Os amigos do golpe não têm amigos

Por Celso Vicenzi – 20/12/2017.

Notícia sem contexto é desinformação ou informação pela metade. O Bom Dia Brasil, da Globo, hoje, informou que o deputado federal Wladimir Costa (SD-PA) foi condenado por unanimidade, no Tribunal Regional Eleitoral do Pará por abuso de poder econômico e gastos ilícitos nas eleições de 2014. E ilustra a notícia com cenas dele votando pelo impeachment da Dilma. Mas, detalhe: em nenhum momento da reportagem menciona isso. Muito menos que ele havia tatuado a palavra “Temer” no ombro direito. Ou seja, quando esse pessoal é pego de calça curta, nunca tem amigos.

O jornalismo fake da Globo

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Foto: www12.senado.gov.br

Padrão Globo de Jornalismo é isso! Matéria longa no Globo Rural, hoje, sobre a transposição do rio São Francisco, com todas as coisas boas e outras nem tanto, mas com saldo muito positivo – não puderam omitir. Chegam a citar que desde Dom Pedro II havia a promessa da transposição, mas não dizem o nome de quem cumpriu a tarefa. Jornalismo fake é também assim: apaga da história personagem que a Globo só se interessa em expor no papel de vilão.

Comentários sobre jornalismo e produção de conteúdo

Máquina De Escrever, Teclado, Tipo

Por Celso Vicenzi – 25/10/2016. Imagem: Pixabay.com

Comentário publicado no FB:

Tem gente que não sabe reconhecer um comentário irônico ou fazer interpretação de texto. O comentário – ok, vou explicar! – tentando ser irônico e bem-humorado (falha minha!) é sobre a substituição cada vez mais explícita da reportagem jornalística por uma coisa que a mídia resolveu chamar de “produção de conteúdo” e que costuma deixar muito a desejar pra quem já leu, viu e ouviu um bocado de coisa boa na vida. Há exceções? Aplausos!

Mas os donos da mídia sabem muito bem por que trocaram bons jornalistas – cada vez mais raros nas redações – por profissionais que fazem o que é vagamente definido como “produção de conteúdo”, com pautas que se perdem em superficialidades, que não dão conta de interrogar e buscar respostas à complexidade dos fenômenos políticos, sociais, econômicos, comportamentais etc e que, não bastasse tudo isso, ainda são mal escritas ou mal elaboradas em reportagens de rádio e televisão. É o que se vê na maioria dos casos nos principais veículos de comunicação, que vão afundando numa crise e perdendo qualidade e credibilidade – pior ainda se você caro leitor, cara leitora, não conseguiu perceber o que está acontecendo.

Não vou nem entrar na discussão ética e da dominação, cada vez maior, do comercial em relação ao editorial, e do quanto se perdeu em diversidade e fontes capazes de se contrapor ao chamado “pensamento único” que, de modo geral, com raros momentos de exceção, tomou conta dos espaços de produção de “conteúdo jornalístico” – diferente de “produção de conteúdo”.

É só uma constatação da melancólica e indigna situação a que chegou uma imprensa que vendeu a alma ao diabo e perdeu a dimensão do seu papel na sociedade. Não sou ingênuo a ponto de não compreender o que a imprensa representou, em todas as épocas, para os donos do capital e para a luta ideológica, mas chegamos a uma era em que o cinismo se impôs com tanta força que é quase impossível sustentar o mínimo de credibilidade àquilo que se lê, se ouve e se vê.

Menos mal que surgem, cada vez mais, boas experiências na mídia digital, pautadas justamente pelas ferramentas do velho e bom jornalismo. Narrativas, em qualquer plataforma, que tenham clareza, densidade, exatidão, precisão, coerência, ritmo e objetividade, entre outras virtudes.

Saudades do velho e bom repórter…

Por Celso Vicenzi – 24/10/2017.

Confesso que sou um jornalista desatualizado com tantas novidades na área. Estava tentando, até agora, deglutir o “produtor ou produtora de conteúdo” quando eis que deparo com mais uma nova função. Agora já temos, também, o “infuenciador ou influenciadora digital”.
 
Será que alguém, um dia, sentirá falta de um repórter, de um jornalista?
 
Cartas à redação.

Silêncio que fala

Por Celso Vicenzi – 5/10/2017.

O silêncio eterno a que autoimpô-se Luiz Carlos Cancellier de Olivo, reitor da UFSC, falará para todo o sempre das injustiças e denunciará o modelo ditatorial implantado no Brasil, em pleno século 21: judicial-policial-midiático, igualmente perverso, intolerante, arbitrário, inquisidor, perseguidor, seletivo, cruel, classista, elitista, excludente, desumano.

A corrupção sem disfarces

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Por Celso Vicenzi – 21/6/2017.

A corrupção agora acontece na cara do freguês, mas como a freguesia é outra, os jornalistas acham tudo normal, os revoltados não batem mais panelas, a justiça fecha os olhos e os patos que foram às ruas abanar seus rabinhos indignados voltaram para seus quintais, onde pousam a bunda em confortáveis sofás, de onde assistem tudo com cara de paisagem.

Os erros do PT e o golpe

Mídia e Judiciário não deram chances de defesa. Charge: Aroeira.

Por Celso Vicenzi – 20/6/2017.

Há um argumento frequente nas redes sociais e nas conversas por aí, que embora falho, tem conquistado muitos adeptos. Diz-se, em linhas gerais, que o PT sabia quem era Temer e conhecia bem o PMDB e que, por isso, deve admitir que também errou, ou seja, aceitou correr riscos com essa aliança e, por conseguinte, justifica-se o golpe. Erros não faltam ao PT e a tantos outros partidos que ascenderam ao poder em algum momento da história. Mas nenhum deles pode ser pretexto para se aceitar um golpe.

Para governar é preciso obter maioria no Congresso e para isso recorre-se a coalizões políticas, aqui e em outros países. Errar na escolha das coalizões, no programa de governo ou no exercício do cargo, repito, não justifica um golpe.

Quem faz um mau governo é derrotado na eleição seguinte. É assim numa democracia. O PT pagaria o preço de suas opções políticas e econômicas.

Outra coisa, no entanto, é sofrer um golpe que uniu, entre outros, boa parte do  empresariado, da mídia, do Congresso financiado por corruptores como a Odebrecht, JBS e tantos outros, que obteve a conivência de boa parte do Judiciário, da Polícia Federal e, muito provavelmente, com apoio logístico da nação que considera a América Latina estratégica para seus interesses geopolíticos. Inclua-se, ainda, a traição torpe como poucas vezes se viu, em qualquer país, de um vice-presidente e do maior partido que dava sustentação política ao governo. Contra tudo isso, havia pouco a se fazer (é verdade que nem esse pouco o PT fez, confiando no Judiciário e na Divina Providência).

A crítica ao PT é necessária e deve ser feita, mas não pode ser usada para justificar o golpe. Numa democracia, maus governos ou escolhas políticas devem ser questionadas numa próxima eleição. Golpe é golpe. E os erros do PT não podem justificar o que se fez no país, de maneira ilegítima e arbitrária (apesar da roupagem jurídico-legal com que travestiram o golpe).

Portanto, é preciso separar bem as duas coisas. Críticas ao PT (que se afastou dos movimentos sociais, que optou por uma política econômica equivocada, que não democratizou a comunicação etc), aos dirigentes que se corromperam etc etc, são todas muito bem-vindas e necessárias, porque ajudam a aprimorar a política, a democracia, a sociedade. Mas aceitar que erros políticos de um partido ou de um governante deem pretexto a um golpe – com tudo que já se sabe agora sobre as suas motivações -, desculpem-me, é violentar duplamente a vítima. É estuprar a democracia.

E cá entre nós, toda a corrupção dos golpistas que tomaram de assalto o Palácio do Planalto para tentar livrar a pele e barrar a Lava Jato (recordemos Jucá: “A solução é botar o Michel, num grande acordo nacional, com o Supremo, com tudo, aí parava tudo”), o ódio da classe média à ascensão dos mais pobres, os donos do PIB ávidos por destruir a Constituição e a proteção aos direitos sociais e dos trabalhadores para aumentar seus ganhos, os lucros com a privatização, o interesse de potências estrangeiras no pré-sal, nas riquezas nacionais –, tudo isso teve muito mais peso na motivação do golpe do que eventuais casos de corrupção do PT ou erros políticos e econômicos do governo da presidenta Dilma.

E mostrou-se ainda mais transparente depois que o golpe perdeu o rumo, a ponte para o futuro revelou-se uma frágil pinguela, defensores da ética mostraram-se igualmente corruptos, os golpistas desentenderam-se, a mídia e a justiça retiraram suas máscaras e heróis transmudaram-se em vilões da noite para o dia.

Informação, manipulação e ideologia

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Foto: blogs.odiario.com

Por Celso Vicenzi – 14/6/2017.

Vivemos uma era em que tudo circula muito rapidamente nas redes sociais e é possível que, em algumas situações sejamos enganados sobre a veracidade de uma notícia ou de parte dela.

Claro, quanto mais críticos e bem informados, menores os riscos. Quando acontece e o internauta é idôneo, pede desculpas, corrige e retifica o mais rapidamente possível.

É diferente a situação de quem apura uma informação e tem a obrigação de ser o mais fiel possível aos acontecimentos e às fontes, daquela de quem lê uma notícia, um artigo etc e eventualmente divulga. Ninguém em sã consciência pode afirmar que os internautas vão dispor de tempo e meios para conferir se cada informação foi bem apurada ou não. Você confia mais em algumas fontes, em outras menos, mas ninguém está imune a erros.

Em muitos casos, as informações podem até ser verdadeiras, mas não estão contextualizadas suficientemente ou só contam uma parte.

Num país em que os grandes veículos de comunicação não têm se pautado, em grande parte, pela correta apuração técnica, pela necessária contextualização dos fatos, mas pelo protecionismo que oferecem a alguns e ataques desproporcionais disparados contra outros (situação que piorou muito nos últimos anos), divulgar o que outras correntes de opinião produzem é fundamental à democracia.

Os blogs e portais mais à esquerda também podem incidir nesses erros – embora tenham um peso muito menor e, portanto, de menor gravidade. O problema é que tem gente que só vê ou comenta os eventuais erros e equívocos de blogs e portais que se contrapõem ao jornalismo que se faz na grande mídia e, principalmente, não se ocupa da questão principal, que é o projeto de país que se desenha por trás de cada notícia ou opinião. Se é um modelo inclusivo, que pretende dar voz e vez à maioria da população, ou se aponta para a preservação de interesses de uma minoria privilegiada, num país que já é um dos 10 mais desiguais do planeta. É preciso ter sempre presente o que é o centro de todo o debate ou se entra em superficialidades, subterfúgios e sofismas.

O caso Miriam Leitão e o jornalismo sem contextualização

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Imagem: acasadevidro.com

Por Celso Vicenzi – 14/6/2017.

Sobre o constrangimento a que foi submetida a jornalista Miriam Leitão, durante um voo, a questão central é: houve um golpe, com enorme participação da mídia (e seus principais comentaristas, que podem ser tudo, menos ingênuos). Claro, não foram os únicos, mas não queiram, por favor, tirar-lhes a responsabilidade. Há vários estudos mostrando a espetacular quantidade de horas de ataques nas tevês, dezenas de capas em revistas, profusão de manchetes em jornais que nem sempre primaram pela ética jornalística – para dizer o mínimo. Se quiserem numa linguagem mais direta: manipularam descaradamente fatos e exageraram quanto a outros, de maneira seletiva, atacando uns e protegendo outros, justamente aqueles que comandaram o golpe e hoje mandam no país. Se serão descartados, isso já não tem nenhuma importância porque o principal se conseguiu: retirar do poder de maneira ilegítima (alguém vai querer sustentar que pedaladas fiscais legitimam o golpe?) uma presidenta eleita pelo voto popular.

E o golpe, pra quem quer pensar um pouquinho, não foi exatamente para tirar Dilma ou o PT do poder, mas para impor uma nova agenda política e econômica sem o respaldo da soberania popular, como aliás, estamos assistindo na aprovação de leis e projetos de interesses de corruptores que financiaram o golpe. E estamos só no começo, porque o modelo que querem implantar no país vai retirar direitos conquistados com muita luta pelo povo brasileiro. As consequências serão mais trágicas do que já estamos vislumbrando, com a perda de direitos históricos dos trabalhadores e dos movimentos sociais, com a soberania nacional de joelhos diante de grandes potências, ávidas pelas riquezas do país, que a exemplo das privatizações de FHC, voltarão à feira de liquidações.

Mas que gravidade tem tudo isso, quando o que importa é centrar peso no constrangimento a que foi submetida uma jornalista que não se destaca exatamente pela ética no exercício da profissão, não é mesmo? Não apoio agressão verbal ou de qualquer outro tipo contra quem quer que seja, mas jornalismo sem contextualização é jornalismo de má qualidade. Discutir só as agressões verbais – cuja extensão nem ainda conhecemos bem – fora do contexto do que Miriam Leitão e outros jornalistas, juízes, intelectuais etc ajudaram a desencadear no país é puro sofisma. E nisso, infelizmente, muitos jornalistas são mestres.