda conhecemos bem – fora do contexto do que Miriam Leitão e outros jornalistas, juízes, intelectuais etc ajudaram a desencadear no país é puro sofisma. E nisso, infelizmente, muitos jornalistas são mestres.

Xadrez da incógnita militar e do pós-Temer (por Luis Nassif/via GGN)

Por Luis Nassif – 8/6/2017 – via GGN.

Vive-se um quadro de ampla desordem institucional, um tiroteio sem fim entre o Executivo, Congresso, Ministério Público, Supremo, Tribunal Superior Eleitoral, acirrado pela reforma trabalhista e da Previdência. Externamente, uma indignação popular que se alastra, que já resultou em uma greve geral, resultará em outra.

A grande incógnita é como o único poder silencioso – o militar – se manifestará.

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Fernando Haddad disseca o arco do atraso em depoimento histórico (por Luis Nassif/via GGN e revista Piauí)

Por Luis Nassif – 5/6/2017 – via GGN e revista Piauí.

O ex-prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, publicou um depoimento histórico na revista Piauí, sobre sua experiência com o poder desde os tempos de Ministro da Educação.

No artigo, fala dos problemas de Dilma Rousseff, do papel deletério da mídia, aponta o promotor suspeito de receber propina, e que passou a persegui-lo, mostra que José Serra foi o principal mentor do golpe, entre outras revelações.

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